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Carlos Alberto Di Franco

Carlos Alberto Di Franco

TSE

Posse – festa na ilha da fantasia

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O ministro Nunes Marques (segundo da direita para a esquerda) durante sua posse como presidente do TSE. (Foto: Luiz Roberto/TSE)

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A posse do novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, escancarou, mais uma vez, os dois Brasis que já não se encontram. São dois mundos distintos, separados não apenas pela renda ou pelo acesso ao poder, mas por uma diferença muito mais profunda: a percepção da realidade.

De um lado, existe o Brasil oficial. O Brasil das autoridades cercadas de privilégios, dos palácios, das solenidades luxuosas, dos discursos vazios e da blindagem permanente. É o Brasil das elites burocráticas que perderam completamente o senso de limite. Um universo onde a liturgia do cargo foi substituída pela cultura da celebridade, do exibicionismo e da vaidade institucional.

Do outro lado, existe o Brasil real. O Brasil que acorda cedo, trabalha muito, paga impostos escorchantes, enfrenta filas, insegurança, inflação, transporte precário e serviços públicos deficientes. O Brasil que sustenta a máquina, mas não participa dela. O Brasil silencioso que vê, perplexo, o crescimento de uma casta política e jurídica cada vez mais distante da vida concreta das pessoas comuns.

A cerimônia no TSE simbolizou essa ruptura moral. Não se tratava apenas da posse de um magistrado. Tratava-se da celebração de um modelo de poder que se tornou impermeável ao sentimento nacional. Autoridades políticas, ministros, empresários, figuras influentes, todos reunidos numa atmosfera de glamour incompatível com a gravidade do momento brasileiro.

O Brasil que sustenta a máquina vê, perplexo, o crescimento de uma casta política e jurídica cada vez mais distante da vida concreta das pessoas comuns

Enquanto isso, milhões de brasileiros vivem esmagados pela insegurança econômica, pelo medo da violência e pela sensação crescente de abandono institucional. O contraste é brutal.

Conheci um ex-integrante da corte suprema que representava exatamente o oposto desse espírito dominante. José Geraldo Rodrigues de Alckmin, tio do atual vice-presidente da República, morreu no exercício do cargo. Era um homem culto, brilhante, discreto e profundamente consciente da dignidade da função pública.

Levava uma vida modestíssima. Evitava qualquer comportamento que pudesse, ainda que remotamente, comprometer a imagem de imparcialidade da corte. Havia nele uma virtude hoje quase extinta na vida pública brasileira: o pudor institucional.

Os grandes homens públicos do passado compreendiam que autoridade não é espetáculo. É responsabilidade. O cargo não existia para alimentar vaidades pessoais, mas para servir à sociedade com discrição, compostura e espírito de sacrifício. Outros homens. Outros tempos.

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Hoje, infelizmente, parte importante das instituições brasileiras parece ter aderido à lógica do estrelismo. Magistrados dão entrevistas permanentes, frequentam ambientes incompatíveis com a sobriedade judicial, participam de eventos marcados pelo deslumbramento e assumem, muitas vezes, um protagonismo político incompatível com a essência de suas funções.

Criou-se no Brasil uma perigosa inversão de valores. A liturgia republicana foi substituída pela cultura da ostentação. A discrição cedeu lugar à autopromoção. O dever de reserva foi atropelado pelo desejo de visibilidade. O problema não é estético. É moral e institucional.

Quando autoridades se afastam da realidade do povo, perdem também a capacidade de compreender os limites do próprio poder. Surge, então, o ambiente ideal para o arbítrio, para os excessos e para o enfraquecimento da confiança pública.

O cidadão comum olha para Brasília e já não se sente representado. Sente-se governado por uma estrutura fechada, autorreferente, distante e muitas vezes indiferente às angústias reais da população.

A crise brasileira não é apenas econômica. É, antes de tudo, uma crise de referências morais.

Quando autoridades se afastam da realidade do povo, perdem também a capacidade de compreender os limites do próprio poder

O país foi sendo capturado por uma lógica de poder que mistura vaidade, corporativismo, fisiologismo e autoritarismo crescente. Em muitos setores da vida pública, perdeu-se completamente a noção de serviço. Restou apenas a lógica da ocupação de espaços, da manutenção de privilégios e da ampliação contínua de poder.

E enquanto isso acontece, o crime organizado avança assustadoramente. Não se trata mais de uma ameaça periférica. O crime organizado já se infiltra nos centros decisórios do país, influencia estruturas políticas, corrói instituições e desafia abertamente o Estado. O Brasil vive uma deterioração silenciosa, profunda e perigosíssima.

Mas ainda há esperança. O Brasil real continua vivo. Continua trabalhando, produzindo, empreendendo, sustentando famílias, preservando valores e resistindo ao processo de degradação institucional.

As próximas eleições terão uma importância histórica. Não serão eleições comuns. O que estará em jogo não será apenas a escolha de governantes ou parlamentares. Estará em jogo o próprio modelo de país que desejamos construir.

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O Senado Federal terá um papel decisivo. Os governos estaduais também. A Câmara dos Deputados igualmente. E, sobretudo, a Presidência da República precisará recuperar a capacidade de unir o país em torno de um projeto nacional sério, equilibrado e comprometido com as liberdades.

O voto deixará de ser apenas um direito político. Será um ato de responsabilidade histórica.

O Brasil precisa reencontrar a sobriedade, o equilíbrio institucional e o respeito ao cidadão comum. Precisa recuperar o valor da modéstia republicana e da autoridade moral.

O Brasil real já não suporta mais financiar a festa da ilha da fantasia.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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