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Poucos nomes sintetizam de forma tão clara a visão conservadora da política externa brasileira quanto Ernesto Araújo. Ex-ministro das Relações Exteriores, ele enxerga o cenário internacional a partir de uma disputa de caráter civilizacional, na qual democracias liberais e regimes autoritários travam uma nova Guerra Fria, agora marcada por influência política, guerra informacional, espionagem e disputas econômicas. Nesta entrevista à coluna Entrelinhas e ao programa Sem Rodeios, Araújo analisa os reflexos do protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF) nas relações internacionais do Brasil, comenta os recentes casos de espionagem envolvendo China, Rússia e Cuba, critica a condução da pandemia, avalia a crescente influência chinesa sobre o país e afirma que a eleição brasileira terá um peso geopolítico inédito. Ao longo da conversa, ele mantém a convicção de que o Brasil está diante de uma escolha que ultrapassa a política doméstica e passa a definir seu lugar no mundo.
Entrelinhas – Nos últimos dias, especialmente após as manifestações do governo Donald Trump em relação ao Brasil, temos discutido como fatores internos passaram a influenciar diretamente a política externa brasileira. Na sua avaliação, até que ponto o protagonismo assumido pelo Supremo Tribunal Federal mudou a forma como o Brasil se relaciona com o mundo?
Ernesto Araújo – O Supremo Tribunal Federal assumiu um poder imenso dentro do Brasil. Ele está praticamente no centro do sistema de poder que hoje governa o Brasil. Nós temos uma Constituição escrita e temos uma Constituição que é o que realmente funciona. Nessa que realmente funciona, que é diferente daquela que está escrita, o Supremo está ali no centro de tudo. Eu tenho usado a expressão "judiciário de coalizão". Mais do que o presidencialismo de coalizão, é o que nós temos no Brasil.
Então é natural que, ao assumir essa centralidade, o Supremo tenha um papel protagônico não só na política interna, mas também na política externa. Porque, se estão conduzindo as coisas, estão conduzindo o Brasil diante do mundo também. A gente estava acostumado a um paradigma em que o Judiciário nunca se relacionava diretamente com o exterior, porque estava restrito às leis daquele país, e não a uma atividade política. Agora assumiu uma atividade política. Então, sim, está tentando projetar um poder para o resto do mundo, e isso tem consequências.
Na física, toda ação corresponde a uma reação. Estão vindo as reações porque esse é o mundo político, não é o mundo da lei. No mundo político existe choque de poderes, choque de contrariedades. O Judiciário brasileiro, sobretudo o STF, precisa se acostumar com as consequências da sua opção de se tornar um tribunal político.
Entrelinhas – O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, tem adotado um discurso mais contundente em relação à América Latina, ao comunismo e ao papel de Cuba na articulação da esquerda continental. Como o senhor avalia essa atuação e os reflexos para o Brasil?
Ernesto Araújo – Marco Rubio vem tendo uma atuação muito consistente. Pela primeira vez em muitos anos, os Estados Unidos decidiram enfrentar aquilo que considero o projeto totalitário internacional.
Ele compreendeu que esse combate inclui a América Latina, passa por Cuba, pelo Foro de São Paulo e pelas estruturas revolucionárias construídas ao longo das últimas décadas.
O presidente Trump também deixou isso claro ao afirmar que o principal adversário dos Estados Unidos é o comunismo. Não é uma disputa contra um país específico, mas contra uma ideologia.
Na minha avaliação, as máscaras estão caindo. Os Estados Unidos passaram a reconhecer esse cenário de maneira mais explícita, e isso fortalece aqueles que defendem o enfrentamento desse projeto também no Brasil.
Entrelinhas – Nas últimas semanas vieram à tona diversos episódios envolvendo espionagem internacional: uma suposta rede de espiões utilizando documentos brasileiros, uma cidadã chinesa presa como estagiária da OTAN e investigações envolvendo agentes ligados ao Partido Comunista Chinês. O senhor costuma afirmar que vivemos uma "Guerra Fria 2.0". Como interpreta esse cenário?
Ernesto Araújo – Estamos numa Guerra Fria 2.0 e toda guerra tem a espionagem como um dos seus carros-chefes. Inteligência, informação, desinformação, contra-informação, tudo isso está presente e hoje de maneira muito mais disseminada do que nas épocas anteriores. Hoje os "James Bond" estão por aí. São os robôs na internet criando desinformação, mas também continuam existindo os agentes humanos.
O bloco totalitário, que na Guerra Fria anterior era comandado pela União Soviética, hoje é comandado pela China, mas continua tendo a Rússia como parceira. Esses poderes herdaram um imenso capital de experiência, redes de contatos e mecanismos de atuação. Não houve uma ruptura. Tudo isso continua existindo. Inclusive, nós temos no poder na Rússia um ex-agente da KGB.
Esse é um confronto que não é apenas militar. É uma guerra híbrida. China, Rússia e Irã estão tentando destruir o mundo livre, o Ocidente e a democracia em diversos lugares, inclusive no Brasil. O país é alvo pela importância que possui, mas infelizmente também está se prestando a ser uma estufa para criação de espiões e agentes.
Precisamos perder a inocência. Existe esse mundo da inteligência e da espionagem. O Brasil não deveria ser um lugar de formação de agentes nem favorecer, nesse terreno, o projeto do bloco totalitário.
Entrelinhas – O senhor tem defendido que a pandemia representou um ponto de inflexão para o avanço de estruturas de poder em diversos países. Na sua leitura, aquele período abriu caminho para mudanças institucionais que hoje ainda repercutem no Brasil?
Ernesto Araújo – Certamente. O Brasil pode ser considerado um laboratório. Assim como houve o laboratório de Wuhan, o Brasil também se tornou um laboratório de expansão de vários vírus ideológicos e totalitários. Um deles é esse vírus da juristocracia.
A pandemia teve tudo a ver com isso porque foi um momento de fortalecimento de uma máquina de poder. Estamos falando de uma guerra em que o bloco totalitário encontrou aliados dentro do próprio Ocidente. Houve uma combinação entre a China e elites políticas, econômicas e institucionais ocidentais.
O que me chamou atenção na época foi como, em poucos dias, já estava pronto um conjunto de dogmas: lockdown, inexistência de tratamento, espera obrigatória pela vacina. Tudo isso passou a ser apresentado como ciência.
Naquele momento, eu dizia que o Ocidente estava cometendo um suicídio. Um suicídio científico, ao aceitar que outros definissem o que era ciência, e também um suicídio institucional, ao aceitar censura, restrições às liberdades e um modelo de sociedade de controle. Felizmente, hoje há mais pessoas dispostas a investigar o que realmente aconteceu.
Entrelinhas – Muito se discute hoje a disputa entre Estados Unidos e China. No caso brasileiro, como o senhor interpreta a atual relação entre Brasília e Pequim, especialmente em um momento em que temas como tarifas comerciais e dependência econômica voltaram ao centro do debate?
Ernesto Araújo – A China tem um plano para o Brasil. Ela reservou ao Brasil um papel dentro do seu projeto hegemônico mundial: ser fornecedor de alimentos e consumidor dos seus produtos.
Na minha avaliação, Pequim acredita que já tem boa parte das elites políticas brasileiras no bolso, e até parcelas importantes da elite empresarial.
Quando o governo Lula tentou uma aproximação com os Estados Unidos, a China deu um sinal ao manter tarifas que poderiam ter sido revistas. Foi uma demonstração de força. A mensagem era: quem controla esse mercado somos nós.
Tentamos mudar isso durante o governo Bolsonaro, buscando diversificar mercados e reduzir essa dependência. Hoje, porém, a China acredita que tem o jogo na mão e pretende utilizar essa influência para favorecer o seu projeto político no Brasil.
Entrelinhas – O senhor afirma que a próxima eleição brasileira terá um componente internacional muito mais evidente do que em pleitos anteriores. De que maneira essa disputa entre Washington e Pequim deve influenciar o debate político interno?
Ernesto Araújo – Essa será uma eleição profundamente geopolítica. Não estaremos decidindo apenas entre candidatos, mas entre modelos de sociedade.
Na minha visão, haverá um projeto alinhado aos Estados Unidos, baseado na liberdade, e outro alinhado à China, baseado no totalitarismo.
A China quer manter o Brasil na sua órbita e vai trabalhar para isso. As pessoas precisam entender que essa escolha terá consequências muito além da política doméstica.

Mariana Braga é jornalista formada pela UFPR, com mestrado pela École Normale Supérieure de Lyon, na França. Trabalhou como assessora parlamentar na Assembleia Legislativa do Paraná. Foi repórter, apresentadora, editora e chefe de reportagem em emissoras de televisão. Tem formação também em Artes Cênicas e Psicanálise. **Os textos da colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




