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Presidente dos EUA, Donald Trump, e o candidato presidencial democrata Joe Biden| Foto: AFP

É oficial. Joe Biden será o adversário de Donald Trump nas eleições presidenciais de novembro. Após a boca de urna das primárias democratas em Wisconsin, Bernie Sanders abriu mão de sua campanha, concedendo a nomeação. A boca de urna se provou correta, já que Joe Biden levou 58 delegados do estado, contra 13 do agora ex-candidato Sanders. Ainda faltam sete meses para as eleições, mas alguns aspectos chave já se apresentam.

O primeiro fator é, obviamente, a pandemia do novo coronavírus. Alguns mais apressados falam até no adiamento das eleições. Hoje, em abril, isso soa improvável. Não é uma ideia absurda, apenas improvável. Mais de quarenta eleições já foram adiadas pelo mundo por causa da pandemia, incluindo o plebiscito sobre a constituição chilena e eleições nacionais na Bolívia, na Sérvia e na Macedônia do Norte.

Eleições e o coronavírus

No caso dos EUA, dois fatores tornam improvável. Um deles é o tempo até o pleito. Nos próximos sete meses muita água pode correr em relação ao novo coronavírus, seja nos EUA, seja em relação aos possíveis tratamentos. O outro é a tradição eleitoral dos EUA. O país realizou um pleito em meio a guerra civil, em 1864. Tradição não é apenas uma propaganda; adiar as eleições representa um choque cultural e enorme custo político.

Um esclarecimento importante é que essa decisão seria do Congresso, não da presidência. Não basta uma caneta, são necessárias centenas de canetas. Ainda sobra a questão de como as eleições serão realizadas, caso aglomerações ainda não sejam medicamente aconselhadas. Nas primárias democratas no Alasca, realizadas no último final de semana, os eleitores votaram pelo correio.

Parece uma boa solução, que conta com um precedente em 33 estados. Ainda assim, foram menos de vinte mil votos na primária democrata do Alasca. A eleição nacional pode ter mais de duzentos milhões de votos, uma logística bem mais complicada para garantir um voto tranquilo e secreto, com uma apuração transparente. E discussões nesse sentido certamente já estão ocorrendo.

Em 6 de abril, Donald Trump e Joe Biden conversaram ao telefone por cerca de quinze minutos. Ambos classificaram a conversa como muito produtiva e cordial. Um evento desses não é comum, do atual presidente conversar com o seu provável opositor por fora de meios oficiais. Não é nenhum escândalo também, deixe-se claro. E é razoável pensar que ambos conversaram sobre a pandemia e as futuras eleições.

Joe Biden, inclusive, já ventilou mais de uma vez o desejo de realizar uma “convenção virtual” do partido democrata, longe do modelo de showmício que é regra das convenções de ambos os partidos. Em 2016, foram cerca de cinquenta mil pessoas na convenção democrata no principal ginásio esportivo da Filadélfia, sede de jogos das ligas profissionais de hóquei no gelo e de basquete.

A ideia de Biden gira em torno da presença apenas dos delegados e de alguma forma de transmissão interativa para os apoiadores do partido. Isso evitaria aglomerações. E, segundo Trump, evitaria a exposição de Joe Biden. O presidente acusa seu rival de ser um fujão e de que ele não aguenta o escrutínio e a exposição ao público. Ataque eleitoral? Sim. Ao estilo de Trump? Também. Falsidade? Não.

Quem votará em Joe Biden?

Biden terá um enorme desafio pela frente: angariar os eleitores de Bernie Sanders. Sim, o senador por Vermont declarou seu apoio ao ex-vice-presidente. Junto com o apoio público, pediu que os jovens se engajem na política e votem em Biden, para tirar Trump da Casa Branca. Só que talvez isso não seja suficiente para demover os “Bernie Bros” de que seu candidato foi boicotado pelo próprio partido.

Primeiro, pois existem provas documentais de que isso ocorreu em 2016. Segundo, a virada de Joe Biden, o nome favorito do estamento democrata, foi enorme, contando com os apoios e desistências de diversos outros candidatos. O que Biden pode fazer para tirar esse eleitor de casa? Pior, com as próprias campanhas eleitorais comprometidas pelo novo coronavírus. Sem comícios, sem grandiosas aparições públicas.

Necessário lembrar que, enquanto isso afeta Biden, Trump, como presidente do país, está toda hora no noticiário, ainda mais com seus briefings diários sobre o novo coronavírus. Restam as redes sociais, alguém pode argumentar. Sem dúvida alguma. E a simpatia angariada por Joe Biden nas redes sociais, especialmente perante o eleitorado jovem, é a mesma de uma batata.

O mais curioso é que, de fato, Biden tem um histórico de ativismo, mas de quarenta anos atrás. Isso pouco importa para os eleitores nascidos pós-Onze de Setembro que votarão para presidente pela primeira vez. Os focos dos eleitores abaixo dos vinte e cinco anos de idade são postos de trabalho, sistema de saúde e o fim da guerra permanente que afeta o país por vinte anos.

No primeiro caso, Joe Biden está em boa posição nas primárias em distritos blue collar, operários. A terceira pauta? Joe Biden tem histórico de defender uma política externa menos beligerante, mas ele foi vice de Obama, tempos de Líbia, Síria, bin Laden. A segunda pauta, desnecessário dizer, é sinônimo de Bernie Sanders. E ainda voltaram aos holofotes denúncias de assédio sexual contra Biden.

Vírus e a vice

Ou seja, Biden precisa construir uma imagem para ir além do estamento democrata, mas não tem muitas armas para conseguir dar esse passo. Uma das arenas eleitorais, infelizmente e realisticamente, será a própria resposta ao novo coronavírus. Se o governo federal de Trump conseguir uma resposta satisfatória, pontos para ele. Se não conseguir, perde pontos. Numa eleição, isso significa pontos para o oponente.

Já o símbolo democrata nessa luta será o governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo. Se ele tiver sucesso, Joe Biden ficará colado nele. Caso contrário, sabemos como é a política partidária. Restará, então, uma arma para Joe Biden – um tiro que, se certeiro, pode ajudar bastante sua campanha. Trata-se da escolha do vice-candidato de sua chapa, que ainda está indefinida e precisa ser feita logo, para injetar gás em sua campanha.

Mais especificamente, sua vice-candidata. Cinco nomes giram na imprensa dos EUA. Entrando na análise da conjuntura, entretanto, não deveria ter tanta discussão. O nome deveria ser Kamala Harris, senadora pela Califórnia e ex-candidata à Casa Branca. Um dos fatores que afeta uma eleição é a demográfica. Com o perdão da redundância, em uma democracia representante, os eleitores querem se sentir representados.

Essa representação pode vir por valores em comuns, por bandeiras, por identificação pessoal, por carisma, por trajetória, por demografia. Joe Biden é um homem branco de 77 anos de uma família tradicional da Pensilvânia; um de seus bisavôs chegou a ter carreira política. Kamala Harris é uma mulher negra jovem filha de imigrantes; aos 55 anos, ela é da primeira geração da família nascida nos EUA. American Dream puro.

Ambos se complementam demograficamente, ainda mais em uma sociedade marcada por temas raciais como são os países de passado escravista da América. Se Joe Biden escolher outro nome que não Kamala Harris, pode complicar ainda mais sua situação, que já não é fácil. Importante lembrar que, ao menos hoje, Trump é o favorito e que o maior aliado eleitoral de Joe Biden é inominável, um vírus que consome vidas e economias.

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