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A ideologia de gênero da nossa época um dia será julgada por suas consequências
A ideologia de gênero da nossa época um dia será julgada por suas consequências.| Foto: Sharon McCutcheon/ Unsplash

Um médico inglês acaba de ser demitido por se recusar a aceitar a ficção pela qual o “gênero” – sucedâneo artificial e subjetivo do sexo – seria o verdadeiro determinante da identidade. Num desses inúmeros cursos com os quais os serviços públicos distribuem dinheiro a mancheias aos instrutores amigos dos poderosos e fazem os funcionários normais perder tempo, foi exigido ao bom doutor David Mackereth que sexuasse os pronomes de acordo com o que o paciente lhe solicitasse. Coisa semelhante já acontece no Brasil, aliás. No caso dele, após décadas a serviço do equivalente britânico do SUS (que lá, por não existir saúde privada, é a única oportunidade de emprego para um médico), foi posto no olho da rua.

Decidido a lutar por seus direitos, todavia, ele já disse que entrará na Justiça, alegando preconceito religioso contra ele. E ele tem razão: afinal, cristãos, de qualquer espécie, não podem aceitar a ideologia de gênero. A razão para isso é simples: o cristão é, antes de qualquer outra coisa, definido por sua lealdade Àquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Quando se adora a Verdade, quando se considera que o próprio Deus Criador e a Verdade são uma coisa só, é evidente que mentiras, mesmo mentiras piedosas ou “mentirinhas brancas”, estão fora de cogitação.

E a ideologia de gênero é exatamente isto: uma mentira. Mais ainda, uma mentira tornada obrigatória duma canetada, para indignação da população como um todo. É evidente que há, e sempre houve (ainda que em quantidade bem menor, mas isto já é outro papo) pessoas que não se sentem perfeitamente à vontade da conformidade de seus atos e trejeitos com o próprio sexo biológico. Podemos afirmar, mesmo, que dentro de cada um dos dois únicos sexos há um degradê praticamente sem fim, que vai de um extremo a outro do campo daquele sexo. Assim, há desde rapazes hipermasculinos até rapazes afeminados, com todo tipo de tons de cinza entre eles. Do mesmo modo, há desde mocinhas que mais parecem florzinhas lânguidas até moças brabas e ativas, com um número infinito de tons de cinza entre elas. O que não há, todavia, é alguém que possa ultrapassar os estritos limites de sua biologia e passar a pertencer ao sexo oposto, e é isso que a ideologia de gênero tenta vender.

Por mais masculina que seja uma moça – tomemos como exemplo alguma jogadora campeã mundial de futebol norte-americana –, ela está longe de pertencer ao outro sexo. Tanto é que o time feminino dela, coberto de glórias ao enfrentar outros times femininos, tomou uma goleada vergonhosa (ou não) de um time de molequinhos americanos de menos de 15 anos de idade. Do mesmo modo, praticamente todos os recordes de levantamento de peso femininos atuais estão na mão de um sujeito que passou a afirmar-se mulher e a participar de suas competições, evidentemente ganhando todos os torneios. Nas artes marciais e no vôlei, que eu saiba (e eu realmente não acompanho essas coisas), também já há rapazes surrando as moças pelo fácil expediente de declarar-se uma delas e aboletar-se nos campeonatos como um filhote de cuco no ninho de outro pássaro, comendo sozinho o que seria de todos e empurrando os “irmãos” para a morte quando os “pais” se ausentam.

Dentro de cada um dos dois únicos sexos há um degradê praticamente sem fim. O que não há é alguém que possa ultrapassar os estritos limites de sua biologia

Do mesmo modo, por mais que um rapaz se sinta feminino, por mais que tenha medo de baratas, ele será sempre um rapaz. A ideia insana de tentar fazer dele uma moça, por via de processos extremamente violentos (castração cirúrgica, envenenamento com hormônios etc.) só serve para tentar confirmar nele uma fantasia que não se coaduna com a realidade. Ele nasceu pertencendo a um sexo e morrerá pertencendo a este mesmo sexo. Esta é a verdade. A Verdade. Seria aos olhos de alguns, de alguma maneira – para darmos o benefício da dúvida aos ideólogos de gênero –, uma mentira piedosa fingir que ele é uma moça. É a velha história de “é melhor não contrariar”. Mas, assim como jamais foi ajudado um Napoleão de hospício por quem lhe oferecesse tropas para recuperar seu trono, jamais foi ajudada uma pessoa que caiu no engano existencial perigosíssimo de se achar pertencente ao sexo oposto por quem o tratasse como se isto fosse a verdade.

Em muitas sociedades, especialmente as muçulmanas, onde as mulheres costumavam ser mantidas entre quatro paredes o tempo todo, criou-se a figura do molequinho afeminado que serve de escravo sexual de algum senhor de tropas poderoso. Ainda é algo muito comum no Afeganistão, dizem. Estes rapazes são maquiados e tratados como se mulheres fossem; aprendem a dançar para o prazer de seus mestres, e são no mais das vezes tratados no feminino. Será que isso os ajuda de alguma maneira? Será que é bom para um molequinho recém-púbere virar objeto sexual de tarados de meia-idade? Pouco provável. Pois é exatamente isso o que a ideologia de gênero tenta trazer à nossa sociedade.

Já tratei neste mesmo espaço do meninote americano de 10 ou 11 anos que se veste de drag queen e faz shows hipersexualizados para deleite de pervertidos, coberto de plumas e rebolando, e aceitando de bom grado que lhe enfiem notas de dinheiro na parca sunguinha que cobre sua magricelice de molequinho. Ele poderia ir para o Afeganistão, em troca de um menino afegão da mesma idade; os públicos respectivos dificilmente reclamariam. Mas reclama a justiça, e brada a Verdade, que isso é objetivamente errado. Imoral. Decadente e depravado.

A Verdade é que tanto o americaninho quanto os afegãozinhos são meninos que deveriam estar correndo atrás de outros meninos com revolverzinhos de espoleta, ou caindo da bicicleta, ou subindo em árvores ou, de qualquer outra maneira que fosse, vivenciando a sua meninice. Mas, quando se confunde o sexo com o desejo sexual e este com a identidade, o que se tem é isso: depravação. Taras. Mentiras.

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O “gênero” seria uma identidade construída de modo perfeita e completamente subjetivo, para a qual simplesmente não teria importância alguma o sexo da pessoa. Quem se sente do gênero tal a ele pertenceria, e ponto final. Quando se toma o vasto degradê de modos de viver o próprio sexo que apontei acima, isto poderia até fazer algum sentido: haveria um “gênero” para o projeto de Schwarzenegger e outro para o projeto de Cauby Peixoto, e ambos estariam dentro da gama enorme que forma o sexo masculino. Mas não: eles querem ir além. Os ideólogos de gênero querem trocar o sexo pelo gênero, retirando a divisão binária que a biologia determina e substituindo-a por uma gama infinita e pluridimensional totalmente desprovida de raiz e baseada exclusivamente na subjetividade pessoal. E então nem o Schwarzenegger de subúrbio nem o Cauby da periferia seriam mais homens; ambos fariam parte de outros gêneros. O sexo, para todos os efeitos, teria desaparecido em prol do gênero.

Ora, isto é uma imbecilidade rematada, em tantos níveis que fica até difícil saber por onde começar. Outro dia, por exemplo, uma moça que se fazia passar por rapaz, com apoio estatal (documentos atestando-lhe um sexo falso etc., tudo de acordo com a ideologia de gênero), deu entrada num hospital com dores de barriga, e acabou perdendo o bebê. Afinal, o médico havia visto em seus documentos que ela seria do sexo masculino, e por isso não lhe passou pela cabeça que ela pudesse estar em trabalho de parto! E há ainda inúmeras outras condições médicas para as quais o sexo faz toda a diferença.

Além disso, o pertencimento a supostos gêneros na prática infinitos em número simplesmente não tem qualquer valor para a sociedade, não mais que, por exemplo, a cor dos olhos das pessoas. Os meus olhos são castanhos excepcionalmente claros. E daí? Isso não faz de mim em nada diferente de pessoas com olhos castanhos escuros, azuis, verdes, pretos, o que for. O Estado é, com razão, cego para a cor de meus olhos. Mas o sexo não é assim, na medida em que é pelo sexo que vêm as próximas gerações. Interessa ao Estado poder reconhecer as uniões sexuadas de que virão crianças e que cuidarão dessas crianças até que os petizes estejam prontos para viver por conta própria em sociedade. Interessa ao Estado saber quem é um rapaz, que pode e deve ser chamado a serviços masculinos em prol da pátria, e quem é uma moça, que deve ter o privilégio de escolher se quer ou não unir-se às Forças Armadas (exatamente como no matrimônio ela deve ter o privilégio de escolher se quer ou não trabalhar também fora de casa).

A ideologia, ao tentar substituir o sexo (que existe e é binário, definido biologicamente) pelo gênero (que não existe objetivamente por ser apenas um vago “sentir-se” e que, mais ainda, certamente irá flutuar com o tempo) está cegando o Estado para o que interessa realmente para o seu papel social de preservador da sociedade e levando-o a ater-se a uma irrelevância absoluta: “como a pessoa se sente”. Se ela se sente assim ou assado, é um problema dela e de seu psicanalista. Se ela apresenta disforia de gênero, idem: é uma inadequação do intelecto à coisa, e por isso é o pensamento que deve mudar para adequar-se à coisa real. Notemos que basta que a pessoa consiga aceitar-se como pertencente ao próprio sexo para que este problema esteja resolvido: com quem ela tem vontade de deitar-se é outra coisa, e é questão exclusivamente dela, mais uma vez.

O sexo masculino e o sexo feminino são a verdade de cada um, e fazem parte básica da formação da identidade de cada um

Pois a Verdade – e aí voltamos ao bom doutor inglês – é a adequação do intelecto à coisa. Se eu vejo uma laranja e penso “oba, uma maçã”, minha intelecção do que seja aquilo está simplesmente errada. Falsa. Mentirosa. Do mesmo modo, se eu vejo um rapaz – ainda que com seios de silicone, castrado etc. – e penso “trata-se de uma mocinha”, eu estou enganado. E, se alguém me força a chamá-lo no feminino, a tratá-lo como se uma mocinha fosse, aí começamos a ter problemas. Não posso; sou cristão, sou um adorador da Verdade.

Vale inclusive notar que os delírios têm avançado a passos tão largos que mesmo os rapazes que apenas se dizem moças, sem serem castrados, estão tendo de ser tratados como se moças fossem, o que já gerou casos no mínimo desnecessários, como o tarado americano que se declarou mulher e por isso foi levado a um presídio feminino, onde estuprou várias colegas de cárcere. E, claro, não estivesse ele preso, estaria dividindo os banheiros femininos com moças muito mais fracas fisicamente que ele e sua libido desordenada.

O sexo masculino e o sexo feminino são a verdade de cada um (ou, antes, as formas de pertencimento de cada um à Verdade única), e fazem parte básica da formação da identidade de cada um. Mesmo quando, ou especialmente quando, diria eu, nos casos em que a pessoa, dentro do vasto espectro que representa cada um dos dois, não está colocada dentro do mais óbvio. Em outras palavras: reconhecer-se homem é mais importante para o rapaz afeminado, e reconhecer-se mulher é mais importante para a moça masculinizada, que para quem se adéque mais aos estereótipos de sexo. Isto por uma razão simples: apesar de tudo, de todos os gostos, de todos os desejos e adequações entre a própria autoimagem e a realidade, a moça foi preparada pela sua biologia para engravidar e ter filhos, e o rapaz não. No caso de ocorrer uma união entre duas pessoas de gênero Flicts e Flucts não há nada de previsível, mas no caso de ocorrer uma união entre homem (ainda que afeminado) e mulher (ainda que masculinizada), daí virá um bebezinho. E a sociedade precisa amparar isto, e precisa amparar a cada pessoa na sua caminhada por este mundo. Para tal, ela precisa ater-se à Verdade, e adequar a intelecção social coletiva à coisa real, que é a biologia; ao que é objetivo, não ao que é subjetivo.

Mas toda a argumentação utilitarista que apresentei acima ainda cai por terra diante do testemunho cristão do médico inglês, que simplesmente declarou que, por adorar a Verdade, não pode se ajoelhar diante da mentira. Que Deus o guarde em sua nobre fidelidade.

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