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A foto, o fato e o fake dos fatos
| Foto: Marcos Tavares/Thapcom

Para entender as “fake news”, as teorias da conspiração e os algoritmos que estão sendo utilizados para disseminar intriga, ódio, medo, influenciar eleições, negar a pandemia, fazer da cloroquina o bálsamo dos infectados e acusar os adversários genericamente de comunistas, fascistas, neonazistas, anarquistas e até de seminaristas, é preciso ler Os Engenheiros do Caos, do italiano Giuliano Da Empoli.

Ex-conselheiro de Matteo Renzi, o ex-primeiro-ministro italiano social-democrata, hoje Da Empoli vive em Paris, onde escreveu o livro, relativamente longe da direita chucra do norte da Itália. Os Engenheiros do Caos é leitura obrigatória para conhecer a propaganda adaptada à era das selfies e das redes sociais. Revela as origens de um movimento político que, tendo sido formatado nos Estados Unidos, foi batizado na Itália por Matteo Salvini, formando discípulos como Viktor Orbán, da Hungria, Jair Bolsonaro e, o mais emblemático de todos, Donald Trump.

No tempo das bancas de revistas, quando sobravam folhas de jornais para embrulhar peixe, não existiam as tão debatidas “fake news”. O que existiam eram notícias falsas. Mesmo assim, a opinião impressa em papel jornal era tão sagrada quanto a palavra do padre. Não existiam algoritmos para manipular as bolhas e os bolhas das redes sociais, mas sobravam artimanhas para engabelar o eleitorado nas páginas impressas de revistas e jornais.

Os “engenheiros do caos”, de um lado e de outro, serão os mitos das próximas eleições

Dois casos de como agiam os “engenheiros do caos” no século passado.

A fotografia de uma conhecida personalidade numa reunião social, erguendo um copo de bebida, é a receita para destruir reputações. No Paraná temos uma história exemplar, tendo como personagem o ex-governador e ex-ministro da Agricultura Bento Munhoz da Rocha Netto. Candidato à reeleição, ele foi fotografado numa reunião social, de smoking e com um copo na mão. Seria uma foto casual, como tantas nas colunas sociais. Mas esta foto de Bento Munhoz da Rocha não foi casual, não saiu no The New York Times, nem nas colunas sociais. Saiu na primeira página da Tribuna do Paraná, em 1965, como se fosse um registro político casual.

Ao contrário de Lula, cujos hábitos etílicos foram parar nas páginas do NYT, a casual foto de Bento Munhoz da Rocha virou panfleto e ganhou os quatro cantos do Paraná, pelas mãos de seus adversários políticos. Graças a uma casual foto com um copo na mão, Bento ganhou um retrato distorcido. Na foto transparecia a imagem de intelectual que de fato Bento era: com os olhos intumescidos e levemente vermelhos, próprios de quem atravessava madrugadas lendo e escrevendo. O copo na mão faria perfeitamente parte do figurino, não fosse o retrato retocado pelos adversários. Como se não bastasse tanto charme, inteligência e biografia, passou a ser um consumado boêmio. Bento não perdeu a elegância, mas perdeu a eleição para uma “fake news” engendrada pelos “engenheiros do caos” abrigados na redação de um jornal da capital.

Na eleição presidencial de 1945, dois candidatos dividiam a cena: o general Eurico Gaspar Dutra e o brigadeiro Eduardo Gomes. Falando no Teatro Municipal para uma seleta plateia de cartolas, Eduardo Gomes disse que não precisava contar com os votos “desta malta de desocupados que andam por aí”, referindo-se aos getulistas em geral. No dia seguinte, os adversários foram ao dicionário e constataram que o termo “malta” era sinônimo de “reunião de gente de baixa condição. Súcia. Caterva. Reunião de trabalhadores, que se transportam de um para outro lugar à procura de trabalhos agrícolas”. Na versão da imprensa getulista, o brigadeiro teria dito não precisar do voto de “marmiteiros”. Ou seja, dos operários e trabalhadores.

“Mar-mi-tei-ros? Mas o que é isso?” – estranhou o brigadeiro.

Ao ser informado do significado da palavra, ao ficar ciente de que a notícia estava se espalhando como uma praga entre os trabalhadores do Brasil, o mais udenista dos udenistas desdenhou: “Quem pode crer em semelhante tolice?” Carlos Lacerda arregaçou as mangas: “Brigadeiro, o senhor tem de fazer um novo discurso desmentindo essa história!” O assessor puxa-saco minimizou: “O povo não vai acreditar nisso!”

Não é preciso contar o que aconteceu com o brigadeiro, que era bonito e solteiro. O resto da história os militantes da esquerda e os blogueiros de direita sabem perfeitamente como terminou. Tanto sabem que os “engenheiros do caos”, de um lado e de outro, serão os mitos das próximas eleições.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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