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Parque Olímpico em Pequim, China.
Parque Olímpico em Pequim, China.| Foto: EFE/EPA/ROMAN PILIPEY

Na primeira segunda-feira do mês, dia seis de dezembro, o governo dos EUA anunciou um “boicote diplomático” aos Jogos Olímpicos de Inverno que serão realizados em Pequim, em fevereiro de 2022. Em um primeiro momento podem pipocar comparações com os boicotes olímpicos ocorridos em 1980 e em 1984, ambos eventos que tornaram-se símbolos da Guerra Fria entre EUA e União Soviética. Um olhar mais profundo, entretanto, mostra justamente como é complicado comparar as situações, tanto olímpicas quanto geopolíticas.

Primeiro, os fatos. Ou, melhor dizendo, as declarações. Jen Psaki, porta-voz da Casa Branca, disse que o motivo do boicote é o "genocídio em curso na República Popular da China, pelos crimes contra a humanidade em Xinjiang e demais violações de direitos humanos". Xinjiang é a região mais ocidental da China, na fronteira com o Cazaquistão, onde vive a maioria dos uigures, povo túrquico e de maioria muçulmana. Ou seja, embora sem usar o termo uigures, essa seria a razão do boicote diplomático.

Na quarta-feira, dia oito, três aliados dos EUA, Austrália, Canadá e Reino Unido, anunciaram que iam aderir ao boicote. No caso, o boicote diplomático trata-se da recusa de enviar representantes governamentais para as cerimônias dos jogos, como presidentes, monarcas ou ministros. Em outras palavras, o boicote não envolve as delegações esportivas, com a presença prevista de todos os atletas classificados. A mesma Psaki afirmou que "vamos apoiá-los em 100% do tempo e vamos torcer de casa".

Outras ausências

A Nova Zelândia também avisou que não enviará representantes diplomáticos para os jogos, mas por causa das medidas sanitárias contra o coronavírus, não necessariamente por razões políticas. Talvez uma maneira de ficar “no meio do caminho” entre seus aliados que realizam o boicote e a China. A Lituânia também não enviará representantes, mas pela crise atual entre o país e o governo de Pequim, já que a Lituânia aceitou um escritório de representação de Taiwan, gerando represálias da China continental.

Outra situação é a japonesa. O país anunciou que não enviará nenhum representante que ocupe um cargo ministerial, mas será representado por Yasuhiro Yamashita, presidente do comitê olímpico local. Novamente, uma solução de “meio termo”. Mais um anúncio de boicote veio do Kosovo, território sérvio que declarou independência em 2008. Um caso que não gerará consequências, já que a China não reconhece Kosovo como um país independente e não existem relações diplomáticas oficiais.

De certo modo, isso foi parte do tom da resposta chinesa. Inicialmente, via Liu Pengyu, porta-voz da embaixada da China em Washington, que afirmou que, como nenhum convite oficial já foi emitido, o boicote seria um ato “pretensioso”. Pode fazer certo sentido, mas não se trata de uma festa de aniversário infantil, já que convites para autoridades dos países participantes são um costume parte dos Jogos Olímpicos. O mesmo porta-voz acusou os EUA de “politizar o esporte” e de “interferir contra as Olimpíadas de Pequim".

Dias depois, foi a vez do ministério das Relações Exteriores chinês se pronunciar. O porta-voz Wang Wenbin afirmou que "o uso da plataforma olímpica para manipulação política é impopular" e que os países que boicotarem os jogos de Pequim “inevitavelmente pagarão o preço por suas atitudes erradas”. Não é a primeira vez que a China usa esse tipo de retórica, de “pagar o preço”, mas ainda não está claro quais as possíveis consequências ao boicote diplomático.

Comparação com a Guerra Fria

A questão desse boicote é que ele não afeta os atletas participantes. Possivelmente por pressão das grandes marcas patrocinadoras, que, no mínimo, não serão prejudicadas em seus contratos polpudos. É importante lembrar que os Jogos Olímpicos de Inverno não são a maior audiência para o público brasileiro, por motivos óbvios, mas são importantes e atrativos em diversos outros mercados, como EUA, Reino Unido e Alemanha. Os jogos de 2018, em Pyeongchang, Coreia do Sul, movimentaram quase US$ 30 bilhões.

O leitor lembra quais as autoridades presentes na abertura dos Jogos de 2016, no Rio de Janeiro? Que a representante do Reino Unido foi a princesa Anne, por exemplo? Ao manter os atletas e a competitividade dos jogos, o “boicote diplomático” será, no máximo, simbólico, sem afetar o interesse do público ou dos patrocinadores. A ausência de um presidente ou de um ministro será uma mera nota de rodapé. Isso é totalmente diferente dos boicotes olímpicos durante a Guerra Fria.

Os principais boicotes olímpicos foram três. Nos jogos de verão de 1976, em Montreal, quando países africanos boicotaram os jogos devido ao Apartheid, nos jogos de verão de 1980, em Moscou, quando os EUA e outros países boicotaram os jogos em protesto à entrada soviética na guerra no Afeganistão, e nos jogos de verão de 1984, quando a URSS e seus aliados reciprocaram o boicote de quatro anos anteriores, oficialmente em protesto à “mercantilização” dos jogos em Los Angeles.

Esses boicotes, além do protesto político, geraram uma repercussão mundial pelas histórias que foram alteradas por eles. Atletas de alto nível ressentem até hoje que não puderam competir, enquanto atletas que não tinham muitas chances puderam sentir o gosto da medalha olímpica. Eles são lembrados até hoje por isso, por terem atingido o âmago do espírito olímpico, que é a competição esportiva acima das discórdias políticas. Ninguém vai se comover pela ausência de uma autoridade política.

O “boicote diplomático” é mais um exemplo de como não é possível falar, ao menos ainda, em “Guerra Fria 2.0” ou “Nova Guerra Fria”. Aquela realidade era de dois blocos quase totalmente separados. China e EUA estão muito mais interligados do que URSS e EUA jamais estiveram. Como já dito em nosso espaço, o auge do comércio entre as duas superpotências da Guerra Fria foi em 1989, com um volume total de US$ 4 bilhões. Literalmente, três dias do volume de comércio entre EUA e China hoje.

A conexão entre EUA e China torna muito mais improvável um conflito entre eles e dá contornos muito mais problemáticos a medidas como boicotes, sanções e embargos. A empresa fornecedora de material esportivo está mais interessada no enorme mercado chinês do que com eventuais questões éticas envolvendo os uigures. O discurso pode ser muito bonito e gerar engajamento nas redes sociais, mas é quase literalmente um boicote para inglês ver, sem afetar o bolso de nenhum dos envolvidos.

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