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A afirmação presente no título dessa reflexão pode causar estranheza e espanto a todos que tenham um mínimo conhecimento de matemática básica. Ainda mais ao considerarmos que eu, um engenheiro e ex-professor de Cálculo Diferencial e Integral pretendo provar que, em muitas situações, ela é incontestável.

Ouvi recentemente de um executivo do Whatsapp, lá no Vale do Silício na Califórnia que, das oito pessoas do seu time de trabalho que estão diretamente ligadas aos seus projetos, criando soluções incríveis para diversas demandas, ele não sabe a formação de nenhuma delas e não se preocupou com isso no momento de contratá-las. Preocupou-se, sim, com a capacidade de trabalho em equipe, comunicação e poder de entrega.

De um profissional do alto escalão do Google, num dos maiores ecossistemas de inovação e tecnologia do mundo chamado Googleplex, ouvi que prefere contratar colaboradores que já faliram empresas pois, a chance de cometerem os mesmos erros novamente é quase nula e, as experiências trilhadas até que os erros ocorressem serviram, dentre outros itens, para amadurecimento e aprendizado.

De uma aluna da Universidade de Berkeley, na costa oeste americana, instituição que reúne diversos prêmios Nobel, Oscar, Pulitzer, Fields, Turing, Wolf, entre outros, ouvi que ela precisa estudar, diariamente, no mínimo 8h do conteúdo antes de uma aula de 4h, para que as explicações e interação dos professores façam sentido e sejam satisfatoriamente compreendidas. Ou seja, a preparação antes da aula é cultura. É algo natural percebido pelos alunos para que se obtenha aprendizado e melhor desempenho.

De um investidor em startups ouvi que o que vale não são as boas ideias. Mas sim, o propósito por trás dessa ideia, a capacidade de execução e a agilidade para a entrega do chamado produto mínimo viável para que as pessoas testem, julguem, opinem e compartilhem ideias para que o tal MVP evolua, ganhe escala e impacte o mundo.

Do CEO de um ecossistema que abriga empresas de robótica, drones, inteligência artificial, programação, realidade virtual e automação que, em no máximo 15 anos, começaremos a conviver com uma fatia da população chamada de pessoas irrelevantes. Tal afirmação também foi feita pelo incrível pensador contemporâneo Yuval Harari em evento no Brasil em novembro passado. Os irrelevantes serão todos aqueles que não possuem nenhuma habilidade, competência ou atitude que supere aquela que um robô não possa fazer melhor, em menos tempo e com baixo custo.

E, se tivéssemos invertido os fatores?

Se o executivo do Whatsapp solicitasse os currículos e degrees dos seus colaboradores antes de contratá-los, será que o time de trabalho seria o mesmo e os resultados seriam incríveis?

Se o profissional do Google contratasse apenas quem nunca falhou, será que estaria agora colhendo os extraordinários resultados dessa gigante da tecnologia?

Se a aluna de Berkeley realizasse apenas tarefas de casa, após as aulas, no estilo “copiar o modelo” e “reproduzir em casa”, estaria a Berkeley University se destacando como uma das melhores universidades públicas do mundo?

Se o investidor em startups estivesse preocupado com o resultado financeiro antes do propósito, estaria ele acelerando pessoas a mudarem o mundo, desconstruindo modelos de negócios e impactando a forma de criação de novos produtos e serviços?

Se o CEO não estivesse preocupado em preparar pessoas para serem relevantes, estaria ele ocupado em abrigar empresas para o desenvolvimento de novas tecnologias que sirvam como meio, e não o fim, para que as pessoas vivam melhor, interajam, se conectem, colaborem e sejam efetivamente relevantes? Inclusive esse pensamento é totalmente aderente a um texto que li recentemente publicado pela Harvard Business Review que, de forma bastante direta, alerta para o seguinte: “...em um mundo cada vez mais tecnológico, precisaremos cada vez mais de pessoas que entendam de pessoas”.

Não tenho dúvidas de que o produto seria outro se mantivéssemos os fatores sempre em seus mesmos lugares. Certamente o resultado seria bem parecido com o “mais do mesmo” ao qual estamos acostumados, do que com algo realmente surpreendente.

Falando nisso, alguém se surpreendeu com os resultados do Brasil no PISA* 2018, cujos resultados foram divulgados no dia 03 de dezembro de 2019? Nosso país ficou em 58ª colocação dentre os 78 países avaliados. E, dos diversos itens pontuados nas tabelas e rankings, dois deles me chamaram a atenção:

1º. Dois terços dos brasileiros de 15 anos sabem menos que o básico de Matemática;

2º. Em leitura, os dados do Brasil apresentam estagnação nos últimos dez anos.

Será que esses resultados já não seriam suficientes para pensarmos em mudar a ordem de alguns fatores da nossa obsolescência educacional? Investir bem mais em infraestrutura e formação docente ao invés de outdoors e mobiliários urbanos com fotos e frases de impacto que, na verdade, não impactam absolutamente nada no que se refere a aprendizagem de novos conteúdos, suas aplicações e transferências para situações da vida real? Estruturar espaços educacionais que promovam a inovação e o empreendedorismo como ingredientes de fidelização de alunos, ao invés da criação de departamentos de retenção de discentes que não estão retendo um mínimo de conteúdo? Dar mais atenção para currículos que contemplem a aprendizagem baseada em projetos, em colaboração e resolução de problemas, que desenvolvam a criatividade, a liderança e a empatia, ao invés das fileiras de alunos em salas, das grades horárias, grades curriculares e “mapas de turma” que encarceram o pensamento crítico, a comunicação e a argumentação? Conheço muitos espaços educacionais onde impera a crença de que turma silenciosa é sinônimo de turma boa.

Estou certo de que já passou da hora de alterarmos a ordem de inúmeros fatores do nosso sistema educacional para que o produto seja diferente. As práticas educacionais antiquadas e a mentalidade fixa da velha gestão educacional, já não cabem mais em nosso país. Os números, classificações e resultados denunciam tudo isso de forma clara e contundente.

E você, caro leitor, quais fatores da sua vida, do seu trabalho e do seu dia a dia têm sido alterados para que o produto seja algo diferente e transformador? Pense nisso e ouse dar chances para mudanças. O resultado dessa operação poderá ser extraordinário!

*O Pisa é uma avaliação mundial realizada em diversos países, com provas de leitura, matemática e ciência, além de educação financeira e um questionário designado para estudantes, professores, diretores e familiares dos alunos;

** Texto Escrito por José Motta Filho. O Professor José Motta Filho é engenheiro, gestor educacional, especialista em Principles of Technology, Mestre em Tecnologias Emergentes em Educação e Consultor em Metodologias Ativas de Ensino, Inovação Educacional e Tecnologias Educacionais. Atualmente é Consultor Especialista em Metodologias Ativas de Ensino. Palestrante, pesquisador e entusiasta em Tecnologias Educacionais. Head of EdTech na Beenoculus (www.beenoculus.com.br), startups que promove e utiliza Realidade Virtual, Inteligência Artificial, Big Data, Gamification e Adaptative Learning na Educação. Community Connector at Singularity University (Curitiba Chapter) https://global.su.org/chapters/curitiba. Diretor Educacional da SiliconValley.com.br, Startup que promove imersões educacionais ao Vale do Silício (USA), Israel e China.

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