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No começo de Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos, um doe personagens começa a acreditar que a lei das probabilidades foi revogada: não importa quantas vezes ele jogue a moedinha para cima, ela cai sempre do mesmo lado (não lembro se era cara ou coroa, nem importa aqui).

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Em tese, isso é praticamente impossível. A cada vez, a chance de cair o mesmo resultado deveria diminuir pela metade, de modo que dez vezes cara ou dez vezes coroa é algo quase inconcebível. Mas ele já tinha passado de cem resultados iguais.

Isso quer dizer que quando uma mesma coisa começa a acontecer repetidas vezes, contrariando a lei das probabilidades, ou há uma grande sorte, ou um grande azar – ou então que não é uma coincidência, e alguém está manipulando os resultados.

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E o PT com isso?

As teorias da conspiração contra o PT em geral são meio amalucadas. Aliás, como toda teoria da conspiração. Mas não deixa de ser estranho um fenômeno que vem ocorrendo desde 2012, pelo menos.

A cada vez que um grande nome do partido chega num momento delicado, a versão mais rigorosa da lei, que estava mofando num canto de baú e jamais fora aplicada, ressurge para que haja uma punição exemplar. E, logo em seguida, retorna novamente ao baú, como obsoleta.

No julgamento do mensalão foi assim. Ninguém falava em teoria do domínio do fato por essas bandas. Mas quando chegou a hora de julgar Dirceu e Genoino, a ideia ganhou o STF de sopetão. Como numa iluminação, o pleno lembrou que precisava punir os dois dirigentes ainda que sem provas, como disse numa frase célebre a ministra Rosa Weber (à época orientada por ninguém menos que Sergio Moro).

Leia mais: Crônica sobre o possível último ato público de Lula

O mesmo aconteceu em 2016. Nunca antes o Congresso havia cogitado depor um presidente por causa de questões contábeis – que aconteciam e aparentemente continuarão a acontecer em muitos governos. Mas, de repente, os parlamentares, em nome de suas famílias, foram ao microfone lembrar que aquilo não só era errado como era crime de responsabilidade.

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Os mesmos parlamentares, porém, confrontados com fatos bem mais graves, logo em seguida, acharam que não era o caso de investigar Temer. Sabe como é: em nome da estabilidade.

A Lava Jato tem muito disso também. Antes de 2010, a PF e o Ministério Público nunca tinham chegado a agir tão fortemente contra políticos acusados de corrupção. Que bom que agora agem, evidente. Mas depois que chegou a Lula a investigação estranhamente parece ter perdido muito de seu ímpeto.

Prisão antecipada

Agora, outra coisa curiosa. Nunca se prendeu ninguém em segunda instância no país. Quando chega a Lava Jato, o STF decide que pode. E Lula, possivelmente, será preso dentro dessa nova interpretação, muito mais rigorosa, da Constituição.

A pergunta é: será que isso vai durar? Porque uma coisa é usar a versão mais dura da lei para um grupo específico de pessoas e deixar a versão mais suave para todos os outros. E outra seria usar essa mesma versão mais rigorosa para todo mundo.

E isso nem está nas mãos exatamente de Moro, ou de Deltan, ou mesmo do STF. O que a gente tem que ver é se a moedinha do petismo está sempre caindo com a mesma face para baixo – e se as outras continuam seguindo aquele mesmo padrão de sempre, bem diferente. Aliás, muitíssimo diferente.

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