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Em uma semana, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), desfez toda a maracutaia armada por Dias Toffoli no caso Master. Mendonça derrubou todas as decisões de Toffoli que amarravam a Polícia Federal (PF) e a CPMI do INSS, a qual também havia se debruçado sobre o Master. Moraes e Toffoli, que até poucos dias atrás comandavam o alcance e o fluxo das investigações, perderam o sono com o seu pior pesadelo se concretizando.
A primeira decisão tomada por Mendonça foi a de rever a decisão de Toffoli sobre o material apreendido: autorizou que “as extrações, indexações e análises sigam o fluxo ordinário de trabalho pericial da instituição, com distribuição regular das demandas entre peritos habilitados, conforme critérios técnicos e administrativos”. E determinou que, concluídos os procedimentos periciais, os bens apreendidos fiquem sob custódia integral da PF, como ordinariamente ocorre nessa fase de investigações.
Acabou a blindagem de Toffoli. Acabaram os peritos escolhidos a dedo. Acabou o material escondido no gabinete do ministro. Acabou a lista de perguntas preparadas para a delegada. Acabou a acareação “contra” o diretor do Banco Central (BC). Acabou a inversão entre o investigado Master e o investigador Banco Central. A PF agora trabalha livremente, com seus próprios peritos, segundo seus próprios critérios técnicos — como sempre deveria ter sido.
A segunda decisão foi ainda mais devastadora para Moraes e Toffoli. Mendonça mandou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, devolver imediatamente os dados sigilosos de Daniel Vorcaro à CPMI do INSS, obtidos a partir de quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático. O Congresso deve entregar os documentos à PF, que fará o compartilhamento com a CPMI. O órgão, que é político, garantirá que nada fique escondido nas sombras.
Acabou a blindagem de Toffoli. Acabaram os peritos escolhidos a dedo. Acabou o material escondido no gabinete do ministro. Acabou a lista de perguntas preparadas para a delegada
A quebra dos sigilos foi aprovada pela própria CPMI em dezembro. Mas as informações estavam sob custódia da Presidência do Senado por decisão de Toffoli, que era o relator. Presidência significa dizer Alcolumbre, ele mesmo ligado de modo próximo a investigados do caso Master. Agora, de posse desses dados, a CPMI pode fazer análise independente do conteúdo do celular de Vorcaro e revelar tudo para a nação.
Com a atuação da CPMI, a temperatura do escândalo vai subir a ponto de tornar impossível a operação-abafa. Autoridades que hoje se mantêm em silêncio não terão mais como evitar um posicionamento. A hora que for aberta a caixa-preta da Maridt — que se suspeita esconda segredos tenebrosos de Toffoli —, a nação vai ser sacudida. Estamos a uma pequena distância do maior escândalo do Judiciário e do primeiro impeachment no STF.
Com a PF desimpedida e a CPMI destravada, nada mais impede que surjam todas as provas das relações de Moraes e Toffoli com Vorcaro — ou das surubas e orgias que Vorcaro organizava com a classe política como ferramenta de corrupção, e que a PF já confirmou que existem. Mendonça soltou o monstro chamado PF da jaula onde Toffoli o mantinha preso.
A retidão de Mendonça ressalta a torpeza das decisões que Toffoli havia dado. Não bastasse isso, jornalistas da CNN revelaram um fato curioso e especial: assim que soube ter sido sorteado relator do caso Master, o ministro se recolheu em seu gabinete em oração. É esse o perfil do magistrado que agora conduz a investigação mais importante da história recente do STF: humilde, temente a Deus, técnico, sério, sem blindagens, sem protecionismos.
Moraes rastreou, via Receita Federal, o acesso a dados de ministros e parentes, cerca de cem pessoas — sem consultar os ministros. Desconfia-se de que usará isso como moeda de chantagem. Contudo, não parece que Mendonça tenha nada a esconder. Recentemente, declarou que destina 10% dos resultados de seu instituto como dízimo e que doa para obras sociais os restantes 90%.
Em uma semana, André Mendonça virou o pesadelo de Moraes e Toffoli, que agora terão de dormir à base de Rivotril. E devolveu ao Brasil tanto a expectativa de que a Justiça pode, finalmente, funcionar, como o bom exemplo que devem dar ministros da mais alta Corte do país.




