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A voz dos idiotas
| Foto: BigStock

Como bem disse o saudoso Umberto Eco, a internet deu voz aos idiotas. Mais ainda, diria eu: como ela possibilitou que pessoas com interesses estranhos se encontrassem, tornou-se mais fácil criar grupos de incentivo mútuo. Inclusive para idiotas, tarados (como as redes de pedófilos que compram e vendem provas materiais de seus crimes) e, até, quem diria, gente inocente. Exatamente como eu, ainda no tempo da internet discada, ficava feliz por poder, dum cantão perdido do Brasil, debater com gente do mundo inteiro assuntos mais raros que me interessem, como o judaísmo do século 1.º, os idiotas alegram-se por encontrar vastos números de coleguinhas, prontos a partilhar suas idiotices. Isto vai longe: do pessoal que consegue acreditar que há uma conspiração de satanistas pedófilos que matam criancinhas num vasto laboratório subterrâneo debaixo do Central Park, em Nova York, com o objetivo de retirar das vítimas uma substância mágica que combateria o envelhecimento (mas não se assustem: o Trump sabe de tudo e vai prendê-los!), a quem defende a inocência do Lula, ou a planicidade da Terra (que se fosse redonda seria “redondeta”, não planeta!) há de tudo.

Quando a isso se une estarmos na decadência final de nossa civilização, na dita pós-modernidade, em que “verdades pessoais” sem muita relação com os fatos são a regra, não uma exceção encontradiça apenas em hospícios, e em que o provincianismo temporal galopante leva as pessoas a viver num presente perpétuo, sem nem sequer perceber que nossos atos hoje influenciam o amanhã, aí é que a coisa degringola mesmo. Um dos sinais mais claros da decadência de qualquer civilização é a diminuição da natalidade. No século passado, fizeram enorme sucesso as teorias delirantes do clérigo anglicano Thomas Malthus, que pregava que o aumento da capacidade de produção de alimentos jamais alcançaria o aumento da população. Ele, claro, estava errado. E, além de errado, racista, na medida em que a “solução” seria que apenas os ricos, brancos e bem-sucedidos pudessem procriar, antecipando o eugenismo que faria tanto estrago mais tarde.

Mesmo errado, todavia, suas propostas foram abraçadas por enorme quantidade de governos e “filantropos” à moda Bill Gates, decididos a “ajudar” impedindo a procriação dos pretos e pobres. A diminuição forçada da população de pretos e pobres mundo afora tornou-se política oficial do governo norte-americano, tal como proposta por Henry Kissinger. Vacinas com componentes esterilizantes foram distribuídas Terceiro Mundo afora; “clínicas” de aborto foram instaladas nos bairros mais pobres (e com gente mais escurinha) dos EUA; e, claro, milhões de pessoas consideradas “subumanas” pelo nazismo foram chacinadas. A própria China embarcou, sob os aplausos de muitos governantes ocidentais, numa política literalmente assassina, em que cada casal podia ter apenas um filho, sendo os posteriores mortos pela parteira ao nascer. O resultado é que hoje está sendo necessário até mesmo importar esposas para os rapazes chineses, e aquele enorme país está em vias de sofrer do mesmo mal que já assola a Europa ocidental (que tenta resolvê-lo importando gente de suas antigas colônias): a impossibilidade de sustentar os muitos idosos aposentados, por falta de jovens trabalhando.

As propostas de Malthus, mesmo erradas, foram abraçadas por enorme quantidade de governos e “filantropos” à moda Bill Gates, decididos a “ajudar” impedindo a procriação dos pretos e pobres

Mesmo tendo sido provado errado em suas previsões, mesmo tendo ficado evidente o racismo hediondo de suas obras, Malthus ainda vive. E a internet, cumprindo seu papel de unir os esquisitões, conseguiu dar a um subgrupo de malthusianos lugar de encontro e reforço mútuo nos seus delírios. São os que se fazem chamar “childfree”, literalmente “livres de filhos”, ou “livres de crianças”. Trata-se de gente biologicamente adulta, no mais das vezes ainda em idade fértil, que como todos os demais já foi um dia criança, mas que abraça orgulhosa uma das mais temidas maldições da Antiguidade: a infertilidade.

Veja bem o meu caro leitor que não se trata de gente infértil que tenta fazer o melhor de suas circunstâncias, mas de gente fértil que propositadamente se nega a abrir à vida o sexo que pratica. E, a julgar pelo papo desse pessoal, não só pratica muito, como pratica em geral um sexo complicado, em que daqui a pouco será necessário ter bodes, anões besuntados e carrinhos de mão (© L.F.Verissimo) para atingir o clímax. Orgasmos, sim; bebês, jamais! poderia ser o lema desta triste tribo.

Trata-se apenas duma continuação, dum aumento em grau sem mudança essencial, do que já é infelizmente feito nas classes mais abastadas. Nestas, cada vez mais o casamento é postergado até perto dos 30 anos, já bem depois do fim do auge da capacidade reprodutiva feminina, demorando por vezes a abertura à vida ainda mais. Evidentemente, torna-se assim difícil e improvável passar de um filho por casal. O que sempre foi literalmente a coisa mais natural do mundo, ter filhos, tornou-se nas classes mais altas uma operação de guerra, em que primíparas de quase 40 anos (ou mais) precisam de enorme ajuda para levar a cabo gravidezes de risco, apenas para depois se verem esgotadas tentando aos 30 e tantos fazer o duro trabalho maternal normalmente feito por mocinhas bem mais novas enquanto se respeitou a natureza humana.

De uma certa maneira, quando a opção é entre engravidar muito depois da hora e não engravidar, não deixa de ser compreensível que haja quem prefira não engravidar. Mas os childfree vão mais além. Talvez numa negação exagerada que tanto Shakespeare quanto Freud entenderiam, eles protestam demasiadamente seu horror a crianças. Não se trata apenas do egoísmo de quem prefere gastar em prazeres pessoais o que deveria ser gasto na criação da próxima geração, de quem confia que os filhos dos outros trabalharão para pagar sua aposentadoria. Não: é um orgulho do útero ressequido, dos dutos seminais interrompidos, das ejaculações de festim. É um ódio de crianças, das mesmas crianças que estarão daqui a uma ou duas décadas trabalhando para pagar a aposentadoria dos childfree. É gente que reclama por um restaurante aceitar a entrada de crianças, mas orgulha-se de que, no restaurante que prefere frequentar, seu cachorrinho come à mesa, derramando sua baba asquerosa num prato que depois será usado por outro freguês. Gente que anda com cachorro num carrinho de bebê e atira-se sem ser chamada à defesa da suposta superioridade do quadrúpede sobre a criança.

Trata-se de uma mistura de vários aspectos do pior da decadência civilizacional. A incapacidade de perceber que o futuro é construído hoje – com seus corolários lógicos, como o fato de que sem que nasçam crianças hoje não haverá quem produza amanhã para que os childfree de hoje possam aposentar-se no futuro. A incapacidade – que alimenta a anterior – de perceber que não é uma condição permanente estar no auge da vida, em plena fase reprodutiva, quando temos capacidades físicas maiores que as que tínhamos antes e menores que as que teremos depois, justamente para que consigamos cuidar de crianças pequenas; afinal, o adulto de hoje é a criança de ontem e o idoso de amanhã. A incapacidade de perceber que a sociedade, como o próprio nome indica, é um esforço comum que vara os séculos, em que tanto o trabalho “horizontal”, de construir e manter hoje, quanto o “vertical”, de manter o que foi construído ontem e construir o amanhã (incluindo, claro, gerar e criar as pessoas de amanhã), inserem-se numa continuidade que não pode ser interrompida sem graves consequências. A incapacidade de perceber que não é “inteligência”, mas velhacaria da pior espécie, gastar em si mesmo o que a sociedade dá para criar os filhos – e não estou necessariamente falando de salário, ainda que este deva levar em consideração esta necessidade, mas de coisas muito mais básicas, como água encanada, esgoto...

Nós só temos o que temos, enquanto membros duma sociedade, devido ao trabalho das gerações anteriores. E o que temos não é nosso para que o desperdicemos prodigamente; exatamente como herdamos muito, devemos deixar para as próximas gerações heranças valiosas. Que incluem, claro, as próprias pessoas que as comporão. Negar-se ao matrimônio para se dedicar a algo maior, sacrificando um elemento tão importante da vida, é compreensível. É o caso, por exemplo, de alguns grandes artistas e pesquisadores, bem como dos religiosos em geral. Do mesmo modo, há quem não tenha interesse em casar-se, seja por não se sentir atraído pelo sexo oposto, seja por qualquer outra razão. E, finalmente, há quem queira, mas não consiga, na medida em que a fertilidade humana não é coisa simples; eu mesmo fico feliz por ter-me casado jovem, pois os dois filhos que conseguimos ter nasceram antes de minha esposa completar 20 anos, tendo sido perdidos todos os posteriores antes do nascimento viável.

Não é “inteligência”, mas velhacaria da pior espécie, gastar em si mesmo o que a sociedade dá para criar os filhos

Negar-se a ter filhos, todavia, apenas para que sobre mais dinheiro no fim do mês, sem nenhum ideal a mais, vivendo maritalmente, mas impedindo ativamente a fertilidade das relações conjugais, aproveitando-se de tudo o que foi criado e erigido pelas gerações anteriores enquanto se nega a perpetuá-las, é simples egoísmo. E orgulhar-se disso, orgulhar-se da própria cegueira e da própria cobiça, orgulhar-se de detestar a criança que é hoje como se foi ontem, orgulhar-se de preferir um quadrúpede irracional que come carniça a uma criança que tanto tem a dar ao mundo, é um dos mais completos e mais tristes atestados de idiotia que se pode tirar.

Como a internet, todavia, uniu essas pessoas ao dar-lhes voz e fazer com que cada um possa encontrar um bando de gente que espelhe e retroalimente nossas próprias sandices, de modo a que nos convençamos de que elas, ao contrário, são rasgos de genialidade, é cada vez mais provável que encontremos este tipo particular por aí. Reclamando do choro da minha netinha no restaurante enquanto infecta o prato com a boca sórdida de seu animal. Orgulhando-se de sua matreirice de não gastar em crianças, sim em si mesmo. Ou, sozinho num canto de um asilo de caridade para idosos, chorando por não ter quem o visite. Ou, também idoso, morrendo sozinho de fome e sede com a geladeira cheia no próprio apartamento por ter tropeçado e não ter conseguido levantar-se.

A incapacidade de perceber o futuro, de notar que o que construímos hoje (inclusive uma família, base da sociedade) é o que teremos amanhã, é o que subjaz a tão patética pseudoesperteza. Que, como todas, se crê inteligência.

Afinal, a marca do otário é achar que é malandro.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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