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George Orwell, considerado um dos mais influentes escritores do século XX, autor dos clássicos A Revolução dos Bichos e 1984, em que alerta para os perigos do comunismo e do totalitarismo, voltou a ser lembrado, lido e muito comentado por motivos claros.

Cada novo episódio de censura e tirania das redes sociais, cada nova campanha de “cancelamento” promovida por usuários das plataformas digitais contra quem tem opinião diferente, cada aplauso a ditadores traz à tona a lembrança de algo descrito em suas obras mais famosas.

Se a comunidade de porcos que comanda a Revolução dos Bichos e depois escraviza os demais animais da fazenda foi logo vista como uma alusão à revolução russa de 1917, a aldeia global da Oceania (continente imaginário onde vivem os humanos subjugados do então futurista 1984) veio a fazer sentido com algumas décadas de atraso.

A maioria de nós leu esses clássicos na escola, mas mesmo quem fugiu das leituras obrigatórias da adolescência a essa altura ao menos ouviu falar do autor e dos livros, já que toda hora alguém traz de novo a informação de que George Orwell foi um visionário.

Ele teria previsto com 70 anos de antecedência o que a humanidade está vivendo agora, em 2021: os ataques à liberdade de expressão, as tentativas de impor um pensamento único e de implantar uma governança global.

O que poucos sabem é que esse romancista ficcional fez outras previsões de futuro, também sombrias (e agora assustadoramente reais), que não estão nos livros, mas em uma série de outros escritos, de cartas a reportagens. A maior parte delas foi reunida no documentário A Life in Pictures, de 2003.

O filme, de uma hora e meia de duração, disponível no YouTube, traz um retrato da vida e do pensamento de George Orwell. Foi produzido pela BBC de Londres, emissora onde, aliás, ele trabalhou como jornalista.

George Orwell visionário

Do ano passado para cá muita gente começou a falar, com razão, que George Orwell acertou em quase tudo o que descreveu no livro 1984, só teria errado o título, que deveria ter sido 2021.

O que está descrito nessa obra parecia mera ficção na época do lançamento, em 1949. Mesmo quando chegou o ano do título do livro, 1984, aquilo tudo continuava parecendo uma coletânea de loucuras saídas de uma cabeça muito criativa.

Passadas mais algumas décadas, é assustador ver que aquele relato é verossímel, quase uma descrição do modo de vida que já estamos experimentando: um mundo onde tiranos do mundo empresarial e político avançam sobre as liberdades individuais, em especial a liberdade de expressão.

Mesmo sendo uma ficção o livro revela a que ponto pode chegar uma sociedade sob rígido controle e extrema vigilância. Não surpreendem, portanto, as analogias com o mundo atual. O que poucos comentam é que George Orwell foi além nessas previsões.

Em artigos, cartas e até em entrevistas concedidas nos meses entre o lançamento de sua obra mais famosa e sua morte por tuberculose no ano seguinte, o autor dobrou a aposta.

Previsões baseadas em observação

George Orwell nasceu na Índia, foi para a Inglaterra ainda criança e, já adulto, morou também na França. Foi jornalista, escritor e ativista político. Lutou na guerra civil espanhola como voluntário. Era um homem de muita experiência, portanto, que já tinha observado vários governos quando publicou 1984.

Antes de trazer as outras hipóteses de futuro levantadas por ele após a publicação do livro, sugerindo que a vida poderia se transformar num inferno caso a humanidade se rendesse a populistas tiranos, como aqueles que o mundo conheceu na primeira metade do século XX, vale relembrar alguns pontos importantes da sociedade distópica descrita no livro.

Em 1984, George Orwell fala de um partido único que assume o governo e vigia as pessoas o tempo todo através de câmeras, um sistema de controle chamado de Big Brother. Não à toa foi essa a inspiração para o nome do programa de TV em que ninguém tem privacidade.

O livro também mostra o funcionamento de um Ministério da Verdade, que estipula o que seria a “verdade” conforme as crenças que deveriam ser incutidas na cabeça das pessoas (qualquer semelhança com agências “checadoras” de fatos, que atuam de forma seletiva, não é mera coincidência).

Na sociedade do futuro, sob jugo de tiranos, não haveria apenas falsificação da verdade, censura e perseguição a ideias diferentes, mas até controle do pensamento. E o estímulo para que as pessoas se vigiassem e denunciassem os “infratores” das regras de só falar o que era autorizado.

Lembrou das milícias digitais que assediam anunciantes e empregadores para cancelar pessoas e empresas que não estejam dizendo ou fazendo o que elas querem que seja dito ou feito? Lembrou das campanhas de difamação, dos assassinatos de reputação, dos discursos de ódio contra quem pensa ou age de forma diferente?

O pior é ver tudo isso acontecendo e gente estimulando o patrulhamento que divide a sociedade, concordando que as redes sociais censurem, apoiando as milícias digitais. E achando lindos os ativistas que sequestram causas legítimas como se fossem deles, pregam e praticam violência e acabam gerando mais ódio (e não, empatia) pelas minorias que dizem representar.

É fácil fazer a analogia entre o mundo atual e aquele descrito em 1984. Se você está entre os que aplaudem a ideia de um planeta governado por gigantes de tecnologia, se acha aceitável que pessoas sejam canceladas e perfis, banidos de forma aleatória, recomendo a leitura (ou releitura) desse livro.

História de vida

Pouca gente sabe que George Orwell não inventou do nada essa história de governança global, de imposição de pensamento único, de uma tirania extrema que põe fim à liberdade de expressão.

Muitos pensam que ele era apenas um autor de ficção, mas Orwell era acima de tudo um bom observador do que vinha acontecendo na política: do estímulo à divisão da sociedade até a luta de classes. Foi natural que fizesse previsões de onde áquilo tudo ia dar.

Em outro livro, autobiográfico (Lutando na Espanha), ele fala sobre a transformação que ele próprio viveu em campo de batalha e explica por que foi deixando para trás as ideias socialistas que defendia.

George Orwell já tinha carreira de jornalista e de escritor consolidadas, mas decidiu lutar como voluntário ao lado dos anarquistas na guerra civil espanhola (1936) contra o fascismo do general Ferdinando Franco. Os anarquistas tinham a apoio dos republicanos, que eram patrocinados pelo comunismo russo.

No livro ele conta por que reviu tudo o que defendia. Os anarquistas foram perseguidos e degolados pelos comunistas patrocinados por Stalin, que estavam infiltrados entre os republicanos. O próprio escritor levou um tiro no pescoço, escapou e voltou para a Inglaterra, onde anos depois escreveu 1984.

Essa guerra ajudou a abrir portas para o nazismo e deixou mais de um milhão de mortos. O que ele viu lá e em outros lugares da Europa (perseguições, sumiço e morte de pessoas, mentiras, gente mudando a história e até a linguagem, proibindo o uso de determinadas palavras) alimentou a trama do livro.

1984 traz a ideia da novilíngua, nome dado à linguagem controlada pelos detentores do poder e das narrativas. Como todos sabemos, a obra é uma ficção, mas baseada numa realidade que já se implantava através da União Soviética e se espalhava pela Europa. O que ele fez foi imaginar para onde o mundo caminharia a partir daquele momento.

Hoje é conhecido o que aconteceu daquela época em diante. Vimos ideias nefastas sendo disseminadas com disfarce de altruístas, de preocupação com os mais fracos, os mais pobres. Projetos socialistas produziram desastres humanos com dezenas de milhões de mortos e pobreza extrema em todos os lugares onde foram implantados.

Mas o mundo de controle absoluto imaginado por George Orwell era, até pouco tempo, conhecido apenas como ficção. Agora começa a parecer real, especialmente à luz das outras previsões que o escritor fez após a publicação de 1984.

Documentário sobre George Orwell

A Life in Picture é um trabalho de dramaturgia, onde atores assumem o papel de Orwell e de interlocutores dele, reproduzindo entrevistas e relatos reais, trazendo falas que o escritor realmente disse e que ficaram documentadas.

Em determinado momento a atriz que faz o papel de repórter diz para Orwell que acha 1984 uma obra aterrorizante, a ponto de não ter vontade de ler outra parecida. E lembra que ele dizia ter uma habilidade para enfrentar fatos desagradáveis, perguntando se era isso que demonstrou em 1984, pintando um quadro preciso do futuro.

O escritor responde que a história é uma paródia, mas que ele acredita sim que algo parecido com o que descreve no livro poderia vir a acontecer de verdade, porque era naquela direção que o mundo estava indo. A parte mais assustadora é quando o escritor é instigado a ir além de 1984.

“No nosso mundo não haverá emoções, exceto medo, raiva, triunfo e autorrebaixamento. O instinto sexual será erradicado, aboliremos o prazer, não haverá qualquer lealdade exceto a lealdade ao Partido, mas sempre haverá a intoxicação pelo Poder. Sempre, a todo momento, haverá o entusiasmo da vitória, a sensação de espezinhar um inimigo que está indefeso.”

George Orwell, no documentário A Life in Picture

Aposto que você, como eu, também lembrou da ideologia de gênero, das tentativas de mudar a biologia humana, impondo narrativas como se fossem Ciência, bem como da prática atual de recriminar quem defende as tradições, a cultura e a própria biologia; a condenação por alguns grupos barulhentos de qualquer um que defenda o casamento, a família, filhos.

Uma sociedade que se entrega à doutrinação, a uma espécie de lavagem cerebral, que acredita e repete frases feitas e ideias não-fundamentas, dando força a governos corruptos, apoiando ditadores, cabe bem nas previsões de Orwell.

“Se você quer uma imagem do futuro pense numa bota pisando num rosto humano para sempre. A moral a ser tirada dessa perigosa situação de pesadelo é simples: não permita que aconteça, depende de você”.  

George Orwell, no documentário A Life in Picture

É forte, mas é um convite para agirmos enquanto há tempo, para não deixarmos que avancem sobre a nossa liberdade de expressão e nos escravizem em dogmas que são naturais apenas para minorias. É preciso exigir que as autoridades tomem providências sobre a ditadura imposta pelas grandes plataformas de mídia.

Por outro lado, temos todos uma missão individual: precisamos desmascarar a hipocrisia, a mentira, o duplo padrão. Não compartilhar nem curtir os "lacradores", os "canceladores", os assassinos de reputação já é um bom caminho.

Aqueles que deturpam tudo o que dizemos em publicações e comentários; que não têm argumentos, só xingamentos; que nos acusam de racistas, fascistas, machistas e mais uma infinidade de “istas”, sem sequer nos conhecer ou conhecer nossos valores, merecem resposta imediata; educada, mas firme.

Caso contrário, seguirão avançando sobre a verdade e tentando monopolizar as virtudes como se fossem eles os donos da razão. Querem calar as vozes de quem ousa pensar diferente. Não são democráticos, sequer empáticos. São tiranos, como os que George Orwell descreve em seus escritos.

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