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O amor nos tempos do coronga
| Foto: lininha_bs/Pixabay

Anos atrás, escrevi neste mesmo espaço – então de papel, para que se veja como estamos envelhecendo – sobre como estava demorando para aparecer outra pandemia como a famigerada gripe espanhola. Afinal, de lá para cá a medicina avançou, no tratamento de vírus, exatamente nada. Zero. Coisíssima nenhuma. Se no tocante a bactérias, de que já se sabe um tantinho, ainda não apareceu um bochecho que elimine as cáries dos dentes, no caso de vírus só se tem paliativos.

E eis que apareceu a famosa pandemia, com um vírus que atende por tantos nomes (coronavírus, Sars-CoV-2 etc.) que acabei por preferir pespegar-lhe o gentil apodo de “coronga”. O que me interessa, por deformação profissional, não são nem as questões práticas – transmissão, cuidados, etc. –, mas a leitura social que se faz do coronga e da situação toda. Especialmente, claro, no contexto religioso. Afinal, é a religião que nos dá nosso sentido do mundo, é ela que faz com que percebamos dum modo ou de outro a realidade ao redor. Isso vale, inclusive, para aqueles cuja religião é o ateísmo militante – que é uma religião negativa, mas tremendamente proselitista – ou o agnosticismo, que em geral é apenas uma fachada para uma idolatria qualquer (sexo, dinheiro, poder, o que for).

O Brasil era um país católico. “Era”, do verbo “não ser mais nem a pau”. Paradoxalmente, isto é exacerbado no clero; o laicato é muitas vezes mais católico que seus pastores, nestes tristes trópicos. Isso se vê em vários contextos diferentes na resposta brasileira ao coronga. O que mais chama a atenção na reação clerical é uma espécie de tentativa de fuga, de afastamento da resposta especificamente religiosa. Contou-me um amigo que no terço finalmente “puxado” pela CNBB, ontem, “[n]inguém teve a coragem de pedir escancaradamente que afaste a peste do Brasil. Só discernimento para médicos, paciência para as pessoas, etc.”. Previsível.

O laicato é muitas vezes mais católico que seus pastores, nestes tristes trópicos

Do mesmo modo, a reação imediata de inúmeras dioceses, dentre as quais a minha, foi de usar o coronga como desculpa absurda para proibir um ato de reverência que um clero tremendamente imanentista odeia do fundo do coração: receber na boca o Santíssimo Sacramento. Ora, deixando-se de lado a questão de ser esta a forma ordinária de comungar, que não pode ser proibida (ao contrário, até: receber nas mãos o Santíssimo é um indulto, um privilégio, uma exceção à lei geral), deixando-se de lado o fato simples e evidente que não manipular a hóstia consagrada faz com que se Lhe respeite mais, no contexto proibir a forma tradicional de receber o sacramento é simplesmente absurdo. Convenhamos: se os epidemiologistas e quetais repetem a cada minuto que devemos evitar levar as mãos ao rosto, que sentido haveria, epidemiologicamente falando, em chegar à igreja com as mãos imundas da rua, tocar em dinheiro no ofertório e depois receber a partícula na palma sórdida das mãos e levá-la à boca?! Dificilmente se conseguiria um jeito mais garantido de facilitar o contágio. Mais ainda quando se pensa que entre as regras de higiene brasileiras que mais espantam os gringos está o fato de que jamais tocamos na comida com as mãos (salgados são seguros com um guardanapo etc.). A única razão para uma regrinha tão absurda (e canonicamente ilegal) é a vontade, o desejo premente por parte de enorme parcela do clero de ver cessar um respeito que eles odeiam que seja manifestado à Divindade. Do mesmo modo, houve lugares em que as próprias missas foram proibidas pelas mesmas autoridades eclesiásticas cuja função básica no mundo é garantir que elas sejam celebradas.

Em outros lugares, inclusive e especialmente em Aparecida, houve também intervenção ilegal por parte do poder civil (no caso, o Judiciário), mandando cessar as celebrações litúrgicas. Ora, pinoias, existe uma concordata entre o Brasil e a Santa Sé justamente para dar à Igreja imunidade em relação aos desmandos de anticatólicos infiltrados na administração civil. A mesma juíza que proibiu as missas que tanto a incomodam já havia proibido a ereção de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida numa praça, entre outras gracinhas.

A resposta religiosa, por parte da maioria do clero, especialmente dos senhores bispos, então, foi fundamentalmente uma resposta antirreligiosa. Cessar a missa, cessarem as orações públicas, diminuir o respeito ao Santíssimo Sacramento (aproveitando o ensejo para aumentar os riscos de contaminação, porque tudo serve de desculpa para se fazer o que mais se queria)... Até mesmo quando, aos 47 minutos do segundo tempo, resolvem puxar um terço comunitário (com cada um em sua casa, o que não é mau neste momento), pedem apenas o que não pode ser medido, o que é acidental. É como se tivessem medo de acontecer um milagre e eles serem forçados a reconhecer a realidade do sobrenatural que deveria ser a razão de ser de suas vidas.

Já o povo teve a reação oposta, provando mais uma vez ser muito mais católico que o clero. Se fosse pelo povo, não duvido mesmo que pudéssemos chegar a ter procissões penitenciais com flagelantes. É bastante clara, para quem presta atenção, a percepção popular de que o coronga é um castigo divino, entre os abertamente religiosos.

Já entre os agnósticos, aquela fina casquinha de classe média urbana que finge estar no Primeiro Mundo, a reação é outra: pavor. Pânico. Desespero. Isso num país com 70 mil assassinatos por ano, em cidades em que o risco de morrer de uma bala perdida ou de um acidente de trânsito é e continuará sendo muitíssimo maior que o de morrer do coronga.

A pandemia serve-nos de memento mori, de lembrança absolutamente indesejada de nossa própria vulnerabilidade, da certeza da morte. Vivemos (os que fingimos estar no Primeiro Mundo, ao menos) num mundo em que a morte é oculta. Finge-se que ela não existe. Os doentes terminais vão morrer trancados num hospital, para que ninguém esteja ao seu lado na hora em que baterem as botas. As senhoras de meia-idade fazem “procedimentos estéticos” para ficarem com cara de cocotinhas, e dão em cima dos namoradinhos das filhas. As vitaminas, os cremes e o que mais se inventar tentam ao menos disfarçar a inexorável aproximação da Caveiruda.

A resposta religiosa, por parte da maioria do clero, especialmente dos senhores bispos, foi fundamentalmente uma resposta antirreligiosa

O que, contudo, poderia haver de mais certo que a morte?! Quando andamos pelas ruas de qualquer cidade que não tenha acabado de surgir, podemos ter certeza de que os operários que edificaram aquelas casas e prédios todos já devem ter morrido, bem como os seus primeiros habitantes. Cada esquina terá centenas de histórias de mortes ali ocorridas.

A vida é uma enorme prova de revezamento, em que uma geração toma o bastão da outra; nas palavras do poeta, “as pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”. Morrem os avós, nascem os bisnetos, e é assim que sempre caminhou a humanidade. Nossa passagem por aqui é rapidíssima, quase instantânea, quando a consideramos pelo âmbito da história (para não falar da geologia ou – horresco referens – da Eternidade).

Mas fingimos todos ser imortais. Hoje, mais do que nunca, com todos os refrescos que a tecnologia nos dá, é quase possível, pelo menos até a meia-idade, viver quase sem dor. A morte, como comentei, está disfarçada, escondida; hoje é igualmente possível morrer de velho sem jamais ter visto um cadáver. Tudo nos ajuda a fingir imortalidade, e nada nos ajuda a confrontar a própria mortalidade. É da percepção da mortalidade, todavia, que vem, ou deveria vir, a nossa postura em relação à vida propriamente dita. Ela tem valor, em primeiro lugar, justamente por sua efemeridade. Cada segundo que passa é um segundo que não teremos novamente, é um segundo que aproveitamos ou desperdiçamos.

Preferimos, todavia, ao menos os que fingimos estar no Primeiro Mundo, viver como se eternos fôssemos. Mais ainda, como se eterna fosse a nossa vida na Terra, na medida em que a percepção vigente na sociedade, inclusive e especialmente nessa parcela da classe média urbana composta de sacerdotes, é que só existe o que se vê, enquanto se vê. Em outras palavras, toda a dimensão sobrenatural da existência (que em tese seria a razão de ser do sacerdócio...) é ignorada, assim como é ignorada a presença certa da morte logo ali na esquina. A ideia de que podemos morrer no próximo segundo é afastada e tida por macabra, em vez de ser percebida como um excelente incentivo a viver perfeitamente aquele segundo que passa. A intervenção divina na vida quotidiana é relegada – como no terço da CNBB – àquilo que poderia ocorrer naturalmente, permitindo sempre uma boa margem de dúvida sobre se ela realmente ocorreu. Afinal, se ela ocorrer de verdade, se não houver como fugir do reconhecimento de que a ação divina é real, isso seria por demais pavoroso. Isso nos forçaria a confrontar a morte, a nossa própria vida; isso nos levaria a uma situação em que o agnosticismo prático seria insustentável, pois Deus teria Se tornado indiscutivelmente presente. Um elefante no meio da sala, e é tão mais prático que lá só haja poodles.

Daí o pavor do coronga. O risco, repito, para um habitante de qualquer capital brasileira, é muitíssimo menor que o de morrer cedo de alguma forma violenta. É mais fácil tornar-se um cadáver coberto por um plástico com uma vela acesa ao lado numa esquina, seja por obra e arte de um idiota ao volante, seja por ter-se colocado sem querer na reta da bala disparada por um bandido ou policial em confronto, que morrer do coronga.

Mas o coronga é evitável, de uma certa maneira. Dá para tentar fugir dele. E isso nos motiva a fazê-lo, com um desespero, com um ânimo que jamais teríamos em relação a mortes outras violentas, mas mais inequivocamente devidas ao acaso. Olhamos para ambos os lados antes de atravessar a rua, e se ouvimos disparos de arma de fogo nos abaixamos. Mas estas são ações quase reflexas, simples, rápidas. Já o coronga nos leva a mudar a vida em aspectos demais, a nos tornarmos, da noite para o dia, como que membros duma dessas religiões que separam as pessoas do mundo. Viramos amish ou judeus ortodoxos; não podemos mais frequentar os restaurantes aonde sempre íamos, temos de ficar trancados em casa, temos de recorrer a rituais esquisitos, como a ablução com álcool gel, a lavagem frequente das mãos, os espirros e tosses tampados com o cotovelo, não com a mão. Os cumprimentos quotidianos são substituídos por reverências orientais. É toda uma forma de vida que, de uma certa maneira, é pela primeira vez na vida dos membros desta nossa sociedade um viver-para-a-morte.

Viver para a morte, ter a morte em mente, é uma boa coisa

Não há ainda como saber o que virá daí. Mortes, sim, com certeza; muitas, até. Mas será que as vítimas do coronga chegarão a uma fração considerável das vítimas de mortes violentas, neste nosso Brasil tão estúpido? O que já vem surgindo, todavia, o que já vem acontecendo na vida das pessoas está sendo uma revelação interessante. Máscaras metafóricas caem, enquanto as máscaras físicas tomam seu lugar. Sacerdotes revelam-se imanentistas; bispos mostram suas verdadeiras cores, deixando clara a sua preferência por este ou por aquele mundo. Pessoas normais veem-se forçadas a lidar com a morte, a pensar a morte, a escolher entre a vida normal (com os riscos aumentados) e a imersão nos comportamentos ritualísticos da seita dos que querem fugir da morte pelo coronga.

Viver para a morte, ter a morte em mente, é uma boa coisa. Quem sabe daí não viremos a ter um desenvolvimento prático da mentalidade do brasileiro, uma passagem, quiçá, de uma espécie de alegre infância coletiva, em que dávamos tiros uns nos outros e dirigíamos como o Pateta no trânsito, a uma idade adulta em que percebemos que a vida tem valor exatamente por acabar tão cedo?

Ainda não há como saber o que virá. Só o que se pode ter certeza é que, tendo caído tantas máscaras, teremos como sociedade uma percepção mais vívida de onde estamos, de onde pisamos, de quem somos, de para onde estamos indo. Há males que vêm para bem.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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