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Certas Palavras

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Consumo

O preço do arroz, o vídeo-fantasma dos fiscais do Sarney e o controle de preços

  • 11/09/2020 02:33
Tabelmanto de preços levou ao desabastecimento.
Prateleira de supermercado vazia no auge do desabastecimento, em 1986.| Foto: Reprodução/Senado Federal

Esse filme a gente já viu. Foi assim que muitas pessoas reagiram diante de sinais da possibilidade de controle de preços para enfrentar a carestia recente dos alimentos.

O presidente Jair Bolsonaro confirmou, durante sua ‘live’ semanal nas redes sociais, na quinta-feira (10) à noite, que autorizou a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) a notificar supermercados sobre o aumento do preço do arroz. Disse, porém, que não haverá tabelamento de preços.

Apesar de Bolsonaro descartar intervenção, a fiscalização autorizada pelo governo trouxe à memória um período que marcou o país: o tabelamento de preços do Plano Cruzado. Fez também muitas pessoas lembrarem dos ‘fiscais do Sarney’, figuras que saíram às ruas para garantir o tabelamento de preços lançado pelo governo em 1986.

O debate sobre a alta nos preços dos alimentos esquentou depois do feriado de 7 de setembro. A notificação a supermercados e cooperativas para que expliquem o aumento dos preços dos produtos da cesta básica provocou reação do ministro da Economia, Paulo Guedes. Ele pediu explicação da Senacon, vinculada ao Ministério da Justiça.

Houve reação também de órgãos de defesa dos consumidores, pressionados pelas reclamações em decorrência da alta dos preços dos alimentos. O presidente da Associação Brasileira dos Procons, Filipe Vieira, disse que os órgãos de defesa do consumidor de todo o país devem acompanhar a movimentação do mercado e ficar atentos a índícios de abusos, mas frisou que os Procons não controlam preço nem defendem tabelamento.

O temor de quem está contra iniciativas de controle de preços é que se repita o que ocorreu com o Plano Cruzado. Anunciado em fevereiro de 1986 pelo então presidente José Sarney, o plano foi um grande pacote econômico liderado pelo ex-ministro da Fazenda Dílson Funaro. As medidas buscavam estabilizar a economia e incluíam a substituição do cruzeiro por uma nova moeda, o cruzado, e o congelamento dos salários e dos preços de produtos e serviços. Derrubar a inflação, que havia atingido 250,2% entre janeiro de 1985 e janeiro de 1986, era o alvo principal. Em um único mês, janeiro de 86, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) chegou a 14,37%.

Com a decretação do tabelamento de preços, em 28 de fevereiro de 1986, houve uma corrida à remarcação. Algumas lojas e supermercados trabalharam à noite toda remarcando os preços dos produtos. Os fiscais da Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab) e até a Polícia Federal saíram ás ruas para garantir o tabelamento. Houve confusão, saques e prisões de gerentes e funcionários de estabelecimentos por crime contra a economia popular.

Um consumidor de Curitiba ficou famoso ao discursar para as câmeras do Jornal Nacional, no dia 1° de março de 1986, três dias após o lançamento do plano (veja vídeo acima). Depois de protestar contra a remarcação de preços dentro de um dos principais supermercados da capital paranaense, ele decretou o fechamento do estabelecimento e cerrou suas portas. “Está fechado em nome do presidente Sarney. Está fechado em nome do povo”, decretou o consumidor.

Inicialmente o Plano Cruzado parecia ter resolvido vários problemas do país. Houve forte apoio da população, desde as camadas de baixa renda até a classe média. Com a queda da inflação, que em abril chegou a 0,78%, e estabilidade nos preços, o poder aquisitivo da população aumentou e a popularidade do presidente José Sarney foi às alturas.

A festa durou pouco. Nos últimos meses do ano, com a explosão do consumo e a incapacidade do parque industrial brasileiro, começou a haver falta de produtos nas prateleiras. Estabelecimentos passaram a reajustar os preços. Surgiu a figura do ágio: para conseguir alguma mercadoria em falta era preciso pagar um valor acima do tabelado (ágio).

O desabastecimento e as filas enormes de pessoas em busca de mercadorias nos supermercados viraram rotina na vida dos brasileiros.

Um dos fatos mais marcantes dessa fase do Plano Cruzado se deu pela falta de carne. Não havia mais proteína animal no país. Os pecuaristas não aceitavam vender gado pelos preços tabelados. Em outubro, o governo decidiu então desapropriar os rebanhos. Mandou caminhões, acompanhados pela Polícia Federal, sequestrar o gado nos pastos.

As iniciativas e as intervenções, com criação de novos impostos, como o da gasolina, não resolveram. O plano caminhou para o fracasso rapidamente e a inflação voltou a galope. Veio a seguir uma sequência de planos econômicos (Plano Cruzado II, Plano Bresser, Plano Verão) com o objetivo de controlar os gastos públicos e renegociar a dívida externa. Veio também uma nova moeda, o Cruzado Novo, mas todas as medidas foram insuficientes.

Preços na época da hiperinflação
Anúncio publicitário na época alertava de que o preço seria reajustado em breve.| Reprodução/Youtube

Em março de 1990 a inflação alcançou o recorde 84,23% ao mês e um índice acumulado nos doze meses anteriores de 4.853%. O dinheiro que se comprava um produto hoje não era mais suficiente para comprar o mesmo produto no dia seguinte. A remarcação de preços era diária: às vezes se remarcava os preços pela manhã e à tarde.

Sarney deixou o governo em baixa, mas teve momentos de grande popularidade. Ainda sob o efeito do sucesso inicial do Plano Cruzado, em novembro de 1986, a população elegeu os deputados e senadores que compuseram a Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da Constituição de 1988. O PMDB, partido de Sarney, elegeu 22 dos 23 governadores, 41 dos 81 senadores constituintes e 260 (53,3%) deputados federais.

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