Quadro de Humberto Espindola, criador do termo Bovinocultura na arte.| Foto:

“Uma rês se espanta e o contágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o espanto sobre o rebanho inteiro.”
Euclides da Cunha, em Os Sertões.

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Chegou um tempo em que somos todos bois. Quando a boiada estoura, seguimos desembestados com a manada. Nada nos segura.

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Somos boiada quando aderimos à moda do próximo verão, aos gritos de guerra da torcida organizada, quando ouvimos mil vezes aquela música da parada de sucessos,  optamos pela cor do carro que está na onda, acreditamos bovinamente nas opiniões dos “papagaios de mídia” ou dos governos, compramos um produto só pela propaganda.

Na Aldeia Global, difundida por Marshall McLuhan (1911-1980), o tempo e o espaço desapareceram. Um acontecimento simultâneo envolve-nos a todos. Voltamos às emoções tribais de que a imprensa nos havia divorciado.

O rádio, nos anos 20, e a televisão, décadas depois, trouxeram até nós um contato mais rápido e mais íntimo com os outros como jamais havia sido possível.

Com a web, o tempo e o espaço perderam ainda mais o seu significado. Em um clique podemos interagir, mesmo que vitualmente, em qualquer parte do planeta.

Das inúmeras interfaces do “admirável mundo novo”, a vida digital ampliou o comportamento de boiada. Uma palavra, uma cena ou foto são suficientes para o estouro da boiada. Todos vão no mesmo caminho.

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Os virais nas redes sociais, especialmente Facebook, Twitter e WhatsApp, evidenciam esse efeito manada. Não se questiona a informação, não há contraponto, pouco importa dizer que não é assim, que o conteúdo é desprezível, irrelevante. A boiada segue adiante.

Quem estiver na frente que se cuide. A manada passa em cima. Na narração de Euclides da Cunha, os virais (a boiada) na web representam “milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida”.

E quando vem a calmaria, somos todos boiada mansa. “Pata a pata, casco a casco, soca soca, fasta vento, rola e trota, cabisbaixos, mexe lama, pela estrada, chifres no ar… A boiada vai, como um navio“, narra Guimarães Rosa.