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Ilustração/Gazeta do Povo
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Esta semana participei da Semana de Comunicação do curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Pediram-me uma oficina de texto – em duas horas aula, o que me deu pontadas no fígado. Valeu o exercício de rapidez e síntese, quase tão difícil quanto falar seis minutos no Pecha Kucha.

Um aspecto impressionou. Terminada a oficina, uma aluna me perguntou se eu sabia que todas as vagas para o encontro tinham sido esgotadas em quatro horas. Sim, eu sabia. Disse a ela que os ingressos para um show de rock e para uma partida de futebol decisiva acabam em muito menos tempo. Rimos. Mas entendi o que ela queria saber – em meio a tanta parafernália eletrônica, tanta imagem no YouTube, as pessoas ainda se interessam por texto?

A resposta é sim – e isso vale não apenas para um curso de Jornalismo, no qual a necessidade de escrever bem é um imperativo. Tenho um conhecido – artista plástico de primeira linha, poeta e intelectual – que vive, e bem, de ensinar mestrandos e doutorandos a escrever. Ele me conta que não se trata apenas de um interesse imediato, para dar conta de uma dissertação ou de uma tese, mas de um desejo de se virar melhor com as palavras. As pessoas o procuram em busca de um tesouro.

Os alunos desse professor particular são um sinal, assim também como são um sinal a leva de populares ocupados em escrever livros. Sim, só na minha agenda são mais do que uma dezena. São carpinteiros, eletricistas, auxiliares, donas de casa que planejam não só publicar, como – à revelia das evidências – viver do que escrevem. Chega a emocionar o interesse desses órfãos da escola pela palavra.

É difícil explicar o que se dá, mas não custa arriscar. O mundo do escritor fascina – e não há avanço tecnológico que lhe roube esse posto. As palavras, afinal, são mágicas. Podem mudar tudo, assim como no Poema da Criação. A reboque, aquele que brinca com as palavras tem aura. Quem escreve tem um quê de iluminado, ainda que seja na verdade um atormentado de cotovelos lanhados.

Some-se à conversa a dificuldade da escola em lidar com a escrita. Os bancos escolares geram uma demanda reprimida de escritores em potencial. Achamos que é talento. Um dom dado a poucos. Rápidos, elegemos os que escrevem bem, e os que escrevem mal. Não raro, escrever bem é escrever romanceado, como se o século 19 ainda não tivesse acabado. Muita gente boa fica à margem do caminho.

Nada de derrotismos, é claro. Há projetos incríveis de escrita nas escolas. Gostaria de citar dois que conheci de perto, como o da professora Sônia Domingues, na Escola Municipal Paulo Freire, no Sítio Cercado; e o da professora Sandra Regina Tissot, na Escola Municipal Papa João XXIII, no Portão. Tenho certeza de que são tantos e tantos, a nos dar alento, assim como fica a certeza de que há muito a avançar nesse quesito.

E se me permitem algum pessimismo, em certo sentido, escrever, hoje, é mais difícil do que ontem. Que me perdoem os profetas que dizem que nunca, como agora, escreveu-se tanto. É uma meia verdade. De fato, a internet permite ler, escrever e publicar num estalar de dedos. É um grande passo. Mas penso que perdemos terreno no tempo necessário à boa escrita. Passa pela técnica, claro, mas sobretudo escrever é uma busca da própria voz, expectativa raramente satisfeita em meio à velocidade dos nossos dias.

Falei disso com os oficineiros relâmpago desta semana. Repeti o mantra: escrever é jogar fora. É deixar de molho. É enfrentar fantasmas. Tudo isso soa estranha aos nossos tempos hedonistas, tarados por resultado. Mas não se pode prometer um mar de rosas a quem quer escrever. Por mais que a gente fuja, ainda vale a máxima do pensador britânico Samuel Johnson: “O que é escrito sem sofrimento, é lido sem prazer”. Quem se habilita?

>> José Carlos Fernandes é jornalista, doutor em Literatura Brasileira, professor no curso de Jornalismo da UFPR e de pós-graduação na Universidade Positivo.

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