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O cantor Lenine mostrou, em seu show no festival Lupaluna, no último dia 18/5, em Curitiba, que a poesia pode andar de mãos dadas com a música brasileira sem maiores problemas. O abismo colocado entre essas duas partes de uma composição, atualmente, faz com que, ver um show de artistas deste porte, seja uma espécie de “banho purificador” em sua alma.

Lenine faz uma música “intelectualizada”, com melodias mesclando beleza, suingue e letras sempre inteligentes. O cantor é um grande apreciador de histórias em quadrinhos e ficção científica, influência que pode ser notada em músicas como “O homem dos olhos de raio-x”.

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O formato do show surpreendeu os fãs. Lenine, e seu inseparável violão, foram acompanhados, apenas, por dois músicos, Bruno Giorgi e JR Tostoi, que executam vários instrumentos. Uma bateria eletrônica, samplers e camadas de teclado completam o caldeirão sonoro do artista. A tecnologia é muito usada na apresentação. Em “Jack soul brasileiro”, por exemplo, o cantor gravou um loop, (uma sequência de sons que se repetem), ao vivo, com o violão, e depois cantou em cima dessa base.

“Chão”, o seu mais recente trabalho, traz sons do cotidiano das pessoas, ilustrando as canções. “Quando eu fui gravar a primeira música, ‘Amor é pra quem ama’, para a minha sorte, a porta do estúdio estava entreaberta e ‘vazou’ o canário da minha sogra, o Frederico. E aí, nessa hora, o Bruno, meu filho, que é um dos produtores, disse: pai ele está cantando não só no tom, mas está evoluindo com o arranjo da música. Vamos assumir?”, conta Lenine. A interferência inesperada acabou entrando no disco, desta forma. “Nós gravamos e o que vocês ouvem é aquilo ali, sem adição, sem manipulação”, explicou. O músico soube interpretar essa coincidência e usá-la em seu trabalho. “Ele me deu esse presente, essa janela de poder usar os sons que povoam o meu dia-a-dia, o cotidiano, para ambientar essas novas canções”, afirmou.

Lenine tem uma forma muito pessoal de tocar, usando muito as notas mais graves para fazer o baixo no violão, ao lado de um suingue inconfundível. Músicas como “Meu candeeiro encantado” e “A ponte” são bons exemplos disso. Essa originalidade na execução é encontrada só em grandes gênios da música brasileira, como João Bosco e Raphael Rabello.

Um dos mais belos momentos do festival foi a última música do show. “Paciência”, com a sua bela melodia dedilhada ao violão e sua letra tocante, fez com que os fãs chegassem às lágrimas. “Enquanto todo mundo espera a cura do mal, e a loucura finge que isso tudo é normal, eu finjo ter paciência”, diz a letra. Em um mundo cada vez mais egocêntrico, uma pausa para ouvir, e refletir sobre frases como essas, é de bom grado.

Muitos artistas nacionais mostram, em seu trabalho, alguma influência da música do cantor. “Eu acho bacana, da mesma forma que eu tenho as minhas referências”, afirmou. A julgar pela qualidade do seu trabalho, Lenine continuará sendo um espelho para a música brasileira durante muito tempo.

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Confira 3 vídeos do show de Lenine.