Na noite da última terça-feira (24), o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, atacou os sistemas eleitorais do Brasil, dos Estados Unidos e da Colômbia. Maduro disse que esses países “não auditam nenhuma ata”, e que a Venezuela teria o “melhor sistema eleitoral do mundo”, o que com certeza arrepiou os fios de cabelo inexistentes do ministro Alexandre de Moraes. Os ataques vieram após Maduro ter dito, recentemente, que a Venezuela vai sofrer uma “guerra civil fratricida” e um “banho de sangue” caso ele não vença as eleições presidenciais agendadas para 28 de julho.
Imediatamente, a imprensa brasileira rotulou Maduro de “bolsonarista”. A Folha de S. Paulo afirmou que “Maduro lembra Bolsonaro, que usou urnas para escalada golpista e acabou inelegível”, enquanto o UOL disse que “é inadmissível tolerar fala bolsonarista de Maduro sobre eleição”. O jornal O Globo afirmou que Maduro adotou o “discurso da extrema direita” ao criticar o sistema eleitoral do Brasil.
Como associar o discurso crítico de Maduro ao sistema eleitoral brasileiro a Bolsonaro e não ao autoritarismo do próprio Maduro, que se mantém no poder de forma ditatorial há anos na Venezuela?
É sério isso? Essas manchetes são inacreditáveis e revelam a lavagem cerebral ideológica que impera nas redações brasileiras, onde a checagem, a isenção e a imparcialidade foram esquecidas. Essas manchetes são um insulto à inteligência dos leitores, como se os jornalistas estivessem nos chamando de burros, confiantes de que não temos capacidade de entender o que estão dizendo.
Nicolás Maduro é amplamente considerado um político de esquerda, seguidor das políticas de Hugo Chávez, conhecidas como “chavismo”. Ele lidera o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), de orientação socialista, populista e anti-imperialista. O chavismo promovido por Maduro na Venezuela é baseado no controle estatal da economia, programas sociais para os pobres e uma retórica inflamada contra o imperialismo, especialmente contra os Estados Unidos. Maduro não poderia estar mais distante de Bolsonaro.
Maduro é também um aliado histórico de Lula, numa relação baseada na orientação política de esquerda de ambos e na busca pela integração regional da América Latina. Lula sempre defendeu os governos Chávez e Maduro. Durante os primeiros governos de Lula, Brasil e Venezuela firmaram vários acordos e colaborações. Já no governo Bolsonaro, as relações entre Brasil e Venezuela se deterioraram, pois Bolsonaro se opôs ao regime autoritário de Maduro.
No começo de 2019, Bolsonaro chegou a reconhecer Juan Guaidó, então presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, como presidente interino da Venezuela. Bolsonaro rompeu relações com o governo de Maduro. As relações diplomáticas só foram retomadas em 2023, após a eleição de Lula para um terceiro mandato. Em 2023, Maduro visitou o Brasil pela primeira vez em anos, sendo recebido por Lula em Brasília com um tapete vermelho desenrolado especialmente para o ditador favorito de Lula.
Como é possível, então, que a imprensa brasileira associe Maduro a Bolsonaro, um de seus maiores opositores? Como associar o discurso crítico de Maduro ao sistema eleitoral brasileiro a Bolsonaro e não ao autoritarismo do próprio Maduro, que se mantém no poder de forma ditatorial há anos na Venezuela? E pior: como essa atitude pode ser vinculada à extrema direita e não à extrema esquerda, à qual Maduro pertence?
A campanha eleitoral na Venezuela tem sido marcada por um clima de medo, causado por um governo ditatorial que centralizou o poder, desmantelou o Estado Democrático de Direito e violou sistematicamente os direitos humanos. Um relatório da ONU, publicado em 2022, mostrou que autoridades venezuelanas, sob ordens de Maduro, cometem graves crimes e violações de direitos humanos para reprimir a dissidência e a oposição, incluindo homicídios, desaparecimentos forçados, tortura e violência sexual.
Em outubro de 2023, o governo de Maduro e a oposição venezuelana firmaram o Acordo de Barbados, um conjunto de compromissos que busca garantir eleições justas, transparentes e confiáveis na Venezuela. A principal concorrente de Maduro, María Corina Machado, foi criminalizada e impedida de concorrer, apesar de sua popularidade. A oposição teve que indicar outro candidato, Edmundo González, mas a situação é cada vez mais difícil: advogados e assessores da campanha oposicionista foram presos e atentados contra a vida dos opositores são comuns.
Vamos aguardar os resultados das eleições na Venezuela nesta semana, mas uma coisa é certa: na Austrália, Maduro já é considerado um bolsonarista de carteirinha e representante da extrema direita.
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