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O primoroso espetáculo “Rotas da escravidão”, que conta com o apoio da UNESCO, estreou na Suíça em junho de 2015. Espetáculo que junta músicas tradicionais da África e América Latina e composições polifônicas europeias, já foi apresentado na França, na Holanda, na Noruega, Alemanha, Colômbia, Estados Unidos e na Espanha. Junto aos grupos eruditos “La capella Reial de Catalunya” e “Hespérion XXI” atuam cantores e instrumentistas vindos do Brasil, da Argentine, da Venezuela, da Colômbia, do Marrocos, de Mali e de Madagascar. O material musical é interessantíssimo, fazendo um apanhado de manifestações musicais africanas, europeias e latino americanas. Obras folclóricas e anônimas de países da américa latina (Colômbia, México, Brasil, Argentina, Venezuela e Bolívia) convivem, portanto, com obras de importantes compositores que comentam a situação da época da escravidão. Entre as músicas,  leituras de textos históricos (em francês) que nos narram os horrores de uma das práticas mais cruéis que se tem notícia. Incomoda demais saber que o período descrito no texto do trabalho “Memórias da escravidão – 1444-1888” se refere ao fato de que o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravatura (13 de maio de 1888). Uma vergonha para nós.

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Um músico excepcional

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Jordi Saval, o idealizador do projeto,  é um dos músicos mais importantes da atualidade. Catalão, nascido em 1941, se notabilizou inicialmente como um virtuose da Viola da gamba, instrumento de cordas barroco. A partir de seu contato com um instrumento que floresceu nos séculos XVII e XVIII seu interesse em música barroca e medieval o levou à fundação de grupos instrumentais e vocais a partir de 1974: “La Capella Reial de Catalunya”, “Le Concert des Nations”, “Hespèrion XXI” (era até o ano 2000 “Hespèrion XX”). Além de obras essenciais, tais como “A arte da fuga” de Bach e “Vespro de la beata Vergine” de Monteverdi Savall desenvolve com estes grupos (especialmente o Hespérion) espetáculos temáticos que, quando gravados, se tornaram uma referência indiscutível: “Livro vermelho de Montserrat”, “Cantigas de Santa Maria”, “O canto da Sibila”, são exemplos disso que falo. A partir do final de século passado Savall se interessou pela música árabe, e com ela fez uma pesquisa profunda das origens das manifestações musicais da Espanha, que por séculos foi ocupada pelos muçulmanos. Exemplo disso é sua homenagem à cidade espanhola de Granada  “Granada 1013-1526” que foi gravado em CD e que excursionou pela Europa, Japão e Estados Unidos, quando se comemorou o milésimo aniversário do reino fundado por povos africanos, que resultou numa somatória fantástica de música árabe, judia e espanhola.  É nesta direção que Jordi Savall realizou o espetáculo chamado “Rotas da escravidão”, em que foca a produção musical da Europa, África e das Américas de 1444 a 1888.

Presença musical do Brasil

 

Entre os países latino americanos o Brasil é de longe o país com maior participação no projeto. Os intérpretes brasileiros, injustamente, não são muito conhecidos por aqui: a cantora paraibana Maria Juliana Linhares e o percussionista baiano Zé Luís Nascimento. A voz, a afinação e a dicção de Maria Juliana são perfeitas e a criatividade e precisão do percussionista também.  Toda a primorosa parte musical e cênica do espetáculo acaba de ser lançada na Europa (mais precisamente na França) numa edição que acopla dois CDs, um DVD e um livro. Este “pacote” completo só está disponível na Amazon francesa (www.amazon.fr) e na FNAC da França e de Portugal, possível de ser encomendado. No entanto é possível baixar a (excelente) parte musical do espetáculo através do iTunes e do Presto Classical (prestoclassical.co.uk). Vamos torcer para que alguma loja brasileira importe este material e que este espetáculo seja também apresentado no Brasil.

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Neste curto vídeo você pode ter ideia da qualidade do espetáculo. Maria Juliana canta aos 2:20