Arte: Felipe Lima| Foto:

Para quem acha que vou falar sobre belas mulheres (e ser até mesmo um pouco machista), um aviso: não é nada disso. Esta é uma crônica sobre musas de um jeito que você talvez nunca tenha lido. E, se tiver um pouquinho de paciência para chegar ao fim dessas mal traçadas linhas (desde já fica o convite), espero poder mostrar por que precisamos tanto das musas nesses tempos conturbados. Um pequeno spoiler: tem a ver com o incêndio do Museu Nacional e com nossa conturbada eleição. E, de quebra, fica ainda um brinde para a vida pessoal.

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Começando pelo começo. De uns tempos para cá, a palavra “musa” assumiu o sentido de “mulher bonita”. Mas não era bem assim. Musas são as entidades da antiga mitologia grega inspiradoras das artes e ciências. Não é muito difícil entender como houve a transmutação de significado. E há uma boa dose de machismo nisso aí. Artistas (quase sempre homens ao longo da história) diziam se inspirar em belas donas para criar suas obras. Pronto: musa passou a ser mulher bonita.

Mas a história das musas tem muito mais substância do que aparência. Já contei esse causo aqui na Gazeta alguns anos atrás. Mas, no caso, lembrar disso faz todo sentido (vocês logo entenderão).

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Reza a lenda que Zeus, o chefão dos deuses gregos, estava meio cansado de vagar sem lenço nem documento pelo caos primordial, pisando em ovos para não tropeçar em algum troço fora do lugar.  E resolveu pôr ordem na bagunça do universo. Separou a luz da escuridão. O calor do frio. O céu da terra. Deu nome e função a tudo que existia: coisas, plantas, animais… E então Zeus decidiu exercer sua generosidade. Deu uma fagulha de divindade – razão e consciência – a um único animal: o homem, que passaria a ser o rei dos demais seres vivos.

Mas Zeus era vaidoso. E quis se exibir para os demais deuses do Olimpo. Convidou-os para um banquete no qual apresentou sua “perfeita” criação. “Perfeita?!? Acho que deu ruim”, retrucou um deus insolente (só entre nós: dizem que era Apolo). “Como é que é?!?”, reagiu o chefão dos deuses. “Pois bem, chefia…”, prosseguiu o intrometido. “… Este homem – que carrega a luz celestial, a consciência de si e de tudo o que é bom e ruim – é um ser que se esquece com incrível facilidade. Meio avoado. Cabeça de vento. E, caro Zeus, se esquece de inclusive de onde veio, de lhe agradecer”.

Foi água no chope de Zeus. Ou no néctar (a bebida das festanças do Olimpo).

Mas não é que Zeus resolveu emendar o soneto da criação? Do seu jeito… como dizer… meio Don Juan. Chamou a deusa da memória, Menmosine. Seduziu-a. E dessa relação nasceram nove filhas. Sim, elas mesmas: as musas.

Pronto. Cada uma ia correr o mundo para dar inspiração a artistas e cientistas. Sem mais delongas, apresento as meninas superpoderosas: Calíope (a musa dos poetas épicos); Erato (dos poetas líricos); Clio (dos historiadores); Euterpe (dos músicos); Melpômene (dos dramaturgos trágicos); Talia (dos cômicos); Terpsícore (dos dançarinos); Urânia (dos astrônomos); e Polímnia (a musa de quem faz hinos; alguém sabe se tem um nome específico para esse sujeito aí? Hineiro? Bem, isso não vem ao caso…).

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A ideia de Zeus era de que a humanidade pudesse se redimir. Lembrar-se de vez em quando daquilo que realmente importa quando começa a operar no piloto automático. Os antigos gregos desde logo perceberam que as artes e o conhecimento poderiam resgatar o ser humano de seu esquecimento atroz. Não há, afinal, músicas, poesias, filmes ou romances que parecem falar-nos diretamente ao coração? Não nos emocionamos ao sermos tocados por essas mentiras verdadeiras, que nos fazem refletir sobre nossas existências? E não podemos, enfim, deixar de repetir os erros do passado e almejar um futuro mais promissor se nos dedicarmos ao conhecimento? Sim, por certo que sim. Este é o brinde de que falei lá no começo do texto: lembre-se do que importa, nem que seja de vez em quando.

E aqui começo a amarrar as pontas para chegar aos finalmentes.

O templo em que os gregos cultuavam as musas se chamava museion. Museu, em bom português. Sim, museu não é o lugar de guardar coisas velhas. Mas sim de nos lembrarmos do que é relevante.

Pois é. Um país que deixa queimar o Museu Nacional há muito se esqueceu do que importa. Inverteu prioridades. Nesse sentido, as chamas que consumiram a Quinta da Boa Vista são simbólicas: destruíram um pouco de nossa cultura, nossa arte, nossa história, nossa ciência.

E que falta nos faz um pouco de memória histórica e boa ciência na eleição presidencial para nos lembrar do que importa.

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Tem candidato reciclando ideias econômicas que definitivamente não dão certo, que criam um crescimento num primeiro momento para cobrar uma pesada conta logo em seguida.

À direita e à esquerda, também tem muito candidato flertando perigosamente com ideias autoritárias que pareciam estar na lata de lixo da história, como se os países que conseguiram se desenvolver e dar uma vida digna à sua população não fossem todos democráticos. Tem quem defenda a ditadura e seus métodos. Do outro lado, há quem também pareça estar na década de 1960. E traga no discurso e no plano de governo o típico receituário dos novos “revolucionários” socialistas: regulação da imprensa capitalista (ou seria golpista?) sob o pretexto de “democratizar” a mídia, nova Constituição, blablablá…

E a corrupção que atinge tantos presidenciáveis e o seu entorno? Bem, isso parece que muito eleitor já esqueceu.

Enfim, parece que estamos vivendo o eterno Dia da Marmota. Correndo atrás do próprio rabo. Ah, as musas… Chamem as musas! Como precisamos delas para nos lembrar. E nos inspirar na hora do voto.