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Nelson Mandela e Frederik Willem de Klerk conversam em Pretoria, África do Sul, 4 de fevereiro de 2010. O ex-presidente sul-africano de Klerk morreu na quinta-feira (11 de novembro), aos 85 anos
Nelson Mandela e Frederik Willem de Klerk conversam em Pretoria, África do Sul, 4 de fevereiro de 2010. O ex-presidente sul-africano de Klerk morreu na quinta-feira (11 de novembro), aos 85 anos| Foto: EFE/EPA/STR

Faleceu Frederik Willem de Klerk, último presidente da África do Sul do apartheid. Ele morreu na última quinta-feira, dia 11, aos 85 anos de idade, em decorrência de um câncer. Ele e Nelson Mandela dividiram o Nobel da Paz de 1993, laureados pelo acordo que encerrou a ditadura racista sul-africana. Algo menos conhecido sobre de Klerk é que foi sob seu regime que ocorreu um evento único na História até o presente momento: um país abriu mão voluntariamente de seu arsenal nuclear.

A imagem do mais recente presidente branco da África do Sul é mais positiva no exterior do que em seu país, característica que ele divide com outros líderes, como Mikhail Gorbachev. O mundo enxerga de Klerk como alguém que teve a coragem e a visão de romper com as estruturas políticas que o sustentavam e encerrar a ditadura racista de seu país, que vivia sob pressão internacional e boicotes. Essa visão possui méritos cristalinos, mas não é unanimidade dentro da África do Sul.

Para parte da população branca, os mais radicais, ele foi um traidor. Não há outra palavra. Ele seria culpado por abandonar a estrutura supremacista e autoritária que o levou ao poder e ter dissolvido a pátria d’O Chamado, o hino nacional africâner. Uma nova bandeira, multicolorida, um novo hino nacional e o progressivo fim das instituições racistas, tudo isso seria “culpa” dele. Principalmente, o voto da população “inferior” negra, incluindo a eleição do “terrorista” Nelson Mandela, tema já abordado em nosso espaço.

Para parte da população negra, especialmente os mais jovens, ele só fez “sua obrigação” e agiu apenas devido à pressão internacional. Mesmo assim, seus esforços teriam sido intencionalmente insuficientes, pouco fazendo para evitar a violência da transição democrática. Supostamente, dizem algumas teorias mais conspiratórias, o regime esperava que a violência comunal escalasse, justificando uma “intervenção militar” e o fim do diálogo entre o governo racista e os movimentos negros.

Coragem

O uso do termo “racista” pode parecer repetitivo, mas é a principal característica daquele regime, em todos seus níveis. Os locais onde você poderia frequentar, andar, trabalhar e até mesmo com quem você poderia se casar eram definidos baseados na cor da pele da pessoa que, por sua vez, tinha implicâncias de “teorias” raciais pseudocientíficas. A população nativa sofreu violências descomunais em nome de um projeto de país que mais se assemelhava à Alemanha nazista do que à qualquer outro governo.

Quando se comenta a vida de uma pessoa de tamanha relevância política, é sempre importante lembrar que fala-se de seres humanos, não de santos. Ou seja, de Klerk, como todos nós, era uma pessoa limitada por suas ideias, seus tempos, suas virtudes e seus vícios. Isso não anula que de fato ele foi um homem de coragem. E, de certo modo, não importa o que esse colunista, o leitor ou outras pessoas possam achar. Quem o classificou como um homem de coragem foi justamente Mandela.

"Você demonstrou uma coragem que poucos tiveram em circunstâncias semelhantes", disse Mandela em 2006. São palavras de uma pessoa que ficou quase trinta anos presa em regime de trabalhos forçados pelo mesmo regime do apartheid. Poucas coisas podem sobressair ao fato de um inimigo enxergar o valor de seu adversário. Curiosamente, dizer que de Klerk foi líder de um regime autoritário e racista e que foi uma pessoa de coragem nas circunstâncias impostas a ele não são frases que se contradizem.

No período, de Klerk lamentou e pediu desculpas pela existência daquele regime. Agora, em sua morte, sua família publicou um vídeo póstumo em que ele novamente pede desculpas. "Eu, sem reservas, peço perdão pela dor, mágoas, indignidade e feridas que o apartheid causou a negros, pardos e indianos na África do Sul.", numa tradução livre. Provavelmente, sentindo que o fim natural da vida se aproximava, de Klerk gravou o vídeo e instruiu os familiares a divulgarem apenas depois de sua morte.

Armas nucleares

Em 1979 a África do Sul era governada pelo supremacista Pieter Willem Botha. Ele governou o país de 1978 a 1989, o imediato antecessor de de Klerk. Também foi ministro da Defesa de 1966 a 1981. Se uma pessoa pode acusar de Klerk de ter defeitos, Botha os tinha em abundância e em ordens muito maiores de magnitude. Radicalmente e ostensivamente racista, ele foi um dos primeiros que denunciou de Klerk como um traidor da pátria branca sul-africana. Morreu em 2006 sem nunca aceitar o fim do apartheid.

Para Botha, a África do Sul enfrentava uma situação idêntica à de Israel: um país cercado por inimigos. No caso, a população africana negra e os regimes socialistas de Angola e de Moçambique. Guerras regionais eram travadas onde hoje são a Namíbia, então uma colônia sul-africana, o Zimbábue, então sob um regime racista com o nome de Rodésia, e a Zâmbia, que se tornou independente ainda como Rodésia do Norte. Uma mistura de racismo com Guerra Fria entre grupos socialistas e grupos pró-Reino Unido.

A África do Sul precisava, então, buscar os mesmos meios de garantir sua sobrevivência, tal como Israel. Leia-se, uma indústria bélica nativa e a dissuasão nuclear. Por uma série de motivos, a indústria militar sul-africana não floresceu da mesma maneira que a israelense, mas, em 1979, uma explosão nuclear foi detectada no oceano Índico. O chamado Incidente de Vela é a única detonação nuclear sem um responsável declarado, embora seja claro e evidente que foi um teste nuclear sul-africano.

Com cooperação israelense, a África do Sul fabricou ao menos seis ogivas nucleares entre 1979 e 1988. O plano de dissuasão consistia em duas etapas. Primeiro, em caso de guerra iminente com algum país vizinho, a África do Sul realizaria um teste nuclear ostensivo no deserto de Calaári, em um local previamente preparado, muito similar ao que existia na Serra do Cachimbo, no Brasil. O propósito seria dissuadir o inimigo da guerra ou, então, atrair uma intervenção de um aliado, como os EUA.

Fim de um arsenal

Caso o teste não fosse suficiente, um bombardeio convencional poderia usar uma ogiva contra uma cidade inimiga. Não havia a necessidade de desenvolver mísseis balísticos, já que os alvos eram países vizinhos. Ainda assim, a África do Sul chegou a testar alguns projéteis rudimentares, um desperdício de recursos. Em 1988, entretanto, o país assinou a paz com Angola e sua principal aliada, Cuba. No ano seguinte, de Klerk chegou ao poder e determinou o fim do programa nuclear bélico sul-africano.

A África do Sul tornou-se parte do Tratado de Não-Proliferação Nuclear já em 1991, entregou todas suas ogivas para a Agência Internacional de Energia Atômica e aceitou inspeções. Em 1994, quando são realizadas as primeiras eleições democráticas, o programa nuclear sul-africano já era passado. Foi o único país que voluntariamente abriu mão de seu arsenal na História. Outros três, Ucrânia, Belarus e Cazaquistão, além de sofrer pressão, não teriam recursos para gerenciar suas parcelas herdadas do arsenal soviético.

Méritos ao pacifista de Klerk, então? Talvez não. O racismo, curiosamente, fez parte do cálculo que levou a decisão de encerrar o programa nuclear sul-africano. Parte do estamento do apartheid não desejava ver um “governo negro” com armas nucleares, temendo inclusive que tais ogivas pudessem parar em mãos vizinhas. Um deles foi Andreas Liebenberg, um dos últimos comandantes das forças de defesa sul-africanas. A visão racial e a visão nacional se nublavam mais do que é imaginado.

Em entrevistas, de Klerk admitiu esse tipo de pressão mas, segundo ele, não foi parte de sua decisão. Ele também afirma que alguns militares o pressionaram no sentido contrário, o de não abrir mão do arsenal nuclear. Salvo ele tenha deixado memórias e documentos com seus familiares para serem publicados após seu falecimento, ainda demoraremos para saber tudo o que ocorreu naquele período atribulado, em que ele capitaneou seu país em águas turbulentas, que dificilmente seriam navegáveis por uma pessoa qualquer.

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