Belarus’ President Alexander Lukashenko delivers his annual address to the nation and lawmakers in Minsk on August 4, 2020. (Photo by Nikolay PETROV / BELTA / AFP)| Foto: AFP
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Para surpresa de absolutamente ninguém, Alexander Lukashenko foi reeleito presidente de Belarus, cargo que ocupa desde 1994. O único presidente de Belarus independente. Meu palpite jocoso na véspera foi de que ele seria reeleito com 712% dos povos; o resultado concreto foi de “meros” 80%. A eleição, obviamente, foi contestada pela oposição e acompanhada de protestos com dezenas de milhares de pessoas. O que isso pode significar para a História desse país incrustado entre a Rússia e o restante da Europa?

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A primeira constatação é a de que, se 84% do eleitorado compareceu e Lukashenko teve 80% dos votos, ele teria recebido cinco milhões de votos. Em um país de pouco mais de nove milhões de pessoas. Se mais da metade da população total tivesse votado em um candidato, dificilmente teríamos os maiores protestos populares da História de um país. No mínimo, ocorreriam também manifestações favoráveis ao “amplamente amado” líder reeleito com enorme proporção do eleitorado.

Não é isso que se viu. Somente na capital Minsk foram cerca de sessenta mil pessoas protestando, e a repressão resultante custou ao menos uma vida. Também foram registrados protestos em diversas outras cidades médias e pequenas. O que sustenta isso? Claro, o desgaste histórico de ter um mesmo governo autoritário e marcado por poucas liberdades individuais e ampla censura de imprensa. Não se trata de apenas isso, entretanto, com outros dois aspectos.

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Crises e prisões

De uma das economias que mais crescia na Europa na primeira década do milênio, Belarus passa por crise econômica desde 2014, embora o país tenha boa qualidade de vida. Quando parecia que eles iam se recuperar, veio a crise do novo coronavírus, que foi tratada com total displicência por Lukashenko. No início da pandemia, ele disse que “não tinha vírus” no país e que, se alguém se sentisse mal, era só fazer sauna e tomar bastante vodka. Sim, essa foi a “receita de cura” dada por ele.

Oficialmente, foram 589 mortes nos últimos quatro meses. Além dos casos médicos e da crise econômica, a nova pandemia também intensificou a censura do governo e aumentou a insatisfação popular. E é difícil não responsabilizar diretamente o governante que ocupa o mesmo cargo desde 1994 e que receitou vodka como remédio, assim como pela situação econômica. Chegam as eleições e ela produz números claramente fraudulentos, junto de vários outros argumentos contra a transparência eleitoral.

O principal candidato opositor do governo, Siarhei Tsikhanouski, foi preso no fim de 2019 e sua esposa, Svetlana Tsikhanouskaya, tornou-se candidata e ficou em segundo lugar, com 10% dos votos. Outro líder da oposição, Viktar Babaryka, foi preso em junho. Na véspera da eleição, as duas coordenadoras da campanha de Svetlana também foram presas. Ao menos cem jornalistas foram presos nos últimos meses, comprometendo a cobertura das campanhas e da eleição em si.

Isso sem falar de evidências pontuais, como locais de votação sem garantia do anonimato, com cabines abertas, e até um vídeo que supostamente mostra uma funcionária eleitoral sumindo com uma urna eleitoral. Ou seja, temos agora a soma de um governo questionado por diversas questões com a acusação, com bons argumentos, de comprometer a lisura eleitoral. O resultado é a cobrança popular, que exige a renúncia de Alexander Lukashenko e a realização de novas eleições.

Importante lembrar que ambas as casas do legislativo são dominadas pela facção de Lukashenko, a maioria deles sem partido político, atrelados diretamente ao ditador. E o governo mantém que todas as prisões foram legais, por motivos legítimos, como recebimento de propina, e que os protestos são fruto de uma maquinação estrangeira. Segundo ele, pode ser atividade dos EUA, ou da Ucrânia, ou da União Europeia ou da Rússia. Só faltou a China para completar o bingo.

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Belarus e Ucrânia

Aqui começam as semelhanças e as diferenças da situação de Belarus em comparação com o que aconteceu na Ucrânia na última década. O que há de semelhante? Duas ex-repúblicas soviéticas que ainda estão tateando seu caminho rumo uma identidade nacional desvencilhada do passado protagonizado pela Rússia, seja com a URSS, seja no antigo império czarista. Segundo alguns linguistas, Rússia, Ucrânia e Belarus seriam as referências no título “Czar de Todas as Rússias”.

A Ucrânia como “Rússia menor”, no sentido grego da expressão, e Belarus como a “Rússia branca”. Outra semelhança é a posição geográfica, importantes no trânsito de bens, gás e petróleo entre a Rússia e o coração da Europa. Isso leva à diferentes percepções sociais, com alguns grupos defendendo maior proximidade com Moscou, outros priorizando Bruxelas. Finalmente, outra semelhança é o uso de símbolos considerados anti-Rússia pelos setores da oposição.

Na Ucrânia, manifestantes e alguns grupos usam bandeiras nacionalistas anteriormente usadas por colaboracionistas com a ocupação nazista, contra a Rússia e os “bolcheviques”, na terminologia da época. Isso gerou polêmica e denúncias inclusive no Brasil. Em Belarus, situação similar está ocorrendo, com o resgate da bandeira branca com a faixa vermelha símbolo dos “brancos” anti-bolcheviques pós-revolução de 1917 e também usadas pelos colaboracionistas pró-nazistas de 1943 a 1944.

O líder dos colaboradores, Radasłaŭ Astroŭski, fugiu disfarçado para os EUA, sabendo que, se ficasse em seu país, seria executado por traição. Seu governo ativamente participou do massacre de judeus e de civis acusados de auxiliar os partisanos da resistência. O mesmíssimo debate e as mesmas acusações certamente vão tomar parte das avaliações sobre os protestos. É aqui que as semelhanças acabam, com algumas distinções importantes. A primeira é a maior proximidade com a Rússia.

Rússia e Belarus possuem laços profundos. Na política, por exemplo, há o Tratado de União de 1999, que estabelece união aduaneira e um pacto de defesa coletiva. A cúpula das forças armadas de Belarus é pró-Moscou em quase sua totalidade, segundo o analista Mark Galeotti, autor de diversas obras sobre as forças armadas pós-soviéticas. Culturalmente, a maioria dos cidadãos de Belarus fala russo em seu cotidiano, não o idioma bielorruso, da mesma árvore linguística, mas distintos.

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O primeiro discurso de Lukashenko no idioma “natal” do país foi apenas em 2014, justamente no cenário de crise econômica, como uma forma de acenar para sentimentos nacionalistas. Se o nacionalismo ucraniano começa a ser criado logo na década de 1990, o caso de Belarus é mais complexo, com a identidade nacional se confundindo com a identidade russa. Economicamente, a Rússia é, de longe, o maior parceiro comercial e econômico de Belarus. Praticamente metade do comércio bielorrusso é com Moscou.

Profundos laços políticos, culturais e econômicos. Isso torna uma ruptura radical, como aconteceu na Ucrânia, mais improvável e, caso ocorra, com o risco de também ser violenta. Belarus estaria muito mais próxima do cenário do leste ucraniano, a região do Don, do que do conjunto do país. Outra distinção é a de que Belarus não vê os europeus com olhos tão atrativos assim, incluindo divergências históricas com os vizinhos Polônia e Lituânia, além de desconfiança sobre supostas “perdas de autonomia”.

Os dois membros da UE já dominaram a região de Belarus e, após a Segunda Guerra Mundial, a Polônia fez uma “troca” de territórios com a república soviética de Belarus. Em outras palavras, os nacionalistas poloneses reivindicam parte do território bielorrusso. Cerca de 3% da população de Belarus é de origem polonesa, muitas vezes vistos com desconfiança. A oposicionista Sviatlana Tsikhanouskaya, inclusive, temendo ser presa, teria fugido para a vizinha Lituânia.

Para onde Lukashenko pode ir?

Chega-se então na posição de Lukashenko, que está numa encruzilhada, com cinco abordagens possíveis, que podem se relacionar entre si. A primeira abordagem interna é a de botar mais forças armadas na rua e esmagar os protestos com violência, como em 2017. Assim, consolida ainda mais sua posição de poder, às custas de legitimidade e de prestígio popular, incluindo os setores que ainda o apoiam. Outro risco é fornecer argumentos para uma radicalização da oposição.

Claro, sobra o maior risco: ser derrotado nessa queda de braço e ficar sem nada. A segunda abordagem interna é sentar com a oposição e chegar em um acordo. Novas eleições? Um governo de transição? Reformas políticas? Claro, tudo muito vago nesse momento, mas é uma possibilidade. O risco para ele é parecer fraco ou perder algum fiador internacional. Ainda, isso ser visto com desconfiança por Moscou, que poderia agir para garantir seus interesses, passando por cima de Lukashenko.

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Em relação ao mundo exterior, ele tem três caminhos. O nacionalismo, a Rússia ou o Ocidente. A primeira abordagem poderia ser usada para apaziguar os ânimos internos. O autocrata que ainda aparece publicamente fardado como marechal, uma patente auto-concedida, poderia apelar para a identidade bielorrussa como forma de rejeitar tanto o Ocidente quanto a Rússia. Cinicamente, reprimir os protestos para “salvar” a independência do país. Ou sentar com a oposição para evitar uma mediação internacional.

A Rússia é o caminho mais óbvio, com apoio de seu aliado Putin, que evitaria a perda de influência em uma região estratégica e por onde passam diversos gasodutos e oleodutos que ligam o país ao centro europeu. A Rússia já teve que contornar a Ucrânia após-2014 e não teria fôlego para construir novos dutos. A influência russa, entretanto, é uma lâmina de dois gumes. Ela pode se fazer presente mesmo sem a anuência de Lukashenko, vide o recente episódio da suposta presença de agentes russos nos protestos.

A influência ocidental também é uma lâmina de dois gumes, sem ilusões. Tirar Lukashenko, uma “herança soviética”, de cena, seria ótimo para a imagem de um novo governo bielorrusso com apoio ocidental, mesmo que ele aceite ceder. Uma hora ele deixaria de ser interessante. Além disso, uma maior aproximação de Belarus com a Europa ou com os EUA nesse momento, entretanto, é mais improvável. Ao menos, está enfraquecida, já que, tanto UE quanto os EUA passam por crises econômicas devido o novo coronavírus.

Ambos não teriam como compensar por uma distensão nas relações com a Rússia. Trump enfrentará eleições e suas relações com o “mundo russo” são sempre cerne de polêmica na imprensa de seu país. A Europa está longe de ter uma posição unânime em comprar mais uma briga. A Rússia não vai abandonar Lukashenko e muito menos abandonar Belarus facilmente, e também não vai deixar ele abandonar Moscou. O coronavírus permanece e a economia continua em baixa.

A imagem do autocrata está desgastada. Cabe ao mais antigo chefe de governo de toda a Europa avaliar sua posição e pesar seus próximos movimentos, que podem ser delicados. Mesmo que ele tenha sucesso em manter sua posição, seja pela repressão ou pela cooperação, serve de alerta para os anos vindouros, para ele, seu país e para o restante do mundo pós-soviético, tão frequente por aqui. Lukashenko precisa entender que depois de um tempo, a fraude e a repressão não produzem mais resultado.

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