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Kubrick dissecado: exposição promove um mergulho na mente criativa do cineasta
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Exposição segue até 12 de janeiro.

Exposição conta com cenografia especial produzida pelo Museu da Imagem e do Som, que fica na Avenida Europa, Jardim Europa. (Foto: Rafael Waltrick)

Responsável por alguns dos grandes clássicos do cinema, o diretor Stanley Kubrick está tendo sua carreira dissecada em uma exposição que leva seu nome, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. A mostra, parte da programação da 37ª Mostra Internacional de Cinema da capital paulista, iniciou em 11 de outubro e segue até 12 de janeiro. Fui conferir a exposição no último fim de semana. E, sem medo de soar piegas, posso dizer que saí emocionado.

A exposição é itinerante e está sendo apresentada pela primeira vez na América Latina. O acervo, com mais de 500 itens relacionados à filmografia e vida particular de Kubrick, foi organizado pela Deutsches Filmmuseum Frankfurt e The Stanley Kubrick Archive, da Universidade de Artes de Londres, com o apoio essencial da viúva do diretor, Christiane Kubrick. E olhe que há todo o tipo de coisa: fotos de bastidores, fotos tiradas pelo próprio Kubrick em seu início de carreira como fotógrafo, correspondências, cartas de fãs, objetos de cena, roteiros com anotações do próprio diretor, maquetes de ambientes dos filmes, pôsteres, figurinos originais usados nos filmes, câmeras e por aí vai.

Exposição tem 16 ambientes que retratam cenários e climas de filmes de Stanley Kubrick.

Exposição tem 16 ambientes que retratam cenários e climas de filmes de Stanley Kubrick, como Lolita (foto). (Foto: Rafael Waltrick)

Mas o que mais se destaca, quase mais do que o acervo em si, são os 16 ambientes da exposição, concebidos e adaptados pela própria equipe do MIS. Cada ambiente procura retratar aspectos e cenários dos filmes, de forma que o visitante mergulha de cabeça no universo do cineasta, por meio de imagem, som e tato. Na sala de Lolita (1962), por exemplo, há uma aconchegante e estilosa poltrona rosa em que você pode sentar para assistir a algumas cenas do filme — exibidas, vejam só, em duas telas que imitam as lentes dos óculos em forma de coração usados pela ninfeta.

Já na sala de Nascido para Matar (Full Metal Jacket, 1987) foram instaladas dois beliches com armação de metal e colchões, nos moldes dos retratados no filme, na parte que foca o treinamento dos militares americanos. Deitando na cama, você dá de cara com uma tela instalada na grade de cima. Aí, é só colocar os fones de ouvido e curtir algumas das cenas. O ambiente do filme De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999), apesar de contar com um acervo tímido, possui um luxuoso corredor de vidro com máscaras e vestidos dos dois lados – o visitante pode dar a volta e, colocando o rosto na parte de trás das máscaras, observar o público chegando, bem ao estilo dos voyeuristas sexuais do filme. Enquanto isso, o que se ouve são os penetrantes acordes do piano que embalam uma das cenas cruciais da obra, em que Tom Cruise é desmascarado.

Cenografia de Nascido para Matar conta com beliches que imitam camas usadas pelos soldados americanos.

Cenografia de Nascido para Matar conta com beliches que imitam camas usadas pelos soldados americanos. (Foto: Rafael Waltrick)

Os filmes de maior repercussão de Kubrick, como seria previsto, ganharam cenografias caprichadíssimas, como a que evoca o bar frequentado por Alex De Large e sua gangue em Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971). A sala de 2001 – Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey) é a maior da exposição e a única que pode ser observada de outro ponto, uma sacada no segundo andar da mostra. Em um formato circular, o ambiente é revestido de um branco quase cegante, com luzes que piscam na parede dando a volta na sala, ao som de maquinários e das naves espaciais vistos no filme. Até o enigmático totem negro está lá, justo no meio da sala. Sem falar nos figurinos originais da roupa de astronauta e da fantasia de homem primata usadas no filme.

Sou suspeito pra falar, mas o ambiente mais cativante — e assustador — é o do clássico O Iluminado (The Shining, 1980). E quem a elaborou e desenvolveu merece um prêmio. Ao invés de uma sala aberta, com quadros e documentos expostos na parede ou em mesas, foi construído um longo corredor com várias quebras (entenda-se esquinas). O papel de parede imita o visual dos corredores do Hotel Overlook e, veja só, os objetos estão escondidos atrás de portas, que é preciso abrir, puxando-as para o lado. Enquanto isso, ouvimos o tlec tlec incessante da máquina de escrever de Jack Torrance (o alucinado pai de família vivido por Jack Nicholson), embalado por uma trilha sinistra. Não dá outra. Parece mais um trem-fantasma do que uma exposição.

Entre os objetos de 2001 expostos, estão o figurino original do astronauta e a fantasia do homem primata.

Entre os objetos de 2001 expostos, estão o figurino original do astronauta e a fantasia do homem primata. (Foto: Rafael Waltrick)

Mas o espanto não para por aí. Imagine abrir uma das portas e dar de cara com o machado usado por Nicholson nas cenas finais, inclusive naquela em que ele destroça a porta e surge com seu “Heeeeeere´s Johny!“. Atrás de outra porta estão os dois vestidos originais usados pelas gêmeas fantasmas – um pouco gastos e amarelados, mas em um estado impecável, visto que foram usados há mais de 30 anos. Também lá está a máquina de escrever e a faca usada por Wendy para se defender do marido, assim como a blusa de lã com a estampa de nave espacial vestida pelo menino Danny. E, no final do corredor, em um espaço sem saída, há uma pequena cadeira para se sentar. Em frente, projetada na parede, está a cena em que um mar de sangue desce pelo elevador. Impossível não sentir o coração bater mais rápido. E se apaixonar ainda mais por Kubrick.

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Na exposição, é possível se sentir dentro do bar frequentado por Alex De Large em Laranja Mecânica.

Na exposição, é possível se sentir dentro do bar frequentado por Alex De Large em Laranja Mecânica. (Foto: Rafael Waltrick)

A visitação à exposição Stanley Kubrick pode ser feita de terça a sexta-feira das 12h às 21h e nos sábados, domingos e feriados das 11h às 20h. O ingresso custa R$ 10 (R$ 5 a meia), comprando diretamente no MIS, ou R$ 20 pela internet, no site Ingresso Rápido (não me perguntem porque é o dobro do preço). O bacana é que, com o ingresso, você ganha na hora um livreto de 40 páginas sobre a carreira e os filmes de Kubrick, bem caprichado, que já serve de guia para a visitação.

Uma dica: a mostra está bombando e, se você quer evitar filas, chegue bem antes do horário de abertura. Até porque há um limite de 200 pessoas por vez na visitação. Lembrando que a exposição segue até 12 de janeiro.

O programa Starte, da Globo News, dedicou praticamente uma edição inteira para a exposição. Na matéria dá pra ter uma boa noção do que aguarda o público no MIS. Assista aqui. E no site do MIS também dá pra conseguir mais informações sobre a mostra.

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