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FHC e Lula
| Foto: Ricardo Stuckert

O segundo turno da campanha presidencial de 1989 foi a última vez que PT e PSDB estiveram juntos em uma disputa no plano federal. Depois daquela eleição história – a primeira com voto direto após o fim da ditadura militar –, tucanos e petistas sempre se posicionaram em campos opostos. Mas agora, com a aproximação de tucanos históricos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) e o ex-senador Aloysio Nunes, ressurge a possibilidade de união no segundo turno de 2022 caso a decisão fique entre o ex-presidente Lula e o presidente Jair Bolsonaro.

Em 1989, Fernando Collor e Lula chegaram ao segundo turno contrariando a maior parte das previsões iniciais. Outros nomes na época eram apontados com mais chances nas urnas. Collor, até então um ‘desconhecido’ governador de Alagoas, e Lula, um ‘simples líder operário’, não teriam forças para superar nomes consagrados como Leonel Brizola, Mário Covas, Ulysses Guimarães e Paulo Maluf.

Eleições de 1989 - Mário Covas, Lula e Leonel Brizola no mesmo palanque.
O tucano histórico Mário Covas e o fundador do PDT, Leonel Brizola, decidiram apoiar Lula na segundo turno contra Collor.| Estadão Conteúdo/Arquivo Gazeta do Povo

Jovem, Collor se apresentou como o ‘novo’ na política, seduziu grande parte dos eleitores e não teve dificuldades para chegar em primeiro lugar, com mais de 30% dos votos. Seu avanço apagou outras candidaturas do campo da direita, como Maluf, Aureliano Chávez e Afif Domingues.

Lula, com uma base construída nos movimentos sociais, sindical e popular, na porta das fábricas, passou apertado, desbancando por pouco Brizola e Covas. O petista, que havia protagonizado o movimento dos trabalhadores nas décadas de 1970 e 1980, logo reuniu apoio de artistas, intelectuais e ambientalistas.

Diante do programa de Collor, classificado como de direita, o PSDB de Covas – fundado com base em programas de centro-esquerda da social democracia –, assim como o PDT de Brizola – idealizado com princípios do trabalhismo europeu –, decidiram se unir à campanha de Lula, embalada por grandes nomes da cultura brasileira, na música, nas artes cênicas, na ciência e em vários outros setores.

O slogan progressista “sem medo de ser feliz” foi derrotado por Collor, “o caçador de marajás”. Na presidência, o novato Collor afundou o país em uma de suas maiores crises. O processo de impeachment e a renúncia levaram o PSDB ao poder anos depois, com FHC como a estrela do Plano Real. A partir daí tucanos e petistas viraram ferrenhos adversários.

Lula e Collor - campanha de 1989
Fernando Collor se apresentou como o novo na política e derrotou Lula, mas no governo afundou o país em profunda crise.

A briga entre PSDB e PT chegou ao auge após a reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, quando Aécio Neves não aceitou o resultado e passou a trabalhar pelo impeachment da ex-presidente. As feridas não se curaram nem mesmo nas últimas eleições, em 2018, quando o PSDB ficou de fora do segundo turno pela primeira vez e Bolsonaro assumiu como adversário do petismo. O mesmo aconteceu com o PDT: Ciro Gomes Gomes, que participou de governos petistas, viajou para Paris e não declarou apoio ao petista Fernando Haddad.

Os cenários desenhados até o momento para a disputa de 2022 ainda estão longe de se tornarem realidade. Mas a polarização crescente entre Lula e Bolsonaro – as pesquisas mostram hoje poucas chances de outros candidatos chegarem ao segundo turno – força previsões de que os partidos que estiveram com o petista em 1989 poderão se reunir novamente para tentar barrar o bolsonarismo em um eventual segundo turno.

No ninho tucanos, a aceitação de Lula não será fácil, apesar do desejo de lideranças históricas do partido de desbancar Bolsonaro. Aécio Neves, por exemplo, reagiu contra a aproximação de FHC com Lula. Disse com todas as letras que “Lula nunca foi e não será a opção do PSDB”.

Para quem está envolvido de perto nos arranjos políticos com o olhar voltado para a próxima corrida ao Palácio do Planalto, ainda há expectativa do surgimento de um nome de centro com força para mudar o jogo e impedir um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Mas os principais nomes da chamada ‘terceira via’ em evidência até agora – João Doria, Luciano Huck, Henrique Mandetta e Sergio Moro – não decolam. Ciro Gomes, que tenta pender para a centro-direita, também patina.

Em 2018, Doria e Mandetta estiveram com Bolsonaro, mas ambos agora são duros críticos do bolsonarismo. Moro largou a magistratura para ser ministro de Bolsonaro, no entanto, rompeu com o governo e saiu ‘dando tiros’.

Huck, que tem feito críticas contundentes ao governo Bolsonaro, é uma incógnita. Em 2018, no auge da disputa presidencial em segundo turno, o apresentador foi um dos integrantes do movimento ‘Agora!’ que se opuseram à articulação de uma nota da organização contra Bolsonaro e a favor de voto crítico em Haddad.

A cada dia mais convictos de que Lula será candidato e, na pior das hipóteses, estará no segundo turno, líderes petistas repetem que, em caso de confronto com Bolsonaro no segundo turno, os nomes da chamada ‘terceira via’ não poderão ficar em cima do muro. Eles terão de escolher lado. E muitos petistas não acreditam que esse lado será o bolsonarismo.

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