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Fotos históricas de prisioneiros de guerra Ovaherero e Nama em campos de concentração, em exposição no museu na Namíbia
Fotos históricas de prisioneiros de guerra Ovaherero e Nama em campos de concentração, em exposição no museu na Namíbia| Foto: Reprodução/Flickr/Raymond June

No último dia 28 de maio, o governo alemão reconheceu oficialmente que as políticas coloniais do Estado na atual Namíbia foram um genocídio. A declaração do governo alemão é importante por vários motivos, assim como são vários os pontos que merecem certa reflexão. Especialmente, a pouco debatida e muitas vezes negada ligação direta entre o imperialismo na África e o nazismo.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, afirmou que "agora vamos nos referir oficialmente a esses eventos como o que são da perspectiva de hoje: genocídio" e que "à luz da responsabilidade histórica e moral da Alemanha, pediremos perdão à Namíbia e aos descendentes das vítimas". Esse é mais "um passo na direção certa", disse o governo da Namíbia, no que é um processo corrente.

As pressões e negociações pelo reconhecimento já duram quase dez anos. Outro passo importante foi dado em agosto de 2018, quando a Alemanha devolveu os restos mortais de diversos líderes locais à Namíbia. Eles estavam armazenados na Alemanha por terem sido utilizados em pesquisas, muitas delas com componentes racistas, para comprovar a suposta superioridade do homem branco, como veremos mais à frente.

Guerra ou extermínio?

Do que se trata esse genocídio, entretanto? Entre 1884 e 1915, o que hoje é a Namíbia fazia parte do império colonial alemão, como Sudoeste Africano Alemão. No desértico território local, terras férteis e o gado são essenciais para qualquer habitação e colonização. Por isso, os alemães progressivamente expulsaram os nativos de suas terras. Privados dos meios de subsistência, os herero e os nama se rebelaram em 1904.

Por quase quatro anos, as políticas genocidas da administração colonial alemã não apenas derrotaram esses povos em batalha, mas executaram prisioneiros, violentaram as mulheres, os expulsaram para o deserto e confinaram os pouco restantes em campos de trabalhos forçados para construírem ferrovias e minerarem o rico solo da Namíbia até a morte, por exaustão ou maus tratos.

Entre 1904 e 1908 foram cerca de cem mil mortos. O número parece pequeno quando comparado com as cifras da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, mas cerca de 80% a 90% desses povos foram exterminados. O caráter genocida e intencional da empreitada fica nítido nas ordens do general alemão Lothar von Trotha, comandante das forças europeias, as Vernichtungsbefehl, literalmente "ordens de exterminação".

O genocídio cometido pelos alemães na atual Namíbia é importantíssimo também por ser uma "prévia" das políticas nazistas que ocorreriam décadas depois. Sim, as potências imperiais europeias cometeram crimes horrendos em diversos de seus domínios, e vários podem ser debatidos como genocidas. No caso do extermínio dos herero e dos nama, entretanto, a linha é contínua, ininterrupta.

Começando pelo próprio von Trotha, um criminoso que foi elevado à heroi de guerra pelos nazistas por pura conveniência. Ele, que via seus atos como uma gloriosa guerra de conquista contra selvagens sequer humanos, foi para a reserva em 1910 e não lutou na Grande Guerra. Por outro lado, um dos principais líderes militares do império alemão lutou na África, e saiu invicto.

Na Tanzânia, na outra costa africana, as forças alemãs na África oriental eram comandadas por Paul von Lettow-Vorbeck, que recebeu diversas honrarias militares e reconhecimento dos aliados. Com suas táticas de guerrilha, ali foi o único lugar onde os alemães não foram derrotados na Grande Guerra. O “Leão da África”, entretanto, não estava interessado em ser um herói para o regime nazista. Mandou Hitler se ferrar, mas com outra palavra com F.

Nazismo

Sim, isso é literal, não é hipérbole, relatado por mais de uma fonte. Lettow-Vorbeck foi colocado sob vigilância pelos nazistas e, para eclipsá-lo, o regime consagrou von Trotha como o herói africano. Além disso, ideologicamente, o nazismo via a violência colonial na atual Namíbia como uma "prova" da "superioridade" do homem branco. Os eventos também legitimavam ambições imperialistas alemãs.

Hitler e os nazistas não estavam interessados em posses africanas, mas alguns setores da sociedade alemã estavam, especialmente os monarquistas. E a maioria desses setores apoiou a ascensão nazista, supostamente para conter o comunismo. Evocar o efêmero império colonial alemão na África servia então para jogar com ânimos e questões raciais, questões políticas e também nacionalistas e militares.

Outra ligação direta entre o genocídio na Namíbia e o nazismo, talvez a mais contundente, é a das pesquisas médicas racistas e eugênicas. Claro que, para propósitos dessa coluna, precisamos ser breves, mas, caso o leitor deseje se aprofundar, o livro Kaiser’s Holocaust é uma boa pedida. A Namíbia foi essencial para os trabalhos do médico e antropólogo Eugen Fischer, um dos pilares ideológicos do nazismo.

Na África, ele usou cobaias humanas e restos mortais de herero executados. Coletou partes de cadáveres, especialmente crânios. “Concluiu” que o europeu era superior ao africano e que a miscigenação deveria ser proibida, ao estudar os basters, “bastardos”, filhos de homens europeus com mulheres africanas. É possível que o leitor não conheça o nome de Eugen Fischer especificamente, mas conhece seu legado.

Ele foi um dos consultores para a formulação das Leis de Nuremberg, de 1935, que oficializaram o racismo na Alemanha nazista e abriram caminho para a perseguição de judeus. Como diretor do Instituto Kaiser Wilhelm de Antropologia, Hereditariedade e Eugenia, incentivou programas de aniquilação de pessoas com deficiências e, dentre seus alunos, está o infame Josef Mengele, o “anjo da morte” que morreu no Brasil.

Foi pisando nos cadáveres de dezenas de milhares de nativos da Namíbia que ideias nazistas ganharam ares de legitimidade e de verdade objetiva, contribuindo para a formalização do regime mais abjeto da História humana contemporânea. A “expertise” para a logística dos campos de trabalhos forçados e dos campos de extermínio construídos pelos nazistas começa na Namíbia, em Haifischinsel.

Indenização?

Uma questão, entretanto, ainda permanecerá. A de possíveis indenizações, como também citamos quando tratamos do reconhecimento do Genocídio Armênio pelo governo dos EUA. Heiko Maas afirmou que "queremos apoiar a Namíbia e os descendentes das vítimas com um programa substancial de 1,1 bilhão de euros para reconstrução e desenvolvimento", mas "reivindicações legais de compensação não podem ser derivadas disso".

Ou seja, o apoio seria desvinculado do pedido de desculpas e do reconhecimento do genocídio. O que explica? Evitar a criação de um precedente. Por exemplo, se o Congo decidir formalizar uma conta de indenização para a Bélgica, os belgas precisariam de um ano inteiro de seu PIB para isso. E não é mera "dívida histórica". São eventos recentes, a exploração de vidas, de terras e do trabalho de pessoas sem nenhuma remuneração.

No caso particular da Alemanha, existe o temor de indenizações pelos crimes nazistas, como a cobrada pela Grécia. Outro interesse alemão nisso tudo é realizar um ato de maior aproximação entre a ex-metrópole e um país com abundância de riqueza mineral em seu solo. Finalmente, impossível ignorar o fato de que, por anos, foram os namibianos, os descendentes das vítimas, que pressionaram por esse justo reconhecimento. É necessário lembrar para evitar que se repita.

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