Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas em 2018| Foto: DON EMMERT/AFP

Na terça-feira, dia 24 de Setembro, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro fará o discurso de abertura do debate geral da 74ª sessão da Assembleia Geral da ONU. Por motivos óbvios, no Brasil, muito se concentra no conteúdo do discurso presidencial, quais serão os sinais enviados à comunidade internacional e até mesmo na presença de Bolsonaro, que se recupera de cirurgia.

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Antes da abertura cabe uma breve análise dos prováveis principais pontos dos discursos dos líderes mundiais. Por seis dias, representantes dos 193 Estados que são parte das Nações Unidas, além dos dois membros-observadores, Palestina e Santa Sé, poderão expor suas pautas e prioridades no maior fórum mundial. Além disso, como mencionado cerca de um ano atrás nesse espaço, e em outras ocasiões, tais fóruns servem para agilizar e propiciar contatos entre países e lideranças. Por alguns dias, as principais figuras da política internacional estarão em um raio de apenas alguns quarteirões.

Isso facilita reuniões bilaterais, encontros em portas fechadas, até contatos informais entre nações cujas relações estejam em distensão. Novas lideranças poderão se apresentar perante o mundo, como no caso de Bolsonaro. Alguns desses discursos são históricos, evocados até hoje. Processos de paz e de aberturas políticas começaram em trocas informais nos corredores. E, claro, temas de preocupação global são facilitados pela amplitude dos presentes.

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Clima, energia e conflito

Um dos focos certamente será a questão climática, incluindo atenções centradas no Brasil, devido a repercussão de incêndios na Amazônia e retóricas acaloradas entre Bolsonaro e Emmanuel Macron, presidente francês. O tema também estará presente com prévias sobre a vindoura conferência do clima, que será realizada em Santiago; originalmente, seria no Brasil. Além disso, países insulares deverão manter sua pressão por políticas climáticas mais agressivas, com a ameaça de aumento dos níveis do mar.

Relacionado aos aspectos ambientais, outro foco da sessão será a discussão energética, com duas correntes de pensamento principais. Uma que defende os combustíveis mais baratos e eficientes, como carvão mineral e petróleo, cuja principal liderança é Donald Trump; inclusive por aspectos eleitorais. A outra corrente é a que busca aumentar os investimentos em fontes de energia renováveis, como a Alemanha de Merkel, que recentemente anunciou cem bilhões de euros para novas fontes de energia.

A energia, por sua vez, está relacionada ao principal tema de segurança internacional do momento, a guerra fria entre sauditas e Irã, recentemente foco de uma série de textos aqui nesse espaço. Na última semana, um possível ataque iraniano contra instalações petrolíferas sauditas ligou os alarmes para uma guerra aberta e em larga escala entre as duas potências regionais. O conflito, que já é travado entre atores “por procuração”, poderia escalar para uma proporção catastrófica.

Além dos óbvios custos humanos e de destruição do conflito, a semana já deu uma pequena prévia sobre uma consequência mundial dessa guerra. O preço internacional do petróleo subiu, motivando ações emergenciais do governo dos EUA e preocupação em outras nações. Crises no Oriente Médio, como a guerra do Yom Kippur em 1973 e a Revolução Iraniana em 1979, causaram os chamados “choques do petróleo”, termos que não transmitem a calamidade energética mundial que aconteceu nos períodos.

O preço do petróleo não altera apenas o preço desenhado no posto de gasolina que alguém frequenta. Significa um aumento em cascata de todos os insumos derivados do petróleo e dos custos de transporte de todo e qualquer bem, como alimentos. O fechar do Estreito de Ormuz implica em um maior preço do petróleo, que reflete no óleo diesel, que reflete no custo de transporte do caminhoneiro que leva o tomate da fazenda para os centros de distribuição, cujos funcionários pagam mais caro na passagem de ônibus, assim em diante.

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Caxemira, Brexit e ausências

Outro assunto de segurança internacional presente será a atual crise na Caxemira, motivada pela recente mudança constitucional indiana. A Índia defenderá sua decisão e tentará explicar sua perspectiva; o Paquistão vai protestar e pedir por esforços internacionais para contestar o movimento; países muçulmanos vão tratar indiretamente do assunto, pedindo por respeito e proteção à população local; potências como a China e o Reino Unido pedirão por moderação e diálogo, sem confrontar a Índia diretamente.

Falando em Reino Unido, Boris Johnson confirmou presença em Nova York. Defenderá as decisões de seu governo e espera-se que ele exponha suas ideias sobre o Brexit e o vindouro prazo do dia 31 de Outubro. Um prazo que não está no horizonte apenas de Londres ou dos países europeus, mas também das economias de todo o mundo: empresas que terão suas logísticas afetadas, países buscando oportunidades para acordos comerciais, investimentos que estão esperando uma decisão, etc.

Finalmente, o tema da migração e dos refugiados, para, provavelmente e infelizmente, mais uma rodada de conversas, e conversas, e conversas, e somente conversas. Todos dirão que o tema é importante, falarão dos milhões de refugiados de guerras, dos que fogem para salvar suas vidas de genocídios, como os rohingya, dos migrantes econômicos, dos refugiados climáticos, falarão de muros ou contra muros. De concreto? Provavelmente muito pouco, na esperança de que essa coluna esteja errada.

Além das pautas políticas e de negociações, outro aspecto notável para este ano será o das ausências. No continente americano, Maduro irá ficar na Venezuela, para se “concentrar no país”; as más línguas falam no temor de um golpe em sua ausência. Justin Trudeau não cruzará a fronteira canadense, já que enfrenta eleições no mês que vem e está com sua imagem em baixa, já que imagens dele em fantasias etnicamente ofensivas em três ocasiões diferentes foram publicadas, contradizendo seus discursos progressistas.

Outra ausência será a de Benjamin Netanyahu, já que o premiê israelense não conseguiu assegurar um governo nas últimas eleições, cujos cenários foram brevemente explicados no texto anterior desse espaço. Ele ficará em seu país para as negociações partidárias, o que certamente contribuirá para uma pressão menor no Irã. Não que um diplomata representante do governo israelense será amigável, porém a oratória e os recursos de Netanyahu em seus discursos na ONU são notórios. Que os leitores fiquem de olho.

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Lembro os leitores e leitoras de que os discursos podem ser lidos, ouvidos e assistidos, na íntegra, no site do Debate Geral. Os áudios são disponibilizados no idioma original e nos seis idiomas oficiais da ONU; ou seja, uma boa oportunidade também para praticar, gratuitamente, o aprendizado de línguas, no caso de estudantes de algum idioma. Finalmente, peço desculpas pelo atraso na publicação do texto, causado por questões profissionais, não por desconsideração ao compromisso com os leitores da Gazeta do Povo.