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Violência policial e fome na Venezuela deveriam ser motivos suficientes para gritarmos aos quatro ventos que vidas latino-americanas importam. Se ganhou projeção mundial o movimento norte-americano Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), e importam mesmo, assim como importam todas as outras vidas de pessoas agredidas e mortas só por serem de determinada raça, sexo, religião ou ideologia política, por que não repudiarmos o que acontece no nosso vizinho ao Norte?

As vidas venezuelanas vem sendo duramente castigadas, não só pela fome e pela miséria, mas também pelas forças nacionais de uma ditadura violenta. Estranhamente são ignoradas pelos defensores de direitos humanos de rede social.

Fui atrás dos dados mais recentes sobre mortes no país que o ditador Nicolás Maduro diz governar. Dados oficiais, mesmo que existissem, seriam questionáveis. Mas não existem. O site oficial do governo federal venezuelano é uma piada, sem portal de transparência, links de acesso a informações de ministérios, nada.

Para não dizer que não traz informação alguma, parece um panfleto digital de partido em eterna campanha. Quem clica na aba "notícias" na página inicial tem a sensação de estar diante de um jornal de sindicato, com quadrinhos de notícias pró-Maduro. Ele, aliás, está na página principal, próximo a um quadro com a imagem de seu antecessor, o também ditador Hugo Chávez.

Site oficial do governo da Venezuela
Site oficial do governo da Venezuela| Reprodução

Por sorte ainda há universidades, algumas empresas jornalísticas independentes (apesar da censura aos meios de comunicação) e Organizações Não-Governamentais empenhadas em divulgar o que acontece por lá. É nessas fontes que se pode obter informações mais recentes e dados confiáveis.

Antes de falar da violência policial contra quem ousa reclamar do governo na Venezuela, quero dar um panorama da situação dos protestos no país no primeiro semestre de 2020, algo que foi notícia recentemente aqui na Gazeta do Povo.

25 manifestações por dia

Relatório divulgado agora em julho pelo Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais (OVCS), ONG que monitora as manifestações no país, revelou que só no primeiro semestre de 2020 foram registrados 4.400 protestos na Venezuela, média de 25 manifestações por dia. Isso num ano em que o mundo inteiro se trancou em casa por causa da pandemia.

Se o povo lá reclama tanto é porque está descontente. E contra o que reclamam? Querem emprego? Liberdade? Justiça? Posso apostar que sim, mas os apelos na rua são por bem menos. Os venezuelanos querem acesso a serviços básicos, tanto que o primeiro lugar nas reivindicações é por água e gás. Não tem água nas torneiras ou gás para fazer comida!

Depois vêm as reclamações por falta de luz. Todo mundo sabe a dificuldade que é ficar sem energia elétrica. Agora imagine isso ser tão frequente que a população vai para a rua reclamar, com faixas e cartazes, porque não tem energia em casa! Há também manifestações por melhores condições de trabalho, por falta de remédios, até de gasolina.

É quase inacreditável que falte combustível num país que já foi uma potência petrolífera! A Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo, mas não se consegue comprar gasolina. Aliás falta dinheiro para a população, bastante empobrecida. Para quem tem recursos financeiros, falta produto pra comprar.

As notícias dão conta de que os venezuelanos estão passando muita necessidade, a começar pela fome. Há pesquisas médicas mostrando que 80% da população adulta emagreceu uma média de 11 quilos no ano passado. Pense o que é isso! 25,6 milhões de pessoas famintas.

Magros, com imunidade baixa, os venezuelanos estão contraindo doenças que já tinham sido erradicadas e que podem ser evitadas com vacinas, como difteria e sarampo. É uma crise de saúde sem precedentes. Isso sem falar na Covid-19, porque a Venezuela, assim como a China e outras ditaduras do mundo, sonega informações sobre o número de contaminados e mortos na atual pandemia, mas ela também afeta o povo venezuelano.

Violência policial: vidas venezuelanas importam!

Vamos então ao tema principal deste artigo: a violência da polícia de Maduro contra o povo venezuelano. Segundo outra ONG, o Observatório Venezuelano de Violência (OVV), mais da metade dos assassinatos no país são cometidos por policiais.

Levantamento recente, feito com base em relatos da imprensa regional no estado de Aragua, mostrou que de janeiro a junho deste ano 188 dos 363 assassinatos registrados foram cometidos por policiais. Nem todas as mortes foram em protestos, mas esse número mostra como é cruel a repressão policial num país onde o governo evita críticas amedrontando e matando pessoas.

Outro levantamento dessa mesma ONG, divulgado em dezembro do ano passado, já tinha mostrado que em 2019 cerca de 5,2 mil pessoas morreram na Venezuela por apresentar “resistência à autoridade”. Por incrível que pareça esse número é menor que o de 2018, quando as mortes violentas devido à "resistência à autoridade" superaram 7,5 mil.

A ONG explica que a redução não foi porque a repressão policial diminuiu, mas por causa da migração em massa do povo venezuelano, que foge da ditadura aos milhões. O Observatório Venezuelano de Violência faz a contagem dos mortos a partir de denúncias das famílias das vítimas e com base também em levantamentos de oito universidades venezuelanas.

Agora em julho a ONG divulgou dados de prisões, apenas prisões, numa única região do país, mas que mostram que a situação não mudou por lá nem mesmo durante a pandemia. As pessoas sabem que é arriscado contrair coronavírus em aglomerações, mas a situação é tão ruim que ir para a rua protestar é o que resta.

O relatório mostra que em poucos dias de protesto 32 pessoas foram presas só no estado de Lara, por reclamar de falhas nos serviços públicos de água, eletricidade, gás, transporte e coleta de lixo, além da falta de gasolina.

O OVV afirma que algumas foram ameaçadas de represália caso contassem a experiência que viveram nas mãos da polícia. Ainda assim, relatos de tortura chegaram aos defensores de direitos humanos e a deputados da Assembleia Nacional.

Neste caso o que chama a atenção não é nem o número de 32 presos, apesar de ser muito para uma única província, em poucos dias de protesto. Há uma informação chocante embutida aí: entre esses 32 manifestantes levados pela polícia 3 são pessoas com deficiência: um tem síndrome de down, outro é epilético e tem esclerose múltipla e, um terceiro, tem dificuldades motoras tão graves que só tem 20% de mobilidade corporal, quase não se mexe.

Se estavam numa manifestação provavelmente acompanhavam alguém. A polícia levou os três, junto com outros 29 manifestantes, para cadeia. O relato é que quando foram soltos o portador de síndrome de down só chorava, não conseguia sequer contar para o juiz por que tinha sido preso.

A Human Rights Watch afirma que hoje, na Venezuela, não existem instituições governamentais independentes para atuar no controle de excessos cometidos por forças do governo.

“Por meio de uma série de medidas sob os governos de Maduro e Chávez, os tribunais foram ocupados com juízes que sequer disfarçam ter alguma independência. O governo tem reprimido a dissidência muitas vezes de forma violenta, restringindo protestos de rua, prendendo opositores e processando judicialmente civis em tribunais militares.O governo tem também minado o poder da oposição no Legislativo.”

Relatório Human Rights Watch

A ONG denuncia que as prisões venezuelanas estão em condições precárias, que há perseguição a defensores de direitos humanos e a jornalistas de meios de comunicação independentes e que os agressores não são punidos por violar os direitos humanos.

Era ou não o caso de estar havendo uma indignação mundial, grandes mobilizações de rua e campanhas engajadas nas redes sociais pelas vidas latino-americanas que estão sendo desprezadas e atacadas violentamente por agentes de Estado?

Cadê a indignação geral? Vidas latino-americanas importam, vidas venezuelanas importam, vidas de negros, brancos, índios, homens, mulheres, deficientes... Todas importam!

Migração como saída

Há uma última informação, bem importante, sobre o processo de fuga do país. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) de 2014 a 2019 mais de 3 milhões de venezuelanos fugiram do país.

Isso significa que em cinco anos 10% da população venezuelana (que é de 32 milhões de habitantes) desistiu de morar lá, largou tudo o que tinha e veio tentar a sorte no Brasil ou foi para a Colômbia, que também é vizinha, ou mesmo para outros países da América do Sul, quase sempre de ônibus, carro ou carona.

É como se no Brasil a debandada tivesse sido de 20 milhões de pessoas. Imagine 20 milhões de brasileiros deixando parentes, amigos, toda uma história de vida, porque não suportam mais a fome, a sede, a falta de remédios, de água, luz, combustíveis, de condições mínimas para se viver.

E também por causa, claro, da repressão da polícia de um governo desumano, uma ditadura violenta que, infelizmente, muitos, aqui no Brasil inclusive, ainda tem a cara de pau de defender.

Se vidas latino-americanas importam para você, deixe sua impressão sobre o que sentiu ao ler esse artigo, comente e compartilhe. Assim você mostra que a indignação não pode ser seletiva e que todas as vidas importam.

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