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Dante Mendonça

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A Ilha do Nunca

  • PorDante Mendonça
  • 21/10/2017 17:00
Dante Mendonça
Dante Mendonça| Foto:

Numa época em que o Paraná ainda era considerado uma Terra do Nunca – quando nunca se imaginava o futuro tão promissor dos nossos campos –, em 1854 o suíço Guillaume Henri Michaud (1829-1902) desembarcou na Ilha de Superagui com tintas e pincéis para botar no papel as paisagens, a flora e a fauna das ilhas da Baía de Guaraqueçaba que, mais de 150 anos depois, grande parte dos paranaenses nunca viu. Com os olhos de aquarelista, revelou para o mundo a Ilha do Nunca, onde as mais diversas espécies de governo nunca botam os pés. Ou as patas, na opinião de muitos.

Para se ter uma ideia do que é viver naquele paraíso nunca lembrado, a não ser na desdita, em outubro de 2016 uma maré de ressaca arrasou com a orla de Superagui. A água avançou destruindo casas e paisagens, conforme reportou esta Gazeta do Povo: “O pico foi às 3 horas da madrugada. O bar foi caindo, sendo levado e a gente não pôde fazer nada. Nosso sustento sendo levado. Todos os caminhos viraram rios”, contou a moradora Bernadete Squenine.

Em abril de 1884, uma das irmãs de Michaud recebeu em Vevey, cidade natal do aquarelista, um relato desanimador: “Sabes que estamos no verão, muitas vezes faz um calor sufocante que ocasiona tempestades terríveis, na terça-feira passada tivemos um vendaval terrível, tão forte que a maioria das casas sofreu as consequências, as telhas voaram, as árvores foram arrancadas pelas raízes, todas as bananeiras quebradas e os campos de milho destruídos, inclusive os vinhedos, atualmente carregados, foram por terra, em alguns lugares as estacas foram quebradas pela violência do furacão”.

Os furacões que devastam as ilhas do Caribe nunca vieram conhecer os encantos dos mares do sul. No entanto, a fúria da natureza volta e meia deixa o ilhéu a ver navios. E na desgraceira, pelo que se sabe, nenhuma espécie de político aparece pra consolar os pobres caiçaras.

Dante Mendonça

Com os olhos no futuro, em 1992 a professora Olga Scholz Polasek chegou à Ilha de Superagui, encarregada de instalar o ensino de 5.ª a 8.ª séries, com apenas uma caixa de giz e o apagador fornecidos pela Secretaria de Educação. Quarenta e cinco alunos a esperavam, com a 4.ª série concluída e até então sem perspectiva de continuar os estudos.

Olga é brasileira de União da Vitória, com família depois radicada em Paranaguá. A mãe, Frieda, era alemã; o pai, Josef, tcheco. Um casal formado no Rio de Janeiro, no pós-Segunda Guerra. Josef, emigrado da Alemanha após ter passado por um campo de concentração, deveria ter ido a Buenos Aires, mas seu conhecimento siderúrgico o plantou no Brasil para erguer a Companhia Siderúrgica Nacional, que Getúlio Vargas negociou com os americanos em troca do apoio aos Aliados.

Quase meio século depois, a professora alta, esguia, de olhos azuis, encontrou em Superagui não apenas 45 crianças sedentas de saber, mas um destino permanente. O mesmo de Michaud, que também foi responsável pelo ensino primário da ilha, sem nunca receber – além de 200 mil réis anuais – nem mesmo giz e apagador para ensinar leitura, escrita e cálculo em sua própria casa.

Dante Mendonça

O fim de 2016 trouxe a ressaca, a morte repentina do marido e a aposentadoria de Olga, que agora se dedica exclusivamente à Pousada Superagui, um hostel azul e amarelo de cara para o mar e com cara de casa de vó. Mostrando a calma de uma professora, o DNA europeu misturado à rica paleta da cultura brasileira, Olga tornou o local, simples e genuíno, um ninho seguro e acolhedor na Ilha do Nunca.

***

Na Semana na Criança, fechando com o Dia do Professor, fui conhecer a fauna, a flora e arredores da Ilha de Superagui com os olhos de aquarelista. Os mesmos de William Michaud. Depois do café da manhã, saía para desenhar e, conforme o vento, retornava para aquarelar com sombra e água fresca na varanda da professora Olga. Afora os esboços, finalizei três aquarelas: uma delas com o trapiche em primeiro plano, tendo ao fundo o recorte da Ilha do Mel.

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