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Laurel Hubbard, da Nova Zelândia, a primeira atleta trans da história das Olimpíadas
Laurel Hubbard, da Nova Zelândia, foi a primeira atleta transexual da história dos Jogos Olímpicos.| Foto: EFE/EPA/Michael Reynolds

Um ovo podre estraga um bolo inteiro, por melhores que sejam os demais ingredientes. Do mesmo modo, um erro filosófico na origem de um raciocínio – ou mesmo de um modelo de sociedade – sempre acaba voltando para criar problemas. As alucinadas políticas identitárias ora na moda, por exemplo, são decorrência lógica de um erro de base de toda a modernidade. A pós-modernidade, em que nos refocilamos neste novo milênio, é apenas a conclusão do silogismo vicioso da era anterior. O mais curioso, na verdade, é que se tenha levado mais de 500 anos para concluir um silogismo cujas premissas foram sempre negadas em ato enquanto se as afirmava em teoria.

A coisa é simples, para não dizer estúpida; é o tipo de coisa tão evidentemente errada que só um intelectual a poderia levar a sério. Mesmo assim, construíram-se a partir dela sistemas de governo, utopias genocidas e infelicidades sistemáticas, devastando antigas sociedades e levando o ser humano à beira da extinção autoprovocada. Quando vemos uma galinha e um cavalo, não temos como confundir um com o outro. A galinha é obviamente coisa da mesma natureza que outra galinha, como o cavalo de outro cavalo. A diferença objetiva entre cavalo e galinha, tal como a unidade intranatural das galinhas ou cavalos, salta aos olhos. Surgiu, contudo, a modernidade a partir da negação absurda de algo tão evidente; da afirmação de que a unidade equina ou galinácea, bem como a diferença entre a galinha e o cavalo, não existem no mundo exterior, mas só na cabeça de quem a percebe.

Em outras palavras, passou-se para dentro do crânio o que por direito está fora dele, tornando subjetivo o que é objetivo e negando assim liminarmente qualquer possibilidade de conhecimento real do mundo exterior. A realidade passou a ser uma ilusão esquizoide, uma subjetivíssima construção interior de relações objetivamente inexistentes. Para fugir dos corolários lógicos de tal delírio, passou-se a tomar por universal (ou seja, objetivo) algo que não tem como deixar de ser subjetivo, até por ser um mecanismo interno da mente humana: a razão. Sentido não há; afinal, se não se pode sequer ter certeza da existência do próximo, como postular que seus raciocínios seriam iguais aos nossos?! Mesmo assim, a partir dessa inversão fantástica se veio tentando construir “um mundo melhor”, de modo geral usando sangue humano à guisa de cimento. Nunca se matou tanto quanto na era moderna, e nunca se matou de maneira tão desapiedada e friamente técnica quanto em seu auge, no século passado.

As alucinadas políticas identitárias ora na moda são decorrência lógica de um erro de base de toda a modernidade

Mais uma vez, salta aos olhos a razão: se não há algo objetivo que una todos os cavalos, algo diverso do que une todas as galinhas, é forçoso concluir que o mesmo ocorra em relação aos seres humanos. Foi este o sofisma empregado para negar a noção cristã de dignidade humana. Se é só a nossa cabeça a inventar uma humanidade comum a todos, é um passo pequeno negar a humanidade do preto, do índio, do judeu, da mulher, ou de qualquer outra bola da vez. Negando-se a humanidade do próximo, ele pode ser escravizado ou chacinado à vontade.

Correndo em pista paralela a partir da mesma barbaridade de origem, tivemos e temos a aplicação individualizada da mesma negação ontológica a cada ser humano. Antes éramos homens em primeiro lugar, deste ou daquele sexo, desta ou daquela origem, com este ou aquele talento, e por aí vai. Mas se não há uma humanidade não há homem, objetivamente falando, e isto corta as pernas do próprio autodiscernimento. Se é tudo coisa da nossa cabeça, se não passa de invenção humana subjetiva o reconhecimento de uma natureza humana, a questão deixa de ser a natureza – tida por inexistente objetivamente – e passa a ser o reconhecimento de sinais, de notas que possam ser usadas para construir – não reconhecer – uma tal natureza. Afinal, só assim a inversão que subjetiviza o objetivo e objetiviza o subjetivo pode funcionar. Para quem não é tão louco assim, a aparência, peso, capacidades e demais acidentes do cavalo servem para reconhecer subjetivamente sua equinidade objetiva. Para quem engoliu a maluquice nominalista (eis o nome, senhores, do erro de base: nominalismo), a coisa é espelhada: os acidentes do cavalo servem para que construamos uma equinidade subjetiva. E os acidentes do homem, ou deste homem, ou desta cepa de homens, servem para que clivemos algo distinto (em nossa cabecinha apenas, claro) da vasta sopa de entes que nos rodeia. Ou não.

E daí passou-se a tentar criar um Homem (com “H” maiúsculo) de dentro para fora, ao contrário da realidade. Nas imortalmente alopradas palavras de Sarte, “a existência precede a essência”. Ou seja: antes de termos a natureza humana sentimo-nos homens e agimos como tal, e construímos nossa essência – o que somos – a partir da existência – o que fazemos, pensamos etc. Cada teórico abestalhado, numa vasta sucessão de sandices, inventou um “Homem” a partir de si, criando-o (e à obscura noção remanescente de uma Divindade) à própria (auto-)imagem e semelhança. Sendo o homem o que é, tendo o homem as péssimas inclinações herdadas de Adão, não se precisa de um Freud para concluir que tal invenção-de-si há de partir, em grande medida, muito mais dos vícios que das virtudes. Um Rousseau a afirmar a bondade do Homem na verdade estava afirmando-se bom, bom o bastante para posar de perito em educação infantil tendo abandonado os próprios filhos. Um Marx a reduzir o Homem à sua faceta econômica – ou um Freud à sexual – estava apenas estendendo à massa humana o que sonhava ter em si mesmo. Dentro do rocambolesco contexto moderno, em que o subjetivo é objetivo e vice-versa, a coisa pode até fazer sentido, como faz sentido num jogo de cartas a superioridade desta ou daquela sem que haja qualquer hierarquia objetiva entre elas. Paradoxalmente, quem melhor entendeu a gravidade do disparate foi um louco, o sifilítico Nietzsche. Ao afirmar simultaneamente a “morte de Deus” – a partir da qual tudo se torna possível – e o advento de um Super-Homem fabricado sob medida para se fazer de deus no lugar de Deus, ele proclamou às claras a inversão moderna.

Mas cadê o tal (Super?)Homem, vindo de dentro para fora? Uma dica que se junta à de Sartre nos vem de sua companheira de existência e desatino, Simone de Beauvoir. Para ela a mulher não nasceria mulher, mas se faria mulher. “Fazer-se mulher” seria adotar as expectativas sociais de feminilidade de seu tempo. Em suma, “existir como mulher” e assim criar-se uma essência mulheril. Não lhe passaria pela cabeça, claro, que um galalau viraria mulher ao vestir um saiote rodado; o dimorfismo biológico não está em jogo em sua afirmação. O que ela mirava era a imagem social da mulher na então decadente sociedade burguesa, coisa que para o leitor de hoje até parece coisa lendária: a mulher “intelectualmente inferior”, capaz apenas de pilotar panelas e vassouras; a mulher “ou histérica ou neurótica”, sempre carente de um forte braço masculino para guiá-la pela vida; a mulher-objeto doméstico, assexuada e incapaz, muito anterior à atual mulher-objeto-sexual da pornografia (logo, do imaginário dos mais jovens).

Daí a importância de Madame de Beauvoir para o feminismo, essa resposta desordenada ao real e cru problema da quase-escravização da mulher na sociedade burguesa. Ao separar o biológico do social, era possível afirmar o biológico e ao mesmo tempo negar as expectativas sociais a ele ligadas. Em outras palavras, tornou-se possível começar a devolver à mulher tudo o que lhe fora roubado pela sociedade burguesa, a começar pelo próprio reconhecimento da inteligência, discernimento, capacidade, engenho, e o que mais lhe fosse proibido na cela burguesa onde havia sido aprisionada a melhor metade da humanidade.

E é aí que a porca torceu o rabo. Partindo-se dos pressupostos modernos, não se pode reconhecer uma essência objetiva exterior, mas apenas construir uma essência subjetiva interior. Em outras palavras, a “existência” mulheril prescinde da biologia para construir uma essência mulheril. Esta, afinal, só pode ser interior, subjetiva como mil diabos. E eis que saltitam palco adentro os latagões de vestido afirmando aos brados sua existência mulheril, logo, sua essência do belo sexo. Seguindo-os de perto, vêm os varonis barbados que nem pensam em mutilar-se para parecer mulher ou adornar-se de saias rodadas: afinal, tais acidentes são irrelevantes diante de sua autoafirmada existência (logo essência) mulheril. E é aí que as feministas beauvoirianas enlouquecem, com razão. Se a categoria social “mulher” perde sentido, é impossível defender a mulher (de verdade) de um tsunami de rapagões a apregoar a própria “essência” mulheril lésbica.

Se não passa de invenção humana subjetiva o reconhecimento de uma natureza humana, a questão deixa de ser a natureza e passa a ser o reconhecimento de sinais, de notas que possam ser usadas para construir – não reconhecer – uma tal natureza

Para piorar ainda mais a situação, sendo a sociedade moderna construída como extensão ao plano real (supostamente fluido, decorrente da tal existência, e coisa e tal) de ideias e subjetividades pretensamente racionais, a pretensa essência mulheril autoafirmada merece reconhecimento social. E eis que os fracassados nos esportes masculinos ocupam o pódio dos femininos; e eis que os tarados-de-banheiro (antes considerados mero bicho-papão inventado por conservadores) põem em ação suas másculas genitálias onde deveria haver um espaço de refúgio feminino; e eis que passa a haver pressão social para que moças profundamente desinteressadas pela anatomia masculina (ou mesmo temerosas dela!) estendam aos túrgidos garotões suas preferências sexuais. São os corolários de um erro no princípio; para livrar-se deles é preciso livrar-se do erro inicial, e voltar a reconhecer a objetividade das essências do mundo real (bem como a subjetividade da razão; esta é parte, todavia, que já está em curso). Enquanto, contudo, se continuar a achar que tudo acontece nas nossas cabecinhas e é o mundo exterior que deva ser dobrado a elas, a loucura em tela não tem solução. Ao contrário: já há quem estenda a bichos a categoria de “pessoa”, construindo-a a partir de critérios semelhantes aos que apontei acima. Já há quem “se case” com um cachorro, consigo mesmo, ou com uma boneca ou personagem de desenho animado. Sem negar o erro de base, o desvio só tem como aumentar.

E assim vai a nau dos loucos; e como sempre, quando falta civilidade é a mulher quem mais sofre.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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