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Invasão de igreja gera onda de críticas em todo o país; vereador do PT é alvo de pedido de cassação
Vereador Renato Freitas, do PT, liderou invasão a uma igreja católica localizada no centro de Curitiba no sábado, 5 de fevereiro.| Foto: Malik Fotografia/Mandato Renato Freitas

Os comentários mais frequentes em nossas redes sociais ao longo da semana, quando reportamos o lamentável caso da invasão da igreja Nossa Senhora do Rosário, no Largo da Ordem, em Curitiba, pelo vereador Renato Freitas (PT) e ativistas, foram algo do tipo “e agora? Qual vai ser a punição? Será que vai dar em pizza?” Isto me fez lembrar de uma história muito interessante.

No início do século 19, dois jovens aristocratas franceses empreenderam uma viagem longa aos Estados Unidos, enviados pelo governo do rei Luís Filipe I, o famoso “rei burguês” (que se tornaria parente da nossa família imperial por ser um Orleans, família do Conde D’Eu, que se casou com nossa princesa Isabel), com o intuito de observar o sistema prisional norte-americano. Como tudo naquela época demorava muito mais do que hoje, esta viagem durou uma gestação: 9 meses desde que chegaram a Nova York, no mês de maio de 1831, até fevereiro de 1832, quando regressaram à França.

Precisamos, como cidadãos, envolvermo-nos mais com a sequência dos assuntos. Não basta uma indignação na rede social

Um deles resolveu, entretanto, caminhar algumas milhas a mais do que lhe haviam pedido. Para além do relatório sobre o sistema prisional, o jovem Alexis-Charles-Henri Clérel, posteriormente conhecido como Alexis de Tocqueville, passou a observar todos os aspectos possíveis daqueles tempos efervescentes da sociedade norte-americana, apenas 55 anos após sua independência e 44 da promulgação de sua Constituição. Seu livro A democracia na América tornou-se um sucesso editorial, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, chegando a ser o segundo livro mais citado no Congresso americano, perdendo apenas para a Bíblia.

Tocqueville observa aspectos muito peculiares daqueles imigrantes, refugiados, e, agora, aventureiros de toda ordem que aportaram do lado de cá do Atlântico Norte, e que pareciam movidos e arranjados de formas bem diferentes dos europeus. Lembremos que os jovens eram membros do Ancien Régime, que havia sido derrubado em 1789, mas cuja revolução não tinha feito muito, posto que já a monarquia reinava de novo.

Para uma Europa ainda envolta em monarquias mais ou menos absolutas, dos Romanov da Rússia aos Bragança de Portugal, noções como liberdade religiosa, associativa e econômica, conjugadas, pareciam uma receita perigosa. E é justamente neste ambiente que o jovem francês se depara com pessoas discutindo nas rodas de conversa não os últimos acontecimentos triviais, mas sim os júris populares que se faziam lá! O papo era sobre a retórica do promotor, ou a astúcia argumentativa do advogado de defesa; se os jurados iriam para um lado ou outro; e acompanhavam o caso ruidosamente (até aqui, pouco mudou. Pesquisas mostram que os americanos continuam muito interessados em acompanhar casos judiciais da sua comunidade, assistindo a programas de juízes, e ficção envolvendo tribunais).

Entendeu o jovem Tocqueville (que depois também entrou pra história por ter cunhado a expressão “social-democrata”, amplamente usada na Europa do século 20) que havia uma verdadeira soberania do povo nos Estados Unidos – sem descuidar questões como a escravidão e racismo, realidade inegável e indesculpável, mas que se enxergava com os óculos daquela época – e um senso de igualdade material entre as pessoas.

Se alguém na Europa tinha problemas que não conseguia resolver, batia à porta do líder político (do “barão”) local para pedir, no melhor estilo feudal, a proteção de seu padrinho político; enquanto, na América, Tocqueville assistia a pessoas se unindo em associações civis que iam, em conjunto, resolvendo problemas. Somente depois de a força associativa não dar conta da situação é que o Estado era chamado a intervir. Uma observação interessantíssima de um “princípio de subsidiariedade” católico em conjugação com a “soberania das esferas” reformado, e o sentimento puritano de busca de excelência naquela Terra da Provisão.

Haverá punição para o vereador? Depende da observação atenta da população. Haverá punição para os ativistas que entraram junto na igreja, disseram impropérios para o padre e os fiéis? Depende de como a sociedade quer proteger a primeira das liberdades, a religiosa

Há diferenças gigantes entre a formação do povo norte-americano e nós, brasileiros. Somos oriundos de culturas, temperamentos, visões de mundo e, mesmo, de aproximações diferentes do próprio cristianismo, religião que amalgamou a civilização ocidental e produziu visões paralelas na tradição católica ibérica e no norte europeu protestante. Porém, os valores universais da busca pela justiça, da paz e do bem comum são faróis a iluminarem todo e qualquer ser humano. Portanto, aquilo que é bom em outra cultura, que seja um parâmetro para imitarmos.

Precisamos, como cidadãos, envolvermo-nos mais com a sequência dos assuntos. Não basta uma indignação na rede social. Precisamos urgentemente de formação religiosa, moral e política. E isto passa por entender o valor da liberdade e de sua correlação: responsabilidade por nossos atos.

Ou seja: haverá punição para o vereador? Depende da observação atenta da população curitibana (e, diante do absurdo deste caso, de todo o Brasil). Haverá punição para os ativistas que entraram junto na igreja, disseram impropérios para o padre e os fiéis? Depende de como a sociedade quer proteger a primeira das liberdades, a religiosa. Haverá novos ataques como este? Dependerá, em muito, dos rumos que este caso tomar.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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