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O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu uma entrevista ao Metrópoles tentando justificar por que quer incluir Romeu Zema no inquérito das fake news. E soltou uma pérola que resume tudo sobre a hipocrisia do ministro. Disse que fazer boneco do Zema “como homossexual” seria tão ofensivo quanto representá-lo roubando dinheiro público. Leu direito? Gilmar equiparou orientação sexual a crime.
Esse é o mesmo Gilmar que votou, em 2019, pela criminalização da homofobia, que enquadrou homofobia como crime de racismo e que faz, como a maioria de seus colegas, discursos pautados pelo progressismo woke que contaminou o Supremo. Ele mesmo estabeleceu, em seus votos, que tratar a homossexualidade como algo negativo fora do contexto religioso é crime. E agora usou exatamente essa lógica para atacar um adversário político.
A fala completa foi esta: “Imagine que comecemos a fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo? Ou, se fizermos ele roubando dinheiro no Estado, será que não é ofensivo?”
Pense no que isso significa. Na cabeça de Gilmar, em pleno ano de 2026, chamar alguém de homossexual equivale a acusar de crime. É uma ofensa grave que, se a situação fosse invertida, certamente faria Gilmar protocolar uma notícia-crime contra Zema no Ministério Público Federal (MPF), que, em pouco tempo, denunciaria Zema pelo crime de racismo, tipo penal que criminaliza a homofobia por decisão do próprio Supremo.
E Gilmar, para piorar, sequer pode se defender dizendo que sua fala se insere em contexto religioso, onde há liberdade de crença para criticar comportamentos humanos, como a homossexualidade. Gilmar estava falando de debate público, de críticas e de sátira política. Estava no contexto laico, de avaliação de uma pessoa como agente governamental, gestor público. E tratou a homossexualidade como xingamento.
Quando Gilmar está no plenário, de toga, câmera ligada, ele performa outro personagem: o iluminista, o cosmopolita, o progressista defensor das minorias. Mas, quando fica irritado, quando se sente acuado (e ele acabou de virar alvo de relatório de CPI pedindo seu indiciamento), aí escapa o que realmente pensa — e não é nada compatível com seu discurso.
Horas depois, veio o pedido de desculpas nas redes sociais. “Errei quando citei a homossexualidade ao me referir ao que seria uma acusação injuriosa.” A desculpa de Gilmar, em vez de melhorar, apenas piora a situação do ministro. Gilmar admite que usou a homossexualidade como acusação injuriosa, exatamente o que ele criminalizou, em 2019, como crime inafiançável e imprescritível. A desculpa não conserta nada. Carimba a hipocrisia.
Os usuários do X (ex-Twitter), onde Gilmar publicou seu mal ajambrado pedido de desculpas, não perdoaram o ministro e lhe presentearam com uma nota da comunidade: “Segundo o STF (ADO 26 e MI 4.733, 13/06/2019), homofobia e transfobia são equiparadas ao crime de racismo (Lei 7.716/89), sendo inafiançáveis e imprescritíveis (CF/88, art. 5º, XLII). Não cabe retratação para extinguir a punibilidade nesses casos.”
Zema também não deixou barato: “Inacreditável. Gilmar Mendes equipara a nossa sátira dos intocáveis com uma possível sátira do STF me representando como homossexual e ladrão. Esse sujeito extrapola cada vez mais os limites. Se comporta como um intocável. Acima de tudo e de todos. Que vergonha.”
Desde que começou esse embate com Gilmar, Zema ganhou mais de cem mil seguidores nas redes sociais. Gilmar quis destruir Zema com inquérito, representação, acusação. Está conseguindo o contrário. Cada ataque vira propaganda gratuita. É o efeito Streisand na política: quanto mais tenta calar, mais amplifica. Gilmar entrou nessa briga para intimidar um pré-candidato à Presidência. Está saindo menor do que entrou.
A lição é simples. Quem tenta destruir a verdade não destrói quem fala, mas se destrói.








