Tenho uma amiga querida que está a morar-estudar no México e assina como Lanave. Na verdade, ela não assina, é o sobrenome dela mesmo. Sempre devaneio que um dia, depois de uma noite de embriaguez, um pouco antes de amanhecer, lhe abraçarei e direi, como se numa partida de porto, quem sabe até com um lencinho na mão: “Lanave, vá!”. Soube que já fizeram essa encenação, mas sempre busco copiar com alguma singularidade.

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A primeira vez que vi E la nave deve ter sido em 1999. [Os portugueses traduziram a película como O Navio, o que explica muita coisa às avessas.] Aos 14 anos, eu tinha o duvidoso hábito de escrever sinopses dos filmes e validá-los de acordo com a minha importantíssima opinião. Era meu passatempo hermético. Ninguém nunca lia nada, ainda bem, e eu buscava os filmes mais obscuros possíveis. Ou seje, eu era bem chato. Se aparecesse alguém a dizer que gostava de Bertolucci, eu iria buscar na memória o filme que ninguém viu, mesmo que eu tivesse assistido sem legenda e não entendido nada.

Devo ter, chuto, umas quatro mil críticas, uma pior do que a outra. Por exemplo, sobre A Lista de Schindler, visto em 2002, eu disse que era o filme mais pessoal e introspectivo de Steven Spielberg, a sua obra-prima. Não apenas: também disse que era o melhor filme da década, com uma trilha sonora envolvente. Sim, eu escrevi envolvente, quase me antecipando aos exageros atuais que cometo na prática diária de jornalismo cultural.

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2003 foi a época mais bizarra das minhas sinopses caseiras, quando começo a ler André Bazin e “desconstruir” a crítica de cinema. Veja só como começam minhas impressões de Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, de Guy Ritchie: “A Arte tem algum compromisso com o progresso (espiritual, cultural) da humanidade? Essa tribo é atrasada demais. Vocês querem acabar com a violência, mas a paz é contra a lei e a lei é contra a paz. Violência gráfica absoluta e impiedosa…”. Há mais uma página e meia de texto, com direito a citação de Voltaire, Rimbaud e um poema de Ulisses Vieira, no caso, meu pseudônimo mesmo, um megalomaníaco felizmente enterrado. Você merece ler isso. É tão ruim, mas tão ruim, que, citando Voltaire novamente, pode até ter alguma serventia:

Dúvida em forma de foice

Se tudo tem dois lados,

Por que não temos uma vida

Para cada caminho escolhido?

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Por que não temos o sentimento

Universal de certo e errado?

Lindo, não? Se não bastasse a metáfora da foice para pergunta-dúvida, ainda roubo descaradamente uma frase do ator Vittorio Gassman – sempre gostei muito da Itália, desde os tempos em que chamava a Sampdoria de Satedória. A coisa foi ficando de tal forma complexa e ininteligível que eu bloqueei e parei de escrever ao fim de 2003, quando começo a entregar jornal nas madrugadas e nas sinaleiras, o que foi evidentemente mais produtivo do que dizer que Tempos Modernos é uma aula de inteligência, sensibilidade e crítica, a encenação do que é realmente magnífico, do que é transcendental.

[Reparo que quanto mais reacionário é o colunista de direita, mais eu me divirto. É como se eu me visse pré-adolescente.]

Vasculho meus papeis e não acho o que escrevi sobre a obra-prima-meu-deus-do-céu-filme-maravilhoso do Fellini. Especulo que devo ter me impressionado com o mar de papel e com o espírito de antessonho. Sabe, senhorita Lanave, eu queria mesmo era saber escrever bem sobre amor e ser menos propenso à solidão. Mas nunca soube me levar muito a sério. Boa viagem!

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