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Mais de 40% das pessoas que vivem nas principais cidades europeias já pensaram em se mudar devido à pandemia, mostra um novo estudo.
Mais de 40% das pessoas que vivem nas principais cidades europeias já pensaram em se mudar devido à pandemia, mostra um novo estudo.| Foto: stockstudioX | / Getty Creative / VCG

Urbi et Orbi (“para a cidade [de Roma] e para o mundo”, tradução livre do latim) é a famosa benção papal concedida em ocasiões solenes, como a Páscoa e o Natal. Trata-se de uma mensagem para a cidade (urbs) e para o mundo (orbi). Porém, com a chegada da pandemia, cada vez mais as pessoas estão se deslocando dos grandes centros para o campo (agri), onde buscam mais espaço e conexão com a natureza. O movimento tem gerado uma desvalorização dos imóveis urbanos, e o aumento da procura por locais afastados das metrópoles, em face da popularização do home office. Entre os principais motivos está o desejo de evitar aglomerações, fugir da violência e pagar menos impostos. Todavia, para além de mera questão imobiliária e demográfica, há importantes desdobramentos geopolíticos envolvidos no processo, que podem gerar uma verdadeira revolução na maneira como os jogos de poder se desenrolam.

Quando observamos a realidade americana, temos um bom exemplo das consequências políticas desse êxodo urbano. Nas últimas eleições, foi confirmada a hegemonia democrata nos espaços mais populosos, e a prevalência republicana nas áreas menos povoadas, com destaque para o ambiente rural. Enquanto as cidades se consolidaram como zonas progressistas, o campo ratificou sua prevalência conservadora. Como fica, então, o jogo político num cenário de forte decréscimo populacional nas grandes cidades?

Talvez a resposta esteja na pergunta: para onde estão indo as pessoas que saem das capitais? Em geral, a população que deixa os estados tradicionalmente democratas (como Califórnia e Nova York) está se deslocando para governos identificados como republicanos, como Idaho e Texas. A grande questão é saber se os eleitores progressistas que estão chegando a regiões conservadoras conseguirão transformar a orientação política desses locais, ou se serão diluídos em meio à hegemonia mais tradicional. Essa definição pode significar uma mudança completa na dinâmica eleitoral.

Nos EUA, os democratas investiram pesadamente seus esforços de propaganda política nas áreas urbanas. O problema é que a população das grandes cidades está diminuindo. Além disso, eles parecem ter pouco sucesso em expandir sua zona de influência para os grupos mais afastados dos grandes centros. Caso não consigam desenvolver tal habilidade, o futuro do partido do atual presidente pode se tornar incerto.

Se você acha que isso é uma realidade apenas americana, dados recentes mostram que algo muito semelhante está acontecendo, por exemplo, com a cidade do Rio de Janeiro. Há um crescente êxodo da capital fluminense em direção a cidades da Região Serrana. Pesquisas apontam, por exemplo, um aumento de 42% neste fluxo. Os problemas de segurança já funcionavam como grande incentivo para a saída da capital. Agora, com a chegada da pandemia, foi acrescentado mais um estímulo ao êxodo, que cresce a cada dia.

Há, porém, um aspecto tecnológico que tem sido crucial e que pode apontar aumento de poder para um poderoso setor do tabuleiro geopolítico internacional: os aplicativos de chamada de vídeo. Entre estes, o grande destaque foi o Zoom, com crescimento de 1900% em número de usuários desde o início da pandemia. Essas tecnologias têm transformado reuniões antes presenciais em videoconferências. E há muitas pessoas interessadas em saber o que os poderosos estão falando em seu ambiente mais reservado. Além de favorecer a espionagem industrial, a popularização das reuniões online pode colocar em situação vulnerável até mesmo questões de segurança nacional, motivo pelo qual algumas empresas, e até países, têm proibido o uso de algumas plataformas. No Reino Unido, por exemplo, o Ministério da Defesa vetou o uso do Zoom. No setor privado, empresas como a SpaceX também decidiram banir o serviço.

As novas configurações demográficas e sociais nesta que tem sido chamada de Quarta Revolução Industrial pode colocar a humanidade ainda mais tempo imersa no mundo cibernético, que, por sua própria constituição, abre inúmeras portas, mas coloca a privacidade cada vez mais em questão. Pode ser que o home office continue um processo iniciado pelas redes sociais, em que cada vez mais a vida acontece no ambiente virtual. Antes, era o lazer. Agora, também o trabalho. E aqueles que mais capitalizam neste cenário são aqueles que lucram minerando dados privados, em busca de padrões de consumo ou à procura de informação de interesse para o grande tabuleiro geopolítico internacional.

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