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O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, após uma reunião de líderes da União Europeia em Bruxelas.
O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, após uma reunião de líderes da União Europeia em Bruxelas.| Foto: EFE/EPA/Olivier Matthys/Pool

Dizem que é impossível aprender húngaro depois de adulto. O grande Paulo Rónai, falante nativo, contou dum sujeito que estudou muitíssimo, morou lá um tempão, constituindo família com uma moça nativa, e mesmo assim volta e meia errava alguma declinação. A língua magiar é quase um código secreto, conhecido apenas por aqueles descendentes de hunos que lá se firmaram coisa de mil anos atrás. Este é um dos muitos componentes duma cultura que conseguiu sobreviver intacta mesmo localizada entre dois gigantes quase perpetuamente em guerra, a Rússia e as várias formas de organização da imensa população de cultura germânica.

A Polônia, a Eslováquia, a Romênia e os vários outros paisezinhos europeus orientais na mesma situação, do Báltico aos Bálcãs, também conseguiram o prodígio de preservar a cultura ao longo de sucessivas ocupações germânicas e russas. O segredo deles todos, assim como o dos húngaros, não é apenas a dificuldade da língua; todos são países de forte fé católica. Era a Fé comum aos austríacos e húngaros que permitiu a existência pacífica do Império Austro-Húngaro, uma das muitas formas de submissão da Hungria a um dos gigantes – no caso, o dos povos germânicos. Do mesmo modo, a Polônia e a Lituânia foram por muito tempo um só país, e um país imenso, unido antes pela Fé que por qualquer outro denominador comum.

Após a Segunda Guerra os países da Europa Oriental foram entregues de bandeja pelos EUA e Inglaterra ao totalitarismo soviético. Toda a enorme faixa de terra entre a Europa Ocidental e a vastíssima terra eslava foi submetida ao duro tacão stalinista e, nas palavras de Churchill, uma “Cortina de Ferro” dividiu a Europa. Para lá da Cortina, todavia, a religião continuou a ser o sustento moral dos cidadãos, mesmo perseguida e proibida. Ou, quem sabe, justamente em grande medida por ser perseguida e proibida. As subversivas da Europa Ocidental queimavam o sutiã; já as da Europa Oriental batizavam os filhos.

Pode-se até, com boa dose de razão, apontar que a derrocada final do comunismo soviético foi em grande parte provocada pela ação de São João Paulo II, o Grande, que forçou a ditadura comunista polaca – fantoche da russa – a permitir-lhe visitar como papa o santuário mariano mais importante da Polônia. Reza a lenda que ele teria dito ao ditador, o general Wojciech Jaruzelski, que se não lhe fosse permitida a visita oficial ele simplesmente renunciaria e pularia de paraquedas lá; não duvido. Atraindo pela mera presença e força moral e religiosa grande proporção da população, que para evitar as barreiras instaladas pelos comunistas nas estradas viajou a pé pelos campos e florestas, o encontro do papa polonês com seus concidadãos, sob a égide de Nossa Senhora, deixou claríssimo a quem quisesse ver que o domínio material comunista não se estendia ao espiritual. A Polônia era, e continuava a ser, uma nação católica.

Com o fim da União Soviética foi recobrada a liberdade perdida por quase meio século. Previsivelmente, nenhum dos países de que ora trato se lembra com carinho dos tempos comunistas; afinal, se para os russos a União Soviética foi um tempo de grandeza imperial, para suas vítimas foi apenas uma longa tortura, um cárcere em que apenas a luz da Fé permitia vislumbrar alguma esperança de liberdade. Assim, evidentemente, as populações da recém-liberta Europa Oriental são provavelmente as mais ferozmente anticomunistas de todo o planeta. Eles experimentaram o “remédio” marxista, e viram que era veneno.

Violando a promessa feita a Gorbachev quando do fim do desmanche da União Soviética, os americanos apressaram-se em admitir na Otan os recém-libertos. Convenhamos que não há de ter sido difícil: o que não falta naquelas bandas é horror à Rússia, sob qualquer forma de governo que ela tenha. As feridas do coturno russo no rosto coletivo de cada nação europeia oriental ainda estavam (e em grande medida estão) abertas, sangrentas e doloridas. Ninguém por aquelas bandas quer ver russo; nem pintado de dourado, como diziam os antigos. Seria difícil negar-lhes razão séria e compreensão dos motivos.

As subversivas da Europa Ocidental queimavam o sutiã; já as da Europa Oriental batizavam os filhos

Por outro lado, a Otan em que foram admitidos os países de que ora falo perdeu completamente a razão de ser. Afinal, ela era um contraponto ao Pacto de Varsóvia comunista, e visava a contenção de uma perfeitamente possível e imaginável invasão soviética da Europa Ocidental. A Rússia atual, todavia, não tem as pretensões universalistas modernas que caracterizavam o comunismo e ainda caracterizam o liberalismo americano (que acredita em fábulas do calibre do estabelecimento de democracias jeffersonianas no Iraque e no Afeganistão). Para os russos atuais a prioridade, quem diria, é a Rússia. Já para os americanos, após o estranho interregno trumpista, a prioridade é manter uma suposta hegemonia americana. Em tese, teria chegado o “Fim da História”, e que só o que mais poderia acontecer seria o avanço do modo de vida americano para todo o resto do mundo. Como disse, fantasias.

Para manter o Estado bélico americano, todavia, é preciso que haja bichos-papões. Ficou para trás há muito o que Quincy Adams, então secretário de Estado americano (e posteriormente presidente), declarou 200 anos e quatro dias atrás, em comemoração da independência americana. Segundo ele, os EUA não vão “para o exterior em busca de monstros a destruir”. Esta busca, ou melhor dizendo, esta perpétua invenção de monstros onde nenhum existe, é, contudo, a ocupação primeira daquele Estado desde o fim da conquista genocida do Oeste americano. Tendo sido chacinados os índios, tendo sido alcançada a costa do Pacífico, sem piscar partiram os EUA para outras guerras, contra outros “monstros” que não os habitantes do território que conquistou e de que fez tábula rasa. Da invasão e anexação da maior parte do território mexicano, passando pela invasão e colonização das Filipinas e outras partes do decadente império espanhol, até a ocupação ilegítima hodierna da Síria e do Iraque, contrariamente à lei internacional e ao desejo expresso dos governantes, o que os EUA mais fazem é inventar monstros. Curiosamente, a regra é a descoberta de monstros ricos em matérias-primas, mas militarmente fracos; hoje em dia os mais feios monstros têm em comum o fato de que produzem petróleo.

Parte da explicação para o ethos de guerra perpétua, de agressão tão permanente por parte do Estado americano, em que só o que muda é o “monstro” do momento, todavia, está no mesmo discurso de Quincy Adams. Segundo ele, a declaração de independência dos EUA “foi a primeira declaração solene por parte duma nação da única fundação legítima de governo civil. Foi o primeiro canto dum tecido destinado a cobrir a superfície do globo. Ela demoliu dum só golpe a legalidade de todos os governos baseados na conquista”. Hoje nos salta aos olhos a ironia da suposta deslegitimação de todo governo baseado na conquista, já que felizmente temos consciência de que os habitantes nativos do território conquistado pelos EUA são gente como nós. É para nós uma “verdade autoevidente”, para citar a tal Declaração, que todos os homens temos os mesmos direitos inalienáveis que para os fundadores dos EUA competiam, na prática, apenas a gente como eles: branca, anglo-saxã e protestante. A conquista do Oeste (como a do Leste), para eles, não era uma conquista, mas uma ocupação de território “sem dono”. Afinal, vê lá se aquela gente morena e nariguda teria condições étnico-culturais de ser dona do que fosse! Não, a eliminação genocida dos habitantes era apenas uma espécie de dedetização, de eliminação de baratas ou ratos.

Tendo sido chacinados os índios, tendo sido alcançada a costa do Pacífico, sem piscar partiram os EUA para outras guerras, contra outros “monstros” que não os habitantes do território que conquistou e de que fez tábula rasa

Mas a coisa vai mais longe, ainda no discurso do seu Quincy. Esta “única fundação legítima de governo civil” estaria destinada a “cobrir a superfície do globo”. Em outras palavras, todos os demais governos, todas as demais formas de organização social, seriam a priori ilegítimas. E, mais ainda, a pretensão universalista que leva a tentar erigir democracias jeffersonianas nos lugares mais improváveis encontra aí uma sua afirmação clara. Daí o discurso absurdo americano de estar a “libertar” os países que devasta, cujos governos legítimos os EUA – quando conseguem – enforcam (Saddam) ou entregam a gangues de linchadores (Gaddafi). Bastaria “retirar” o governo civil de fundação supostamente ilegítima para que o tecido da democracia jeffersoniana passasse a recobrir também aquele pedaço de terra.

Essa presunção de quererem todos aderir ao American Way of Life, não o fazendo apenas por serem impedidos por governantes ilegítimos, é a base de toda agressão americana e – voltando à nossa tiritante vaca europeia oriental – da manutenção da Otan mesmo após o fim da URSS e, finalmente, na admissão dos países recém-libertados do comunismo soviético nessa organização. Em outras palavras, a ausência da pretensão universalista do comunismo russo tal como expressa no Pacto de Varsóvia não implica em absoluto no fim da pretensão universalista liberal americana tal como expressa na Otan. Foi-se um universalismo moderno, mas o outro persistiu.

Há, contudo, um porém: o tal Modo de Vida Americano, como quase tudo o mais no mundo sublunar, muda. Às pampas, aliás. Quincy Adams ficaria provavelmente horrorizado com uma Parada do Orgulho Gay de São Francisco, por exemplo. Do mesmo modo, qualquer americano atual ficaria justamente horrorizado ao ver que James Monroe, o presidente dos EUA a quem Adams servia como secretário de Estado quando de seu célebre discurso, era servido na Casa Branca por dezenas de pessoas escravizadas. De todo modo, a Europa Ocidental, refeita pelos EUA à sua imagem e semelhança após a Segunda Guerra, perfaz em sua forma mais atual com os EUA e a Oceania anglo-saxã um conjunto que poderia ser percebido como o tal “tecido” da democracia liberal. Ele não recobriu o mundo, mas criou o chamado Primeiro Mundo.

Hoje, todavia, vêm no pacote não apenas o reconhecimento da legitimidade do governo civil por parte dos EUA, não apenas a separação entre Estado e Igreja à moda americana, não apenas, finalmente, a Disney, Broadway ou Hollywood. Não; faz parte hoje do tal tecido, do tal “Modo de Vida Americano” – e por extensão europeu, já que desde o fim da Segunda Guerra a Europa Ocidental tornou-se na prática zona de vassalagem aos EUA – aquilo que aqui em Pindorama apelidamos de “lacração”, e nos EUA atende por “woke”. As embaixadas americanas, ao lado da bandeira de estrelas e listras, desfraldaram ao longo de todo o mês que passou a bandeira com um arco-íris de ponta cabeça que simboliza o apreço pelas formas mais exuberantes de distorção sexual.

Apareceu então claramente um problema sério na integração à esfera americana das nações libertas do comunismo: o que os levou a sobreviver aos horrores do Gulag não foi amor à torta de maçã ou à Estátua da Liberdade, sim à Virgem Maria e ao Santíssimo Sacramento. Seu anticomunismo visceral vem de seu catolicismo ainda mais visceral. Previsivelmente, destarte, a resposta delas à lacração americana atual é exatamente a mesma que deram sistematicamente ao materialismo dialético russo d’antanho: a mais firme recusa. E eis que agora, por causa deste erro de planejamento – a perpétua ilusão americana de que bastaria retirar a ditadura do momento para que todos se fizessem teístas jeffersonianos –, conflitos culturais cada vez mais sérios vêm ocorrendo entre o antigo Primeiro Mundo (hoje dito “Ocidente”. E não, o Brasil não faz parte dele) e as antigas vítimas da URSS. Os EUA adoçaram a boca com o chocolate do Kinder Ovo da admissão da Europa Oriental em peso na Otan, que imaginaram umbilicalmente ligada à adoção plena do Modo de Vida Americano em que introduziram a Europa Ocidental. Acabaram, entretanto, engasgando com a surpresinha indigerível do catolicismo visceral, radical, fanático, ou como se quiser apodar o que deveria ser dito apenas “sério”, dos anticomunistas. E eis que os vassalos europeus ocidentais dos EUA, como aqueles pinschers compostos de 50% ódio e 50% tremedeira, já vêm dando suas rosnadas contra a recusa sistemática da Europa Oriental à lacração.

O presidente húngaro Viktor Orbán certeiramente afirmou que “os ocidentais escolheram viver num mundo pós-nacional e pós-cristão, e nós respeitamos sua escolha. Mas eles querem mais ainda: querem que também nós vivamos assim”. Mark Rutte, o primeiro-ministro da Lacrolândia, digo, da Holanda – que um amigo dizia ser onde o Capeta faz test-drive –, confirmou então a denúncia de Orbán ao declarar que “o objetivo é forçar a Hungria a pôr-se de joelhos” diante das diretrizes lacrativas euroamericanas.

O tal “Modo de Vida Americano” que os EUA querem impor ao mundo inclui, agora, aquilo que aqui em Pindorama apelidamos de “lacração”, e lá atende por “woke

O primeiro-ministro esloveno, Janez Jansa, cuja nação recém-liberta do comunismo, fronteiriça à Hungria e firmemente católica acaba de assumir por seis meses a presidência rotativa da União Europeia, já entrou na briga dando voadora. Sem medir palavras, declarou que a imposição de “valores europeus imaginários” (lindo nome para a lacração, aliás) é nada mais nada menos que “o caminho mais certo para o colapso” da União Europeia. Afinal, convenhamos, tanques soviéticos são bem mais amedrontadores que cara feia de político ocidental. Quem resistiu àqueles não tem medo destes.

Com o retorno do Partido Democrata americano ao poder, presume-se que a lacração internacional aumente e seja (ainda mais) incentivada e demandada pelos EUA a seus vassalos, novos ou antigos. A surpresinha do Kinder Ovo, todavia, continua surpreendendo: além daquele bando de carolas papa-hóstia da Europa Oriental, eis que se alevanta outro forte obstáculo à imposição pela e na Otan e UE do aspecto lacrante do Modo de Vida Americano atual. A Turquia, outro país-membro da Otan, vem fazendo o possível e o impossível para recriar o Império Otomano. Ora, isto necessariamente implica em fazer do Islã sunita (que, convenhamos, tampouco é lá muito dado à lacração) um fator de união e domínio dos países do seu entorno cultural e geográfico. Por exemplo, sob o moto “uma nação, dois Estados”, o Azerbaijão já foi praticamente absorvido pela Turquia. Desde a Declaração de Shusha, no mês passado, é Ancara (ou seria a “Sublime Porta”? Plus ça change, plus c’est la même chose...) que controla diretamente as Forças Armadas unificadas de ambos os “Estados da mesma nação”. As outras repúblicas túrquicas, por sua vez, estão cada vez mais ligadas ao neossultanato turco, aliás organizador e financiador do islamismo militante dos uigures (ou, como preferem, turcomanos orientais), que a China comunista vem tentando, com sua pesadíssima mão de ferro, debelar. É assunto pouco comentado, mas o dialeto uigur e o turco da margem do Mediterrâneo são mutualmente inteligíveis, e é na Turquia que os uigures soem buscar formação acadêmica e acabam encontrando e adotando o Islã salafista radical.

O que levou os povos do Leste europeu a sobreviver aos horrores do Gulag não foi amor à torta de maçã ou à Estátua da Liberdade, sim à Virgem Maria e ao Santíssimo Sacramento. Seu anticomunismo visceral vem de seu catolicismo ainda mais visceral

Em outras palavras, o discurso dos lacradores americanos e seus vassalos europeus quer contrapor sua “moral” progressista à macheza à moda antiga dos “autocratas” que atacam (Putin, Assad e demais exemplos de “masculinidade tóxica”). Trata-se, todavia, dum discurso com chance absolutamente zero de ser aceito na Europa Oriental e na vasta faixa predominantemente túrquica e furiosamente islâmica que bordeja a Rússia da China ao Mediterrâneo. É bem verdade que a fortuna de Soros e demais fundações “filantrópicas” lacrogênicas podem bancar e amplificar ruidosamente os balbucios de pequeníssimas parcelas politicamente irrelevantes das populações, mas a adoção majoritária do pacote lacrativo completo não há de ocorrer a leste de suas divisas atuais. O chocolate derrete na boca, mas o plástico da surpresinha não.

Deve ser para evitar esse tipo de surpresa que os Kinder Ovos são proibidos nos EUA: é grande demais o risco de sufocamento de quem não se dê conta de que a surpresa dentro é bem maior e mais importante que o fino chocolate ao redor.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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