Publicidade
Crônicas de um Estado laico

Crônicas de um Estado laico

Eleições

O Brasil precisa aprender a continuar

Política convivência
Pessoas que votam em candidatos diferentes estão convivendo o tempo todo, nas ruas, nas escolas, nas igrejas. (Foto: Imagem criada utilizando Google Gemini/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

Chegamos outra vez àquela semana em que parece que o Brasil vai acabar no domingo.

Basta abrir o celular. Nos grupos de família, entre amigos, no almoço do trabalho, na saída da igreja, repetem-se, com palavras diferentes, os mesmos receios. Se um ganhar, perderemos isto. Se o outro ganhar, acontecerá aquilo. Uns estão entusiasmados, outros indignados. Há quem já tenha decidido há muito tempo e há quem ainda olhe para os dois nomes sem conseguir apertar a tecla com convicção. Alguns votarão com esperança; muitos votarão, provavelmente, porque consideram uma das alternativas menos ruim do que a outra.

Nada disso é anormal numa eleição importante. O que me inquieta é a sensação de que, mais uma vez, colocamos sobre uma única votação um peso que talvez nenhuma eleição consiga suportar.

Desde quando o Brasil precisa ser salvo a cada quatro anos?

O sujeito que vota diferente de você pode torcer para o mesmo time, sentar-se no banco ao seu lado na igreja, trabalhar na mesa em frente à sua, levar o filho para a mesma escola e reclamar do mesmo buraco na rua

Não digo isso porque considere que tanto faz quem vença. Não considero. Há ideias da esquerda sobre o ser humano, a sociedade e o papel do Estado das quais discordo profundamente e que não correspondem ao país que desejo deixar aos meus filhos. Existem escolhas melhores e piores, e o eleitor não deveria entrar na cabine indiferente ao que está em jogo.

Mas talvez justamente por levarmos essas escolhas a sério precisemos recolocá-las na sua verdadeira dimensão. No domingo escolheremos um presidente. Não escolheremos quem somos.

Parece uma distinção óbvia, mas nosso sistema político não ajuda muito a preservá-la. No presidencialismo brasileiro, a mesma pessoa é chefe de governo e chefe de Estado. Elegemos quem administrará o Executivo federal, indicará ministros, formulará políticas públicas e comandará uma máquina gigantesca, mas elegemos também aquele que, durante quatro anos, será a personificação da República.

É muita coisa colocada sobre os ombros de uma pessoa. E talvez seja também muita coisa colocada sobre os ombros do eleitor.

Pouco a pouco, uma eleição presidencial deixa de responder apenas a uma pergunta relativamente simples – quem deve governar? – e começa a carregar outra, infinitamente mais difícil: que Brasil somos?

A partir daí, o candidato já não é apenas candidato. Torna-se símbolo. Um passa a representar o Brasil que queremos; o outro, o Brasil que tememos. Um encarnaria determinados valores, o outro ameaçaria esses mesmos valores. E, quando percebemos, já não estamos escolhendo apenas um governo por quatro anos. Estamos discutindo se nossa própria maneira de viver ainda terá lugar no país na segunda-feira.

Talvez isso explique parte da angústia que tanta gente sente e não consegue colocar em palavras.

Costuma-se chamar tudo isso de “polarização”. Não estou certo de que a palavra explique tanto quanto parece. Há, evidentemente, divisões políticas profundas entre nós, e o pluralismo é fundamento constitucional. Mas o Brasil real é muito mais misturado do que os mapas eleitorais fazem parecer.

O Brasil parece estar sempre recomeçando. Uma democracia, porém, precisa aprender outra coisa. Precisa aprender a continuar

O sujeito que vota diferente de você pode torcer para o mesmo time, sentar-se no banco ao seu lado na igreja, trabalhar na mesa em frente à sua, levar o filho para a mesma escola e reclamar do mesmo buraco na rua. Pode compartilhar com você nove preocupações e discordar profundamente na décima. Talvez nem goste especialmente do candidato em quem votará no domingo.

O segundo turno precisa transformar toda essa complexidade em duas alternativas. É da sua natureza. O erro é imaginar que o país também se transformou em duas coisas. O segundo turno é binário. O Brasil não é. Nossa dificuldade com isso não começou nesta eleição.

Há uma sequência de datas na história republicana que incomoda: 1889, 1930, 1937, 1945, 1964, 1985. Não são acontecimentos iguais e seria uma enorme simplificação histórica tratá-los dessa maneira. Temos golpes, revoluções, ditaduras, derrubadas de regimes e processos de redemocratização muito diferentes entre si. Ainda assim, há algo que essa sucessão revela: por quase um século, tivemos enorme dificuldade em resolver grandes conflitos políticos simplesmente trocando o governo e seguindo adiante. Muitas vezes mudávamos também a própria ordem política.

Talvez por isso tenhamos tanta familiaridade com a palavra “refundação”. O Brasil parece estar sempre recomeçando. Uma democracia, porém, precisa aprender outra coisa. Precisa aprender a continuar.

A democracia não se sustenta apenas em leis e instituições. Ela depende também de um tecido moral anterior ao Estado, que inclui a capacidade de conviver com quem pensa diferente

Isso exige tempo. Uma geração precisa ver seu candidato perder e descobrir que o país não acabou. Precisa ver o adversário governar, criticá-lo, enfrentá-lo politicamente e esperar a próxima eleição. Precisa assistir a quem venceu entregar o cargo quando chega a hora. Precisa perceber, algumas vezes, que decisões tomadas por um governo serão desfeitas por outro e que isso também faz parte do jogo.

Democracia não é apenas votar. É adquirir o hábito da alternância.

A ordem de 1988 talvez tenha nos dado, pela primeira vez, tempo para aprender esse hábito. Atravessamos crises econômicas, impeachments, escândalos, conflitos entre poderes, pandemia, 8 de janeiro e eleições duríssimas. Discordamos profundamente sobre muitos desses episódios, mas continuamos sob a mesma Constituição. Isso não é pouco.

Fomos um país de recomeços durante tanto tempo que talvez não tenhamos percebido o valor de simplesmente permanecer. Mas há uma dificuldade adicional, e seria confortável demais escondê-la atrás de uma conversa genérica sobre “os dois lados”.

A América Latina nem sempre lidou bem com a alternância. Em algumas experiências de esquerda, a chegada ao poder foi entendida menos como mandato temporário e mais como etapa de transformação da sociedade e das próprias instituições. Venezuela e Nicarágua mostram até onde esse processo pode avançar, com concentração de poder, enfraquecimento dos contrapesos e redução da competição política. Há uma diferença importante aí. A democracia vive da reversibilidade.

A democracia vive também da provisoriedade: o que uma maioria faz hoje outra poderá rever amanhã. O problema surge quando um projeto político trata sua visão como caminho inevitável da história e qualquer reversão como retrocesso. Isso se agrava quando a disputa alcança pessoa, família, educação, vida, fé e consciência. O brasileiro talvez não fale em “antropologia”, mas percebe quando aquilo que aprendeu em casa ou confessa na igreja passa a ser tratado como algo a superar.

Por isso a democracia não se sustenta apenas em leis e instituições. Ela depende também de um tecido moral anterior ao Estado: confiança, responsabilidade, autocontenção, respeito e capacidade de conviver com quem pensa diferente. Nada disso nasce por decreto.

É aqui que a religião pode oferecer algo decisivo. Fernando Catroga, em Entre Deuses e Césares, ajuda a lembrar que a política também cria símbolos, lealdades e altares. Talvez tenhamos separado os altares do Estado sem aprender a não transformar o poder em altar.

O cristianismo oferece um freio antigo: César não é Deus. Nenhum presidente salva um povo, nenhuma eleição redime uma sociedade, e nenhum adversário deixa de ser nosso próximo. Quem frequenta uma igreja conhece isso: pessoas diferentes sentam no mesmo banco, votam diferente e seguem orando juntas porque reconhecem algo maior do que suas divergências.

Há entre nós uma capacidade cotidiana de proximidade, amizade e convivência que resiste aos discursos apocalípticos da política

A política precisaria reaprender isso. Dividir pode ajudar a vencer; depois, porém, continuaremos vizinhos, colegas, parentes, professores e alunos. Brasília às vezes nos faz parecer inimigos, mas o Brasil real sabe que não pode se dar a esse luxo. Talvez haja nisso algo profundamente brasileiro.

Não quero romantizar nossa história. Conhecemos violência, desigualdade e brutalidade política. Mas também há entre nós uma capacidade cotidiana de proximidade, amizade e convivência que resiste aos discursos apocalípticos da política.

O desafio de nossa geração pode ser menos heroico, mas talvez seja mais difícil: defender com firmeza aquilo em que acreditamos, corrigir o que precisa ser corrigido, limitar o poder quando ele ultrapassa suas fronteiras e, ainda assim, deixar uma casa em pé para que aqueles que vierem depois de nós possam fazer o mesmo.

No domingo, vote. Vote levando a sério aquilo em que você acredita. E, quando acordar na segunda-feira, lembre-se de uma coisa que talvez valha ainda mais do que o resultado que aparecerá na televisão: o Brasil continuará aqui.

Já recomeçamos muitas vezes. Está na hora de aprendermos a continuar.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.