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O presidente russo Vladimir Putin deixa o palco após o seu discurso anual sobre o Estado da Nação em Moscou, 21 de abril
O presidente russo Vladimir Putin deixa o palco após o seu discurso anual sobre o Estado da Nação em Moscou, 21 de abril| Foto: Alexander NEMENOV / AFP

No último dia 21, o presidente russo Vladimir Putin deu seu tradicional discurso de Estado da Nação, perante o gabinete e as casas do Congresso russo. O pronunciamento teve alguns eixos principais, além de um silêncio. Um dos pilares desse nosso espaço de política internacional é o de compreender a Rússia e seus problemas, pois eles possuem um impacto global tanto quanto o de outras potências, mais próximas e melhor compreendidas. Essa importância faz apropriado darmos uma olhada no pronunciamento.

Um dos eixos foi, obviamente, a pandemia. Putin louvou a capacidade tecnológica e científica do país, que desenvolveu três vacinas diferentes contra Covid-19, além de destaques habituais aos profissionais de saúde do país. Pediu que os russos se vacinem, pois apenas uma vacinação em massa superaria a crise. Outro aspecto da pandemia é o de bem-estar social e o impacto econômico. Nesse sentido, Putin anunciou que a “prioridade” é garantir o crescimento dos rendimentos dos russos.

Anunciou uma reforma fiscal para o fim do ano e linhas de incentivos para pequenas e médias empresas. Fazem parte do pacote uma série de incentivos para famílias com crianças, mães solteiras e mulheres grávidas. Esses incentivos, entretanto, não são derivados apenas da pandemia e também se relacionam com outro eixo de seu discurso e um dos maiores desafios históricos da Rússia. A demografia. A Rússia é o país com maior território do mundo, mas apenas a nona maior população.

De cerca de duzentos países, a Rússia está entre os vinte com menor densidade populacional. São menos russos do que habitantes de Bangladesh, um país com menos de 10% do tamanho da Rússia. Além de poucos habitantes, a população russa está envelhecendo. Putin anunciou medidas para incentivar o crescimento populacional, a expansão da expectativa de vida e também de apoio ao turismo interno. O raciocínio é o de que isso tanto favorece a economia interna, quanto mitiga efeitos de sanções do exterior, além de favorecer a solução de desequilíbrios demográficos internos.

Outro eixo do discurso foi o científico, com aportes para pesquisas civis, incluindo contra uma “nova pandemia”, e também para adaptar a economia russa às metas ambientais anunciadas pelo país na Conferência de Paris. As emissões russas estão muito ligadas ao uso de usinas termelétricas para geração de energia, ou seja, é necessária uma grande reforma na matriz energética nacional. E é claro que temas de segurança e de política externa foram os que mais chamaram atenção e que mais repercutiram.

Forças armadas e segurança

Putin mencionou a contínua modernização dos equipamentos das forças armadas russas e, principalmente, advertiu contra cruzarem “as linhas vermelhas” da Rússia. Ele não especificou, nem nomeou inimigos, mas o alerta é óbvio. Putin não está disposto a sacrificar o entorno estratégico russo, nem suas pautas prioritárias de segurança. Na perspectiva russa, especificamente de Putin e do aparato de Estado russo, o oeste “traiu” sua palavra após a Guerra Fria, expandindo a Otan para perto de suas fronteiras. Existe divergência e debate sobre se essa promessa sequer existiu, mas o que importa, para o governo russo, existiu e foi quebrada.

A “linha vermelha” é estar nas fronteiras russas e em países tradicionalmente integrantes da cultura russa. A Polônia e os Países Bálticos, países com passado traumático em relação aos russos, não surpreendem estarem na UE e na Otan. Belarus e Ucrânia, entretanto, “já é demais”. E dois acontecimentos paralelos ao discurso apontam na direção dessas prioridades. Primeiro, Putin denunciou uma suposta tentativa de golpe orquestrado pelos EUA em Belarus, para assassinar Lukashenko. E, certamente não foi coincidência, o ditador de Belarus estava em Moscou para se encontrar com Putin.

É possível um aprofundamento do Tratado de União, ou então a invocação de artigos de segurança presentes no tratado. O documento, da década de 1990, une Rússia e Belarus em uma confederação, com governos próprios mas unidos em pautas de segurança e de política externa. Na prática, a Federação Russa iria incorporar Belarus, permitindo que forças policiais e militares russas entrassem no país. Se tudo isso for feito sob a justificativa de prevenir um golpe de Washington, ainda melhor. Pode ser uma justificativa falsa, mas também pode ser fato, claro.

A outra “linha vermelha” é a Ucrânia e a questão da Crimeia, obviamente. O evento paralelo, nesse caso, foi o início da retirada do cerne das tropas russas na fronteira com a Ucrânia, na região dominada por rebeldes pró-Rússia. Ou seja, o alerta já havia sido dado, a Rússia mostrou sua presença e se retirou. Nas palavras de Putin em seu discurso, uma resposta “rápida e firme”, além de “assimétrica”. Putin também afirmou que o desafio da “linha vermelha” seria causa de “arrependimento incalculável” pelos adversários.

Ainda assim, houve um silêncio no discurso. Enquanto Putin falava, uma manifestação de oposição se concentrava nas ruas de Moscou. Muitos dos presentes são apoiadores de Alexei Navalny, tido como um dos principais líderes da oposição russa, atualmente preso em um hospital sob greve de fome. Putin não falou nada sobre o dissenso político em seu país nem sobre o opositor, nem sobre críticas às violações de direitos humanos na Rússia. Claro, um silêncio calculado, para não dar importância ao opositor, mas, ainda assim, foco de críticas no exterior. Não que isso importe para Putin.

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