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Combatentes do Talibã em Jalalabad, Afeganistão, 17 de agosto de 2021
Combatentes do Talibã em Jalalabad, Afeganistão, 17 de agosto de 2021| Foto: EFE/EPA/STRINGER

Alguns dias atrás, a coluna lembrou que o leitor, no que concerne ao Afeganistão, sempre esteve bem informado nos últimos anos. O cenário esperado, mesmo “inesperado” para alguns, aconteceu. De novidade, mesmo, apenas um pouco da velocidade dos eventos.

As imagens angustiantes de Kabul já rodaram o mundo. Pessoas desesperadas caindo da fuselagem de aviões, após tentarem se segurar em um fio de esperança. Milhares de pessoas tentando fugir do país, enquanto os novos líderes afegãos, o velho Talibã, fazia uma transmissão do palácio presidencial. Infelizmente, isso quer dizer apenas que novas crises virão no futuro próximo e também distante.

A mais intensa delas é a crise humanitária. A população atual do Afeganistão é quase o dobro da população de 2001, quando da intervenção da OTAN, liderada pelos EUA e autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU. Parte desse crescimento populacional se deve justamente ao fato de que centenas de milhares de afegãos que haviam fugido do Talibã decidiram voltar ao seu país após a queda do primeiro emirado. Os últimos vinte anos foram de avanços em diversos aspectos na sociedade afegã, mesmo que com uma guerra civil intermitente. Hoje é seguro dizer que uma parcela considerável dos 39 milhões de habitantes do Afeganistão não querem viver sob o Talibã.

Nos próximos meses teremos alguns milhões de afegãos fugindo do seu país. Esses provavelmente se dividirão em três tipos. Uma minoria dos que possuem dinheiro e contatos e poderão ir para a Europa, para os EUA ou para a Austrália. Um grupo maior de homens jovens desalentados, que vai tentar chegar nesses mesmos grandes centros, porém em jornadas mais arriscadas e perigosas. Não são poucos os relatos de afegãos que chegaram na Europa viajando a pé.

Finalmente, as famílias que tentarão cruzar as fronteiras próximas, levando toda sua vida nas costas. Especialmente para o Irã e para o Paquistão, países com grandes comunidades afegãs. Inclusive, as populações pashtuns do Afeganistão e do Paquistão muitas vezes se confundem.

Nessa segunda-feira, dia 16, o presidente francês, Emmanuel Macron, já abordou esse assunto, afirmando que a desestabilização do Afeganistão gerará “fluxos migratórios irregulares”, que embora a França continue a proteger "os mais ameaçados", a Europa não pode suportar as consequências da situação.

Segundo ele, "será lançada uma iniciativa para construir, sem esperar mais, uma resposta robusta, coordenada e unida". Parece muito bonito, um aprendizado do que aconteceu após a guerra na Síria, mas a situação hoje é distinta. Macron enfrenta eleições em que imigração e refugiados são tópicos importantes e não pode correr o risco de alienar parte do eleitorado na direção de Marine Le Pen.

Crise societária 

No lado alemão, as eleições federais vão encerrar a Era Merkel, dificultando qualquer acordo mais robusto antes da formação de um novo governo, posterior às eleições de 26 de setembro. Quanto mais tempo demorar, mais pessoas desesperadas, mais notícias trágicas e assim por diante. O que leva à próxima crise, a societária.

As lideranças talibãs teriam se comprometido a uma política mais moderada, uma dose de pragmatismo em troca de maior reconhecimento internacional. Bem, lembremos que a palavra do Talibã não vale muita coisa, como visto nas últimas décadas. Ainda assim, a sociedade afegã vai mudar e vai perder o mais recente respiro de modernidade e liberalização social.

Já abundam os relatos de mulheres afegãs das grandes cidades que destruíram seus diplomas, suas credenciais, temendo por sua vida. O retorno das burqas, a repressão a toda e qualquer forma de emancipação feminina, a uma sociedade plural, com música, arte, cinema, direitos para pessoas LGBT, tudo isso se vai. E não é exagero da coluna ou reprodução de estereótipo orientalista.

O antigo Ministério para a Promoção da Virtude e Repressão ao Vício do Talibã fazia tudo isso. Até abraços em público poderiam gerar repressão policial e música e dança eram proibidas. Inclusive, existe uma instituição com o mesmíssimo nome na Arábia Saudita. Esse tipo de repressão, sempre com as mulheres como maiores vítimas, já ocorria em zonas interiores do Afeganistão. Agora, será a norma.

Essa crise societária leva à crise de imagem e de prestígio dos EUA.

Primeiro, esqueça qualquer jogo de culpabilização. Todos os quatro últimos presidentes dos EUA possuem alguma parcela de responsabilidade no que está acontecendo. O Estado dos EUA nunca teve uma estratégia clara de longo prazo no Afeganistão.

George W. Bush por ficar quase oito anos sem cumprir a sua autoconferida missão de pegar bin Laden, travando uma guerra intermitente sem saber direito para onde ir. Barack Obama por ficar mais seis anos após a morte de bin Laden sem conseguir, ou querer, ressignificar a presença dos EUA na região e o modelo de cooperação com o Afeganistão.

Já a parcela de responsabilidade do governo Trump vem em querer retirar as tropas dos EUA do Afeganistão de qualquer jeito, mesmo que, para isso, precisasse legitimar o Talibã. Sim, a palavra é legitimar. Foi Trump que começou as negociações com o Talibã e foi seu governo que pressionou para a libertação de milhares de integrantes do grupo, incluindo seu líder, Abdul Ghani Baradar, que estava preso no Paquistão.

O secretário de Estado de Trump, Mike Pompeo, se encontrou com Baradar em novembro de 2020, no Qatar. Todos esses tópicos foram abordados aqui na coluna em sua época. Finalmente, Biden delineia um “plano” que sequer merece ser chamado assim, de uma retirada completa às pressas, que culmina em desastre, baseado em relatórios de inteligência que se mostraram furados.

Péssimo discurso de Biden

As imagens mostram pessoas sendo abandonadas, a embaixada dos EUA em Kabul sendo evacuada e, de última hora, Biden teve que mandar tropas que já estavam no Afeganistão para providenciar segurança.

A internet está inundada com imagens que fazem paralelos com a queda de Saigon ou que lembram do apoio dos EUA aos mujahideen afegãos nos anos 1980. Uma pausa para avisar ao leitor que esse tema, da origem do Talibã, será revisitado em breve aqui em nosso espaço.

Retornando, a situação piora com o temor de que milhares de pessoas que colaboraram com os EUA ou com o governo afegão foram abandonados à própria sorte. O secretário Blinken, num descolamento abissal da realidade, nega esse dano de imagem, diz que a missão foi um sucesso.

Enquanto circulam imagens de pessoas literalmente caindo de um avião dos EUA. Biden, talvez para socorrer seu diplomata chefe, decide falar bobagens maiores ainda. Em um discurso não programado, no meio de suas férias, Biden só faltou usar um certo dedo em relação ao Afeganistão.

Disse que o propósito dos EUA nunca foi a permanência de longa duração, que os afegãos não lutaram contra o Talibã e lavou suas mãos. Tudo o que um líder não deveria fazer em momento de crise. Quando ele diz, por exemplo, que o exército afegão não lutou contra o Talibã, talvez ele esteja se referindo às várias deserções em massa dos últimos meses. Quando esses soldados estavam sem pagamento e sem liderança, de um corrupto e pusilânime Ashraf Ghani.

No geral, entretanto, desde 2002, mais de 65 mil soldados afegãos morreram, em comparação com os exatos 2.420 militares mortos dos EUA. Chamar esses homens praticamente de covardes é, por si, uma covardia.

E no futuro, quando os EUA precisar de aliados regionais? O abandono dos curdos por Trump e o maldizer dos afegãos por Biden vão fazer qualquer ator pensar duas vezes antes de se alinhar aos EUA. E essa crise de imagem não será apenas externa.

Meio milhão de militares dos EUA serviram no Afeganistão, e uma boa parte deles vai se olhar no espelho e perguntar “pra quê?”. A pressa de Biden, a ineficácia de seu “plano” e, ainda mais, seu discurso débil colaborarão para esse sentimento. A maior parte da população dos EUA apoiava a retirada do Afeganistão, mas duvido que muitos apoiassem que fosse dessa maneira vexaminosa.

Nas próximas semanas, lideranças políticas afegãs formarão um “conselho de transição” para negociar com o Talibã. Dentre as autoridades do conselho, estão o ex-presidente Hamid Karzai, o ex-chanceler Abdullah Abdullah e o líder mujahideen Gulbuddin Hekmatyar, que ficou vinte anos no exílio após a vitória do Talibã em 1996.

Tais conversas ocorrerão no Qatar e dificilmente vão render muitos frutos. O Talibã não possui incentivos para negociar, coisa que nunca quiseram fazer, em primeiro lugar. Os “estudantes” chegaram onde queriam chegar.

Os cenários possíveis citados na última coluna permanecem, especialmente no que concerne aos interesses chineses. Agora, somados com as certezas das crises que virão e que, infelizmente, tiveram que ser analisadas nesse texto. Não há nada para ser celebrado, por ninguém, apenas fracassos e pesares.

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