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Ao longo dos séculos, a estabilidade de vida é a regra em tempos de paz: em qualquer momento histórico fora da devastação da guerra, ao nascer a pessoa normalmente já poderia esperar que tivesse pela frente uma vida extremamente semelhante à de seus pais, por sua vez semelhante à dos pais deles, até o que na limitada visão de cada um seriam tempos imemoriais. Assim, o filho do agricultor esperava ser, ele também, agricultor, e normalmente cuidando do mesmo pedaço de terra de que cuidaram seus avós e bisavós, e o filho do sapateiro esperava herdar as ferramentas do pai. Do mesmo modo, ao casar-se não passaria pela cabeça dos adolescentes que trocavam votos que algo que não a morte fosse separá-los.

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A sociedade moderna foi, aos poucos, minando as bases da estabilidade, de tal modo que mesmo em tempos de paz a situação foi-se tornando cada vez mais instável, e isso para um porcentual progressivamente maior das pessoas. A instabilidade só fez crescer, da Revolução Industrial – que separou a casa e o trabalho – aos dias de hoje. Enquanto no século passado o trabalhador podia esperar trabalhar na mesma coisa a vida toda, e muitas vezes na mesma empresa, hoje em dia o jovem que entra no mercado de trabalho já o faz (ou deveria fazê-lo) ciente de que será forçado a reinventar-se várias e várias vezes ao longo da vida. Já não existe mais estabilidade alguma no mercado laboral.

Vi outro dia um cartum feito por alguém que realmente não conseguiu entender este triste fenômeno histórico. Nele, o autor implicava que o atual presidente estaria “trocando o emprego dos brasileiros por trabalhos esporádicos”, ou coisa parecida, quando na verdade o que ele está fazendo é apenas reconhecer a situação e tentar, dentro dela, dar algum verniz de legalidade trabalhista ao que já é prática corrente e está em vias de se tornar a regra de fato.

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É curioso observar em outro campo o mesmíssimo mecanismo que fez com que em poucos séculos o trabalho deixasse de ser coisa herdada para se tornar coisa que voa com o vento, passando pelas várias formas de estabilidade maior ou menor que assumiu durante esta transição. O casamento, que poucos séculos atrás também era não apenas indissolúvel, mas tremendamente previsível até mesmo em termos de com quem alguém viria a se casar, foi sendo vitimado pelas mesmas forças de dissolução social até o ponto de tornar-se, hoje, na prática, o apanágio de uma minoria que aprendeu que ele existe ao estudar religião.

No início do século passado, o casamento era ainda percebido como indissolúvel. A mimadíssima geração nascida no baby boom do pós-guerra imediato, contudo, preocupada em demolir o matrimônio e a família como demolia tudo o que via pela frente, não deixou que essa percepção fosse muito adiante. Com a revolução sexual que a invenção quase simultânea do antibiótico e do anticoncepcional permitiu que fizessem nos anos 1960/70, refletida no Brasil pela aprovação – então contra a vontade da maioria esmagadora da população – da Lei do Divórcio, essa indissolubilidade ficou pela beira da estrada. Ela deixou de existir de fato para muitos antes mesmo da dissolução de uma noção de estabilidade no emprego, hoje perdida nas brumas do tempo, que em algum momento fez com que o FGTS fizesse algum sentido.

A geração filha daquela, nascida ao redor da aprovação legal do divórcio, cresceu via de regra desprovida não apenas de um conjunto de regras sociais que a preparassem para uma relação estável, como desprovida de algum exemplo vivo dela. Os avós podiam estar juntos ainda, mas para um adolescente ou jovem adulto um casal de idosos poderia pertencer a outra espécie, tamanha a dificuldade de identificar-se com eles e com os problemas por que venham a passar e as soluções que venham a ter encontrado. Os pais, mesmo depois de pendurarem no fundo do armário as roupas de hippie, dificilmente teriam continuado a relação até os 20 ou 30 anos de idade dos filhos.

A nova geração, que hoje chega à idade adulta, foi criada por estes; geralmente dentro de lares que se montavam e remontavam como brinquedos de armar, mas sempre com juras de amor eterno de parte a parte. Esta geração, dos netos daqueles que viveram a revolução sexual, está tão completamente perdida, tão incapaz de firmar pé na instabilidade absoluta que se construiu, com farto apoio midiático, nas relações conjugais, que hoje dificilmente consegue cogitar casamento. E estaria na hora de eles se casarem.

Quando se fala a eles de amor, eles entendem sexo, e não lhes passa pela cabeça que se possa estar falando de alguma coisa diferente. Mais ainda: o sexo, aprenderam eles no colo dos avós e dos pais, é coisa boba, inofensiva, mera diversão. Quando percebem que não é bem assim – não dura muito, pois é lei da natureza que o sexo une o casal e desperta nele o amor –, apavoram-se e rompem a ligação sexual, ops, “amorosa”, para reiniciá-la com outra pessoa e fugir, apavorados, assim que aquilo deixar de ser mera ginástica orgásmica a dois. Com os relógios biológicos dando o alarme, contudo, eles vão arrumar um jeito de se juntarem, e vão ter filhos. Crianças essas que serão criadas ainda mais perdidas que os pais, por sua vez ainda mais perdidos que os pais, e estes que os avós…

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Tanto a instabilidade no trabalho quanto a instabilidade conjugal são frutos de uma sociedade que hoje já está no estágio de decomposição que faz com que seu fedor a carniça seja inconfundível. Mas elas estão aí, e são a triste realidade. São situações que não podem durar muito tempo, mesmo por serem, elas mesmas, agentes de ulterior decomposição da ordem social. É por isso que os ideólogos mais bobos, que se acham terrivelmente espertos, gostam de fomentá-las, aliás. Munidos de mapas do futuro comprados de um ou outro estelionatário (Marx é só o mais famoso), eles creem saber que depois da tempestade virá uma bonança que identificam com a utopia que defendam (capitalista, comunista, islâmica… no fundo todas se parecem), e fazem o que podem para acabar com o que resta de ordem na sociedade. Como o futuro a Deus pertence, e Ele não é dado a ideologias, só o que podemos saber acerca do que virá é que ficaremos todos muito surpresos.

Mas isso faz com que estejamos de volta ao problema original, que é como lidar com os frutos destes 200 e poucos anos de devastação progressiva das estabilidades sociais mais básicas, que sempre marcaram os tempos de paz e hoje mesmo deles – na medida em que se possa dizer que tenhamos paz – estão ausentes.

A solução, como aliás costuma ser o caso, não passa por grandes reviravoltas e movimentos sociais. Nem, menos ainda, por leis novas ou revoluções disso ou daquilo. Ela passa, como tudo, todavia, bem no meio do coração de cada um. A estabilidade só pode existir na sociedade se ela existir em cada pessoa. Só pode haver estabilidade conjugal se o rapaz e a moça forem fiéis a eles mesmos, fiéis ao que juram e, a partir dessa posição de força, possam ser fiéis um ao outro. Do mesmo modo, a estabilidade laboral só pode surgir da fidelidade do trabalhador a si mesmo, procurando sempre aprimorar-se no seu ofício, de modo a ser capaz de exercê-lo bem em qualquer circunstância, ou mesmo a fazer dele um ofício a exercer por conta própria. Quem é o próprio patrão não é jamais despedido, e quem sabe trabalhar dificilmente fica ocioso.

A sociedade, como sempre, demorará muitas gerações a se refazer; se foram necessários dois ou três séculos para desfazer as condições naturais de que falamos acima, serão sem dúvida necessárias ao menos três ou quatro gerações para refazê-las. Não me espantaria em nada ver, de onde quer que minha alma tenha ido parar, um mundo em que a estabilidade seja a regra, daqui a 100 ou 200 anos. Isso, entretanto, só poderá surgir de corações e mentes que sejam, independentemente da sociedade ao derredor, estáveis e, sobretudo, fiéis. Fiéis ao Sumo Bem e fiéis a eles mesmos. O resto é consequência.