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Justiça, política e fé

Sentiu

Gilmar surta com seu indiciamento e governo articula sabotagem em CPI

Gilmar Mendes sentiu " e muito! " o indiciamento no relatório da CPI. (Foto: Imagem produzida por Gemini IA/Gazeta do Povo)

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O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), surtou publicamente após ser indiciado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado por crimes de responsabilidade ligados ao caso do Banco Master. Chamou o relator da CPI, senador Alessandro Vieira, de “miliciano” e usou a tribuna do STF para atacar e intimidar o parlamentar que acabou de indiciá-lo. O desespero público e a articulação secreta revelam o mesmo objetivo: sabotar a investigação que aperta o cerco sobre ministros do Supremo.

Primeiro, o surto. À Folha de S.Paulo, Gilmar chamou Alessandro Vieira de miliciano: “Causa espécie que o relator tenha se esquecido de indiciar seus colegas de milícia.” Vieira é ex-delegado da Polícia Civil de Sergipe, mas não há qualquer evidência que o ligue a milícias — a acusação foi gratuita. E não ficou por aí: do plenário do Supremo, o ministro continuou atacando o senador durante os julgamentos, usando a tribuna para atacar o parlamentar que havia acabado de indiciá-lo.

Gilmar foi além: “Adoro ser desafiado. Me divirto com isso. Assombração, como dizemos no interior, aparece para quem acredita. São fantasmas que não amedrontam, são fantoches”, debochou à Folha. Isso é postura de ministro da Suprema Corte? Usar toga e plenário do STF como palanque para intimidar parlamentar? O comportamento de Gilmar é exatamente o que o relatório de Vieira documentou: uso da posição institucional para intimidar, falar fora dos autos e fazer política.

Gilmar também publicou no X um textão cheio de ameaças: “O pedido do relator da CPI, voltado ao indiciamento de ministros do STF sem base legal, nos leva a uma reflexão sobre o papel e os poderes das CPIs. Tanto pior quando o pedido flerta com arbitrariedades, como a criminalização de decisões que concedem habeas corpus.”

Gilmar está dizendo, horas depois de ser indiciado, que o relatório é ilegal e arbitrário. Está pré-julgando a matéria. Está fazendo atividade político-partidária, exatamente o que a Constituição veda a ministros do STF. O indiciado está usando o cargo para deslegitimar a própria investigação. E ainda chamou o relatório de “cortina de fumaça” que “engrossa a espuma midiática contra o STF na expectativa de produzir dividendos eleitorais”. Ministro do Supremo falando em disputa eleitoral — se isso não é atividade político-partidária, o que seria?

O comportamento de Gilmar é exatamente o que o relatório de Vieira documentou: uso da posição institucional para intimidar, falar fora dos autos e fazer política

Mas, enquanto Gilmar gritava para as câmeras e criava — ele sim — uma cortina de fumaça para atrair a atenção da imprensa, o governo Lula articulou com o STF, nos bastidores, a troca de dois membros da CPI logo antes da votação do relatório, substituindo senadores da oposição por petistas: saíram os senadores Sergio Moro e Marcos do Val, da oposição, e entraram Teresa Leitão e Beto Faro, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT). Além disso, Jorge Kajuru (PSB-GO) foi substituído por Soraya Thronicke (PSB-MS).

Os substitutos — finja surpresa — votaram contra o relatório, junto com Humberto Costa (PT-CE), Rogério Carvalho (PT-SE) e Otto Alencar (PSD-BA). O relator estimava que o placar seria apertado a favor do relatório antes das substituições. Com a troca de dois votos, o placar virou para seis votos a quatro contra o relatório. A favor, além do relator, votaram Eduardo Girão (Novo-CE), Magno Malta (PL-ES) e Esperidião Amin (PP-SC). Fabiano Contarato (PT-ES), presidente da CPI, não votou.

As substituições foram uma obstrução da investigação parlamentar. Isso é atividade político-partidária de ministros que estão sendo investigados. Trata-se, ironicamente, de mais um crime de responsabilidade — um novo item que poderia entrar no relatório que eles tentam derrubar. Prova, mais uma vez, que os ministros não são julgadores técnicos e imparciais, mas atores políticos que atuam como guerreiros na arena pública em defesa de seus interesses.

A reação de Gilmar prova tudo: ministro inocente não surta nas redes sociais. Não chama relator de miliciano. Não usa a tribuna do Supremo para intimidar o Congresso. Não publica manifestos políticos no X. Ministro inocente confia nas instituições e aguarda o devido processo legal. Gilmar fez o oposto. E a articulação para trocar membros da CPI confirma: há desespero — um desespero que revela culpa.

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