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Presidente dos EUA, Joe Biden| Foto: Oliver Contreras-Pool/Getty Images/AFP

Apenas os ingênuos podem se dizer decepcionados com a postura do novo governo Joe Biden em relação aos sauditas. Na última semana, Washington publicou o relatório da CIA produzido quando do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, em outubro de 2018. Muitos esperavam que Biden cumprisse sua promessa de campanha, de fazer os sauditas “se sentirem como os párias que são”. As ações de seu governo não foram nem perto disso, mas só os muito crédulos podem se dizer desiludidos.

O relatório confirma as denúncias e especulações dos últimos anos: o jornalista foi intencionalmente atraído para o consulado saudita em Istambul, onde foi torturado e assassinado. A operação foi realizada por uma equipe de quinze agentes sauditas, todos da Força de Intervenção Rápida, grupo subordinado diretamente ao príncipe Mohammed bin Salman, herdeiro do trono saudita e, na prática, mandatário do país. Devido a repercussão, parte da equipe foi “julgada” na Arábia Saudita, com cinco condenados à morte.

A publicação do relatório foi acompanhada de muita expectativa. Seria a guinada radical prometida por Biden, contra a “inação” de Trump? O documento seria acompanhado de sanções, denúncias, críticas pesadas? O primeiro sinal de que isso não aconteceria foi o fato de que Biden falou ao telefone com o rei Salman bin Saud no dia anterior da publicação. Uma ligação já para colocar panos quentes na possível polêmica e antecipar o que ocorreria. Longe de ser uma grande reprimenda.

Veio a publicação e o anúncio de sanções pelo governo dos EUA. O ex-vice-chefe da inteligência saudita, Ahmed al-Asiri, e os integrantes da FIR estão sob sanções do Departamento do Tesouro. Outros setenta e seis agentes sauditas estão banidos de entrarem nos EUA. E acabou por aí. Nada contra o mandante do crime, o príncipe. Nada contra o governo saudita. Sanções contra o “ex-vice-chefe” chegam ao nível de comédia, talvez fosse melhor não anunciar nada.

É interessante lembrar que não se trata apenas de punir um governo totalitário por uma clara violação de direitos humanos básicos, mas também dos fatos de que Khashoggi trabalhava para uma empresa dos EUA, o Washington Post, e, de seus quatro filhos, dois possuem dupla cidadania, sendo naturalizados nos EUA. O óbvio, entretanto, aconteceu. O realismo e o pragmatismo das relações entre EUA e sauditas falaram mais alto. Relações muito próximas, e lucrativas, para serem postas em risco por “apenas” um jornalista.

Interesses em primeiro lugar

Relações entre Estados são amorais. Tucídides, o primeiro historiador do chamado ocidente, já avisou isso mais de dois mil anos atrás. Hans Morgenthau lembrou dessa máxima algumas décadas atrás. Isso não quer dizer imorais ou antiéticas, mas que temas morais não fazem parte da equação das relações entre dois Estados. Ou, ao menos, não são suficientes. Condenar moralmente os sauditas é “fácil”, difícil é romper os laços econômicos e políticos.

O governo Biden, via sua porta-voz, alegou que a intenção não é se afastar dos sauditas, e que manter uma boa relação com o príncipe é importante para manter abertas portas de diálogos futuros. Balela. As relações entre Washington e Riade, formalizadas ainda na década de 1930, são estratégicas para os EUA desde a década de 1950. E o histórico contraditório dessa relação é seminal para diversas atuais crises na região do Oriente Médio, muitas vezes, de maneira simplista, tidas como “históricas”.

Esse histórico, entretanto, é outro tópico, para outro texto. O fato é que são dezenas de bilhões de dólares em comércio, incluindo a importação de dez bilhões de dólares em petróleo bruto pelos EUA em 2019, antes da pandemia. Outra fatia desse comércio é o mercado armamentista, com os sauditas como um dos maiores compradores de armas do mundo e os EUA como um dos maiores fornecedores no mercado. Em 2017, Donald Trump apresentou um pacote que significava até 110 bilhões de dólares em compras sauditas.

Sauditas e chineses

Sanções mais rígidas ou até mesmo um rompimento com os sauditas teriam outro efeito no mundo de hoje. Além dos prejuízos econômicos, jogaria os sauditas no colo de outros fornecedores. Os sauditas possuem caças anglo-alemães, navios franceses, armamentos leves russos e espanhóis, dentre outros. No mês passado, a International Defense Exhibition and Conference, em Abu Dhabi, movimentou bilhões de dólares em armamentos, com delegações sauditas recebendo bastante atenção.

Especialmente da China, que, sendo eles alvos de sanções armamentistas europeias, não fazem perguntas ou impõe condições antes de exportar. Ou seja, estariam dispostos a conquistar uma fatia do orçamento bélico saudita. Um momento bastante propício, com o recente anúncio de voos diários entre a China e o país árabe. Fornecimento de armas, de munições, de peças sobressalentes, tudo isso está na mesa. E essa relação não é nova e não é de hoje que tem se intensificado.

A Arábia Saudita possui mísseis balísticos de médio alcance comprados da China nos anos 1980 e, mais recentemente, em 2013; essa última é especulada. No ano passado, a cooperação nuclear sino-saudita foi intensificada, com a compra de tecnologia nuclear chinesa pelo reino árabe, para a construção de até dezesseis reatores para geração de energia. Em 2019, as marinhas dos dois países realizaram exercícios conjuntos, no contexto da expansão da presença chinesa no Mar Vermelho.

Uma reprimenda firme pelo governo Joe Biden significaria perdas geopolíticas que o país não pode arcar. O discurso moral contra uma ditadura violenta pelo candidato Joe Biden é apropriado, sem dúvidas, mas dificilmente se tornará algo concreto pela caneta do presidente Joe Biden. E, mesmo que fosse outro governante, não seria tão diferente. O novo governo em Washington vai mudar o tom em relação ao governo anterior, mas não o conteúdo. Esse não sofrerá guinadas radicais, seja isso bom ou ruim.

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