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Presidente Jair Bolsonaro foi diagnosticado com Covid-19 nesta terça-feira (7).
Presidente Jair Bolsonaro| Foto: Sérgio Lima/AFP

O presidente Jair Bolsonaro viveu seu momento de isolamento social durante o encontro do G20, o grupo dos países mais ricos do mundo, realizado em Roma, na Itália, nos últimos dois dias. Sua agenda oficial não contemplou nenhuma reunião bilateral com governantes de outras nações. Na antessala da reunião, foi na maior parte do tempo ignorado pelos outros líderes e manteve-se à parte, acompanhado apenas por seus seguranças e ministros, assistindo à distância enquanto os premiês e presidentes conversavam em rodinhas animadas. Bolsonaro não age como estadista, não é visto como estadista por seus pares e até verbalizou naquele exato lugar e momento que não tem vocação para ser estadista.

"Não é fácil ser chefe de Estado em qualquer lugar do mundo, não é fácil", disse Bolsonaro ao ditador turco Recep Erdogan, o único governante com quem teve a chance de conversar por mais de 2 minutos antes do início do encontro de líderes.

Bolsonaro já expressou outras vezes seu incômodo com a cadeira presidencial. "Tem muita gente melhor do que eu por aí, não faço questão de ser presidente", disse ele em agosto. Em janeiro, ele soltou essa: "Não vou dizer que sou um excelente presidente." Em abril de 2019, ainda no começo do seu governo, ele expunha o desconforto: "Desculpem as caneladas, não nasci para ser presidente."

O dicionário Houaiss define um estadista como uma "pessoa versada nos princípios ou na arte de governar" ou "pessoa que exerce liderança política com sabedoria e sem limitações partidárias".

Bolsonaro não se enquadra em nenhuma das duas definições, como ele mesmo já admitiu em diferentes ocasiões. Aparentar deslocamento em um evento com líderes de outros países apenas confirma que sua falta de vocação para o cargo não se limita à dificuldade de enfrentar os problemas do Brasil, mas também à inabilidade para discutir e buscar soluções para temas globais.

O fato de não ser um estadista, porém, não significa que uma pessoa não possa ser presidente de um país. É inegável que Bolsonaro exerce carisma para uma parcela significativa da população e carrega a legitimidade do voto popular, que o escolheu para um mandato de quatro anos.

Para ser um bom presidente, Bolsonaro não precisaria "ser versado nos princípios e na arte de governar". Bastaria ter cumprido sua promessa de campanha, em 2018, de que escolheria ministros por critérios técnicos e daria a eles autonomia para trabalhar.

Não foi o que aconteceu. Na Economia, o projeto liberal naufragou. Com exceção da reforma da previdência, que começou no governo Temer, nenhuma das grandes reformas foi feita. Até o teto de gastos está sendo furado.

Na Justiça e Segurança, o ex-juiz Sergio Moro não recebeu o apoio presidencial para aprovar seu pacote anticorrupção. Na Saúde, Bolsonaro ignorou as orientações de ministros técnicos e permitiu que suas gestões fossem sabotadas pelos conselhos de pessoas sem cargos oficiais no governo. Teria sido melhor ter colocado o deputado Osmar Terra no ministério de uma vez, pelo menos assim as coisas ficariam mais claras.

No Meio Ambiente, abandonou-se completamente a necessidade de combinar verdadeira sustentabilidade com habilidade para vender o peixe lá fora. Não basta preservar o meio ambiente (o que também não foi feito), é preciso diplomacia.

Nas Relações Exteriores, uma das maiores qualidades da diplomacia brasileira — que era a continuidade de uma política de Estado, e não de governo, que vinha desde o período da ditadura militar — foi arremessada no lixo, dando lugar ao ranço ideológico.

Como resultado, foi desperdiçada — ou indefinidamente adiada — uma das maiores vitórias da diplomacia em décadas: o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia (UE). Quando o acordo foi anunciado, no primeiro semestre de 2019, fui um dos que aplaudiram o governo Bolsonaro por essa conquista, ainda que tenha sido colhida após os esforços feitos no governo anterior, de Michel Temer.

Desde então, porém, as picuinhas da gestão de Ernesto Araújo no Itamaraty e as implicâncias antiambientalistas de Ricardo Salles no MMA (Ministério do Meio Ambiente) deram aos adversários do acordo em países europeus as desculpas perfeitas para emperrar sua assinatura.

O acordo UE-Mercosul teria potencial para aumentar o PIB brasileiro em 87,5 bilhões de dólares em 15 anos, segundo estimativa do próprio governo Bolsonaro.

A Conferência para Mudanças Climáticas (COP-26), que começa esta semana em Glasgow, na Escócia, sem a presença de Bolsonaro, é uma oportunidade para o Brasil mostrar que deixou para trás as picuinhas e está disposto a trabalhar em conjunto com outros países em uma causa comum. Quem sabe isso pode ajudar a destravar ainda em 2022 a concretização do acordo com a UE que tantos investimentos e benefícios comerciais poderiam trazer ao Brasil.

Seria uma ótima conquista para Bolsonaro exibir em sua campanha de reeleição. A conquista não de um estadista, mas de alguém que delega uma tarefa importante a quem entende do assunto.

Talvez seja esperar demais.

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