Paraíso dos gordos
| Foto: Felipe Lima

Dante Alighieri deixou escrito no portal do inferno: “Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança!”. Na entrada de um spa e clínica de emagrecimento e reeducação alimentar, devia constar a seguinte inscrição: “Ó, vós que entrais, trazei consigo todas suas esperanças a este Paraiso dos Gordos ”.

É um paradoxo. No entanto, sete dias de confinamento podem ser um paraíso para os gordos, com certas recompensas e dividendos futuros – e um inferno para os pecadores da gula. É o caso do Spa Estância do Lago, em Almirante Tamandaré, um sonho feito realidade há mais de 35 anos pelo médico Ismael Lago. Na vizinhança de Curitiba, numa bucólica paisagem junto ao lago, passei sete dias com assistência médica medindo minhas saliências adquiridas com a idade e, principalmente, com prazerosas libações à mesa.

Para os praticantes de esportes brancos – ou seja, fronha e lençol –, a rotina assusta, mas não desencoraja: na alvorada, caminhada de uma hora antes do café da manhã; musculação; alongamento; hidroginástica; sauna seca e úmida; meditação guiada ou ioga; nos intervalos, palestras sobre obesidade, vida saudável e muitas massagens, que ninguém é de titânio.

Na companhia do doutor Ismael Lago e seus assistentes, os sonhos não são proibidos. Proibidos são os sonhos da padaria mais próxima

À mesa com os amigos, Jaime Lerner costuma dizer que não devemos viver como doentes para morrer saudáveis. É o que se pode também dizer aos gordos de boa vontade em busca de um meio para entrar nas calças, num retiro onde ninguém seja tratado com o fogo dos infernos.

Confesso que nestes sete dias no spa do doutor Ismael Lago cometi o pecado da gula ao levar para ler a recém-lançada obra da pesquisadora e historiadora Maria do Carmo Brandão Rolim, Bares e Restaurantes de Curitiba ( Década de 1950 e 1960).

Nessas circunstâncias, os pecados da gula sempre acontecem. No Spa da Lapinha, certa feita um amigo jornalista, em suas longas caminhadas, passava num armazém do interior da Lapa para tomar uma cerveja e se forrar com a linguiça da casa. Outra gulosa, a professora e historiadora fugia do mesmo spa com uma amiga para se afundar com as coxinhas de farofa da Lapa. Depois disso, as duas sentavam na beira da estrada para chorar os pecados. Conta a nutricionista da Estância do Lago, Thais Brito, que já flagrou um hóspede saindo da padaria de Almirante Tamandaré com um pacote de pães e, em alguns casos de dependência alcoólica, as arrumadeiras até encontram garrafas vazias escondidas alhures.

Durante uma reeducação alimentar, o livro sobre os bares e restaurantes da historiadora Maria do Carmo provoca alguns pesadelos. Principalmente depois de um “lauto” jantar com algumas folhinhas de alface e um bifinho de frango grelhado. Nos meus delírios, voltei ao ano de 1937 para provar o risoto da dona Júlia, mãe de Poty Lazzarotto, no Vagão do Armistício. No Restaurante Rio Branco, na Rua Barão do Rio Branco, sentei numa mesa com o escritor e cineasta Valêncio Xavier para comer um improvável vatapá em Curitiba, “um dos melhores da minha vida”, segundo Valêncio.

Paca, tatu, cotia não, tive pesadelos com o cardápio do Restaurante Cinelândia: rabo de jacaré, porquinho da índia, jacutinga, tamanduá, perdiz, pombo recheado, sopa de cascudo, ovas de peixe, surubi, rã à milanesa, testículos de touro e carne de onça. No Bar Paraná, considerado o grande restaurante da década de 1950, sonhei com a sopa húngara da dona Carolina Singer. “Nunca provei outra parecida, absolutamente lendária”, no depoimento do escritor Jamil Snege: caldo de carne com páprica, quadradinho de carne, batata, temperos e o chope preto característico.

Às vésperas do Natal e do ano-novo, imaginei as festas com dois pratos do restaurante Iguaçu: no Natal, o peru à Califórnia (fatiado, com farofa e guarnecido com compotas de frutas); e, para o réveillon, o camarão à Martha Rocha, que merece atenção à parte: quando Martha Rocha, Miss Brasil 1954, veio a Curitiba, ela foi homenageada no Country Club com um prato à base de camarão. O cozinheiro, depois, veio a trabalhar no Restaurante Iguaçu e o prato também ficou para a história.

Na companhia do doutor Ismael Lago e seus assistentes, os sonhos não são proibidos. Proibidos são os sonhos da padaria mais próxima. Ao fim e ao cabo de sete dias e sete noites numa dieta de 800-900 calorias ao dia, tenho a desejar a todos um harmonioso Natal e que o ano novo nos seja leve. O meu assim será: perdi alguns quilos no Paraíso dos Gordos.

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