
A metáfora da política como jogo de futebol ganha mais um capítulo com o julgamento do mensalão. Tenho insistido sempre que é errado ver a disputa da vida pública como se fosse uma guerra de torcidas. Do jeito que a coisa está, parece sempre que se trata de escolher um lado e torcer para ele: independente do que o sujeito faça, se ele for “do time certo” estará sempre certo. Se for do “time adversário”, estará sempre errado.
Foi isso que tucanos e petistas conseguiram colocar na cabeça do brasileiro médio: o que importa é a cor da camisa, e não a atitude propriamente dita do sujeito. Um eleitor do PSDB parece incapaz de admitir que um governante petista faça algo de bom. E um petista execra o governante tucano até quando ele dá bom dia às pessoas. É a irracionalidade de um fla-flu levada para a vida política, que deveria ser bem mais racional e bem menos emotiva.
No caso do mensalão, a coisa foi um passo além. Não são apenas os dois times. Há, nesse caso, também o juiz. E como no futebol, ambas as torcidas passaram a acreditar que o juiz, necessariamente, está comprado para o outro lado. O sujeito votou pela condenação? Jamais um petista admitirá a hipótese de que tenha sido porque o magistrado encontrou culpa no réu. Pediu a absolvição? Um tucano prefere rasgar as vestes a cogitar a possibilidade de que o réu é mesmo inocente.
No caso dos embargos infringentes, que agora estão sendo julgados, a situação se repete. Cinco ministros votaram contra a aceitação dos recursos e cinco votaram a favor. Alguém poderia pensar simplesmente que se trata de uma questão difícil do direito e compreender que nem sempre julgar é uma atividade matemática. A lei ém imperfeita, e a compreensão dela também não é fácil. Tanto é que os homens e mulheres mais preparados do país para analisar regras jurídicas não chegam a um acordo sobre isso.
Mas não. Nem os eleitores parecem estar fazendo isso e, o que é mais grave, nem os comentaristas levam a possibilidade muito em conta. Basta abrir o blog de um Reinaldo Azevedo da vida para se perceber a qual torcida organizada ele pertence, os Tucanos da fiel. Lá vai ele procurar argumentos para dizer que seu time está sendo roubado. Abre-se o site de um Paulo Henrique Amorim, representante da Mancha vermelha, e está ele perorando contra “Gilmar Dantas”.
Será que precisamos mesmo ser tão radicais nessa escolha de lados? No caso de uma decisão judicial, é ainda mais grave. Trata-se de fazer Justiça. De descobrir se a lei permite ou não tais coisas. Se o sujeito roubou ou não. Se irá ou não preso. Mas tratamos como se fosse a final de um campeonato. Tanto faz qual seja a regra. Desde que seja para o nosso lado, gol de mão estará valendo.
Quem perde é a democracia.








