Em 5 de agosto, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) anunciou, com pompa e justificativa oficial, a troca do letreiro do gabinete da reitoria: sai “Gabinete do Reitor”, entra “Gabinete da Reitoria”. A medida, segundo a instituição, buscou adequar a sinalização interna a diretrizes de linguagem inclusiva e neutra em relação a gênero.
Uma ação aparentemente pequena, mas que carrega um peso simbólico considerável: trata-se de um ato afirmativo, de alto valor performático, que sinaliza à comunidade qual é a postura institucional diante de causas e discursos específicos.
Poucos dias depois, no dia 12, outro gesto – desta vez negativo – carregou igual ou maior simbolismo. Um grupo de estudantes cristãos, integrantes de movimentos universitários como o Aviva Universitário e a Rede UFRGS, solicitou formalmente autorização para realizar um culto no anfiteatro do Câmpus do Vale. Recebeu, por duas vezes, a mesma resposta: “não”. Nenhuma justificativa.
Não há espaço para que uma universidade pública, que se apresenta como plural e inclusiva, permita certas manifestações religiosas e impeça outras
Na tentativa de orar no local, os jovens foram cercados por seguranças e expulsos, inclusive com relatos de abordagem física. Na noite seguinte, uma nova tentativa foi novamente barrada, e o grupo atravessou a rua para realizar a celebração numa rotatória em frente à universidade. No frio, vigiados de perto por carros da segurança, mais de 500 pessoas adoraram a Deus, 15 delas decidiram entregar suas vidas a Cristo, e o som da fé atravessou os muros que não quiseram recebê-la.
Quando colocados lado a lado, os dois episódios mostram o poder das ações afirmativas e das ações negativas. O que se permite ou se promove, e o que se nega ou se reprime, diz muito mais sobre a verdadeira orientação institucional do que qualquer discurso oficial.
No primeiro caso, há investimento em um sinal visível de adesão a determinada agenda. No segundo, uma recusa igualmente visível à expressão pública de uma fé específica. Ambos os gestos são simbólicos. Ambos moldam a cultura. Ambos comunicam à comunidade acadêmica e à sociedade qual é a “diversidade” que se quer cultivar – e qual se quer silenciar.
Essa seletividade não encontra guarida na laicidade brasileira. O nosso modelo constitucional não é o de um Estado hostil à religião, mas o da laicidade colaborativa: separação institucional entre Igreja e Estado, liberdade de atuação das confissões, benevolência estatal diante da fé e igual consideração por todas as crenças.
Não há espaço para que uma universidade pública, que se apresenta como plural e inclusiva, permita certas manifestações religiosas e impeça outras, especialmente quando a recusa se reveste de silêncio e ausência de justificativas.
É um contrassenso histórico. As universidades surgiram no seio da Igreja cristã. Foram monges, bispos e teólogos que estruturaram, na Idade Média, os primeiros centros de ensino superior da Europa, onde a busca pelo saber era indissociável da busca pelo sentido último das coisas. O saber e o adorar sempre conviveram no mesmo espaço, alimentando-se mutuamente. Uma universidade que se fecha à oração renega parte de sua própria genealogia.
A diversidade que cala não é diversidade: é hegemonia disfarçada. Inclusão que seleciona quem pode falar não é inclusão: é exclusão estratégica
A vida acadêmica, quando fiel à sua vocação mais nobre, é espaço de encontro de todas as vozes que ecoam na praça pública. Não é uma bolha onde se filtram as manifestações de acordo com critérios ideológicos. Não é um reduto de censura sob a fachada de “ambiente seguro”. É, ou deveria ser, uma arena aberta, em que convicções diferentes se testam e se enriquecem mutuamente.
A diversidade que cala não é diversidade: é hegemonia disfarçada. Inclusão que seleciona quem pode falar não é inclusão: é exclusão estratégica. Se a universidade quer de fato ser um espaço plural, precisa abrir as portas não só para o discurso que agrada, mas também – e sobretudo – para o que provoca, desafia e incomoda. E poucas coisas, no Brasil de hoje, parecem incomodar tanto certas estruturas quanto ver jovens se reunindo para adorar a Deus em um câmpus público.
Talvez seja hora de lembrar que a liberdade acadêmica não existe apenas para proteger pesquisas e cátedras, mas também para preservar a chama da consciência – inclusive a consciência religiosa. Porque o saber, sem a liberdade de adorar, corre o risco de tornar-se apenas mais uma ferramenta de poder. E o poder, sem o contraditório, cedo ou tarde, se converte em tirania.
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