Ricardo Pozzo
Ricardo Pozzo| Foto:

Nunca sei se sou de direita ou de esquerda. Mas você pode imaginar através do título que quero mesmo é falar de camisinhas. (Fique bem, não pretendo discorrer sobre a nobre arte de colocá-las de modo rápido e pretensamente natural depois de beber muito e ir pra cama com uma desconhecida).

Ontem ouvi amigos a reclamar aqui em casa do excesso intervencionista do Estado. [A moça que me saracoteia reclama mesmo é do estilo geral da presidenta e da mania dela de usar vermelho.] Talvez você não saiba, pois não sei se já te convidei pra vir me fazer uma visita, mas tenho um pequeno bar, recheado de bebidas de até vinte reais que promovem o exercício filosófico espontâneo em menos de uma hora.

A contenda era a seguinte: segundo dois de nós, vivemos num governo de aspirações ditatoriais semelhantes a Cuba e Coréia de Norte, o que me pareceu um tanto exagerado, dado o conhecimento antropológico-internacionalista de nosso grupo não passar da Ponte da Amizade. Porém, concordei em partes porque o rodízio do copo estava próximo de mim.

Sempre desconfio dos neoliberalistas. Sempre desconfio dos tutelares que acreditam que sem o governo ficaríamos órfãos. Se fosse Rubem Braga, diria que a minha política é o Flamengo. Mas não sou. A bem da verdade, tive meus estudos financiados por um programa estatal de auxílio a pessoas de baixa renda. Como era entregador de jornal e vendedor de livros, não tive muita dificuldade para comprovar que não tinha condições de pagar um curso de Jornalismo de média mensal de mil reais. Aliás, não um curso, o melhor curso de Jornalismo do Paraná – pra você ter ideia, cada estudante tem sua própria máquina para as aulas de fotografia. #ostentando #escoladenegocios

Foram quatro anos em que cumpri o penoso ofício de não reprovar por falta e o governo exerceu financeiramente a parte que lhe cabia deste latifúndio. Todos chegaram ao fim são e salvos.

Saindo da academia e indo para o pronto-socorro, nos últimos três anos tive duas pneumonias. Também não posso reclamar do atendimento municipal, já que o meu antigo publisher auxiliou-me apenas com um xarope de oito reais, o que me direcionou urgentemente ao sistema público de saúde. Tomei alguns chás de cadeira? Sim. Os planos médicos particulares são ótimos? Não. Recordo, assim, com alguma emoção, que no dia em que fui internado pela segunda pneumonia, meu chefe pediu para que repassasse as manchetes de seu jornal. Não lembro ao certo o que aconteceu, pois não pude exercer tal atividade, mas, se não me engano, a assessora da Prefeitura deu um jeito lá. [Sinto um pouco de piedade por este jornal. Ele era tão honesto, fizemos coisas tão legais. Hoje parece ser capaz de estragar as frutas que embala. Credo, gente… Que veneno é esse? Dica jornalística: nunca trabalhe longe sem registro.]

Bem, não pretendo fazer de meu exemplo o panorama geral, sequer almejo atingir um epicentro. De fato, não consigo adentrar discussões que extrapolem o meu conhecimento de eletrobrega e do mago, do gênio, do retumbante, do princeso tenista Radek Stepanek. Que voleador! Que voleador!

Não sei como anda a saúde em Araucária. A minha até que vai bem e o postinho aqui do lado é sempre prestativo quando preciso. Hoje foi assim: precisei de camisinhas. Você deve saber, se não sabe, te digo: os postinhos dão camisinhas pra gente. É algo muito importante. Mas tem algo que me deixa um tanto avexado, que é pedir as camisinhas no balcão. Lembro-me que na última vez que fiz isso algumas pessoas olharam-me com alguma reprovação, o que é perfeitamente entendível. Enquanto uns encostavam-se às cadeiras – desconfortáveis – em busca de remediação, entrei irradiando, como se fosse fazer amor com a atendente.

Bem, dessa vez resolvi que iria ser mais discreto. Cheguei ao posto depois das seis da tarde e logo agradeci mentalmente por estar vazio. Infelizmente, algo irrompeu de mim e perguntei a uma senhora atendente onde encontrávamos camisinhas, pois havia um certo interesse da minha parte em não gerar descendentes e não entrar na lista de atendimento das doenças venéreas. Ela não riu. Ameacei rir, mas me constrangi em seguida. Ela me levou até o outro lado do balcão e apontou para uma caixinha, com camisinhas em grupos de três. Peguei quatro pacotinhos, que, segundo meu instituto pessoal de sexualidade, é capaz de durar o ano todo.

Saí com as camisinhas na mão, vitorioso, triunfante. Ah, eu sou canhoto e a presidenta bem que podia parar de usar vermelho mesmo.

Ricardo Pozzo

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