1. O Teatro José Maria Santos está abarrotado, não tem um lugar vazio. Ouço um dos funcionários dizer: “Faz tempo que não trabalhamos com a casa tão cheia, hein?” A peça é Satan Circus, escrita por Paulo Zwolinsk, direção de Eduardo Ramos. Logo na primeira cena, uma moça quase pendurada no teto, mais três atores inertes. Estão confinados num quarto e sinto-me contraditório. A) É algo sobre os demônios que carregamos todos os dias; B) Talvez as paredes que a peça aplica são as paredes que a vida emite, acho, não anda fácil ser contemporâneo mesmo; C) Se estamos no fim de tudo, por que não há uma gota de humor?

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“Eu quero esfolar sua cara bonita”, “O diabo não tem fome”. Frases que jogam com o claro e o escuro, o claro e o escuro, o claro e o escuro. E agora acabou e tudo voltou ao início. Não sei o que pensar. Talvez seja um texto sobre o desejo.

 

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2. A peça se chama O dia em que nos perdemos, de Léo Moita, direção de Talita Neves, que, aliás, é uma linda. Com todo o respeito. Parece-me que fala sobre as belezas da infância, aos moldes de Álvares de Azevedo, a infância como território da liberdade e da violência sem danos – lembro-me exatamente do oposto agora, de A Possibilidade de Uma Ilha, de Michel Houellebecq. A infância é segura apenas quando a vemos no passado.

Há um momento na peça em que os personagens se agridem ao melhor estilo intervalo-na-escola. As reações na plateia são de estranha catarse, como se ali víssemos um pouco das vontades que temos no cotidiano, mas irrealizáveis – talvez nossos chefes não entenderiam uma travesseirada na cabeça como um gesto sensato.

A peça acaba e eu não sei bem o que pensar – até sinto que quem perdeu o rumo fui eu, ainda mais com esse final de enterro oriental, uma espécie de sagração à derrota de existir, sei lá o que estou pensando. Minha amiga liga, digo o que se passou, os travesseiros, o violoncelo desafinado e tal, e ela recomenda que eu leia uns livros de transhumanismo. Aí entenderei melhor.