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Entrevista

Alfredo Gaspar: “CPMI do INSS descobriu uma rede que envolve PCC e Hezbollah”

(Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

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As recentes sanções impostas pelos Estados Unidos a pessoas e empresas apontadas por envolvimento em esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao PCC recolocaram em evidência as conclusões da CPMI do INSS. Relator da comissão, o deputado Alfredo Gaspar (União-AL) afirma que o relatório produzido pelo colegiado já apontava conexões entre as fraudes contra aposentados, empresas de fachada, operadores financeiros e organizações criminosas. Nesta entrevista, ele sustenta que as investigações foram interrompidas antes de alcançar toda a dimensão do esquema, critica a condução das apurações, defende uma CPI do Banco Master e comenta o ressarcimento dos aposentados.

Entrelinhas: As sanções impostas pelos Estados Unidos reacenderam o debate sobre a CPMI do INSS. O que elas revelam sobre as conclusões da comissão?

Gaspar: Na CPMI, nós atiramos em uma direção e terminamos acertando uma rede de lavagem de dinheiro que engloba até o Hezbollah, além do PCC. Essa investigação começou por uma empresa chamada Arpar, que movimentou R$ 39 bilhões dentro dessa rede. Fomos entrando por uma porta e descobrindo outras camadas de lavagem de dinheiro, com empresas interligadas e recursos passando por diversas etapas até chegarem a criptomoedas ou casas de câmbio, indicando também saída de dinheiro do país. Sempre defendemos que, se a CPMI tivesse continuidade, revelaríamos um esquema muito maior do que o próprio roubo do INSS. Mas o PT e o Palácio do Planalto trabalharam para impedir a aprovação do relatório e a prorrogação da comissão.

Entrelinhas: O senhor afirma que as sanções dos Estados Unidos reforçam a credibilidade do trabalho da CPMI?

Gaspar: Nós tanto estávamos certos que estávamos no rastro dessa rede que empresas citadas no nosso relatório agora aparecem nesse contexto das sanções. Isso demonstra que a investigação seguia um caminho correto e que havia muito mais para ser descoberto.

Entrelinhas: O senhor acredita que houve interferência política para frear as investigações?

Gaspar: Fico espantado com a obstrução clara da Justiça sem qualquer consequência. A investigação envolvendo os atores do INSS, que tem o filho do presidente recebendo vantagens desse esquema por meio do Careca do INSS, simplesmente não anda. Também há outros personagens ligados ao governo sem qualquer avanço nas apurações. Espero que o ministro André Mendonça consiga superar esses obstáculos e faça valer o nosso relatório, que pediu o indiciamento de 216 pessoas. Até agora, vejo muitos entraves ao combate ao roubo do INSS.

Entrelinhas: A Polícia Federal afirma que a investigação é complexa e demanda tempo. O senhor considera essa justificativa suficiente?

Gaspar: Eu sou deputado federal e, com uma equipe de pouco mais de oito pessoas, produzimos um relatório com mais de quatro mil páginas e muitas provas substanciais. A estrutura da Polícia Federal não tem comparação com a nossa. Não tenho dúvida de que existe uma orientação do governo Lula para não avançar nas investigações porque o governo foi o principal responsável pelo crescimento exponencial desse roubo. Infelizmente, vejo uma blindagem.

Entrelinhas: O senhor afirma que a investigação ainda pode atingir outras autoridades?

Gaspar: Se a investigação do INSS avançar junto com o caso do Master, muita coisa ainda vai aparecer. O empresário Maurício Camisotti apresentou proposta de delação afirmando que pagou R$ 7 milhões a uma senadora da República. Há pessoas muito importantes que ainda precisam ser investigadas. Como são pessoas ligadas ao governo, isso não tem acontecido.

Entrelinhas: O senhor defende que essa investigação alcance todos os envolvidos, independentemente de cargo ou posição?

Gaspar: Exatamente. O Banco Master tem muita coisa escondida. A CPI poderia trazer tudo isso à tona sem poupar ninguém. Há contratos milionários envolvendo autoridades e ministros. Para acabar com qualquer narrativa de perseguição, o melhor seria investigar tudo de forma transparente e permitir que a população saiba quem participou desses esquemas.

Entrelinhas: Uma das maiores frustrações da população foi ver o Tesouro Nacional ressarcindo os aposentados, enquanto sindicatos e associações permaneceram com o dinheiro. Por que isso aconteceu?

Gaspar: O dinheiro e os bens dessas instituições estão bloqueados. O problema é que a legislação e o processo judicial são muito lentos. Esses recursos serão revertidos ao Tesouro somente após a conclusão dos processos. Não sei se o valor bloqueado será suficiente para cobrir todo o prejuízo, porque estamos falando de um roubo multibilionário. Desde o início defendemos o bloqueio de bens e a recuperação de ativos, e fizemos esse pedido. O ministro André Mendonça determinou bloqueios de bilhões de reais.

Entrelinhas: O governo decidiu devolver os recursos antes da conclusão dos processos. Como o senhor interpreta essa decisão?

Gaspar: O governo devolveu esse dinheiro por causa da repercussão da CPMI. Desde o começo sabíamos da necessidade de bloquear bens para recuperar os ativos desviados. Agora será preciso aguardar o andamento dos processos para que esse patrimônio bloqueado seja definitivamente revertido aos cofres públicos.

Entrelinhas: Depois da experiência na CPMI do INSS, uma nova CPI do Banco Master seria necessária?

Gaspar: Nós trabalhamos contra uma estrutura de Estado totalmente contaminada. Mesmo assim, entregamos um relatório robusto. Tanto que hoje discutimos sanções dos Estados Unidos envolvendo empresas citadas nesse relatório. Uma CPI do Banco Master seria importante porque o brasileiro precisa ver, de forma pública, a sujeira que tomou conta do país. O Master formou uma verdadeira máfia, protegida principalmente por integrantes do governo Lula. A fraude começou com a venda do Credcesta, que se transformou no principal ativo do banco.

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