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Jovens refugiados sírios em Istambul, na Turquia, em foto de 19 de setembro de 2021
Jovens refugiados sírios em Istambul, na Turquia, em foto de 19 de setembro de 2021: com suas famílias e vidas destruídas pela guerra, resta servir como mercenários extra-oficiais recrutados por governos| Foto: EFE/EPA/SEDAT SUNA

Infelizmente, a invasão russa da Ucrânia segue sendo o assunto protagonista do nosso espaço de política internacional. Dentre os vários desdobramentos e notícias dos últimos dias, duas terão uma análise mais detalhada neste nosso texto. Primeiro, a confirmação por Vladimir Putin de que a Rússia pretende enviar dezesseis mil soldados do Oriente Médio para a guerra na Ucrânia. Segundo, as fracassadas negociações que ocorreram na Turquia, entre russos e ucranianos.

Isso não significa, é claro, que essas foram as únicas novidades e conjecturas dos últimos dias. Por exemplo, a Ucrânia não receberá os aviões de combate oferecidos pela Polônia e por outros países do leste europeu. Pilotos ucranianos já teriam visitado a Polônia e o negócio seria triangular: os Migs poloneses seriam cedidos para a Ucrânia, e a Polônia receberia caças F-16 da reserva dos EUA como substitutos. O governo de Washington, entretanto, vetou o negócio.

Primeiro, o governo dos EUA não quer correr o risco de ser acusado de uma escalada ainda maior no conflito. Segundo, os aviões poloneses precisariam ser "des-OTANizados", com a retirada de sensores e de equipamentos de comunicação padrões da aliança da OTAN. Isso envolveria mão de obra especializada e custos para equipamentos substitutos, em um trabalho que não seria concluído em curto prazo. Quem cobriria os custos? Por outro lado, analistas militares comentam que o ideal para a Ucrânia não é receber aviões, mas sistemas de defesa antiaérea. Coisa que os EUA podem prover.

Soldados sírios

Na manhã dessa sexta-feira, algumas horas antes da publicação dessa coluna, o presidente russo, Vladimir Putin, anunciou que dezesseis mil voluntários do Oriente Médio estão prontos para lutar pela Rússia na Ucrânia. O ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, disse que “conhecemos muitos desses voluntários, eles ajudaram na luta contra o Daesh (o grupo extremista conhecido como Estado Islâmico) durante os últimos dez anos”. Segundo o governo russo, seriam iraquianos, iranianos e, principalmente, sírios.

Alguns dias atrás escrevemos aqui que o uso russo de soldados chechenos na Ucrânia poderia ser explicado tanto pela falta de combatividade entre soldados russos quanto para evitar baixas entre russos étnicos. Os mesmos fatores também podem explicar esse recrutamento de sírios e outros nacionais do Oriente Médio, que serão equipados e uniformizados pela Rússia. “Precisamos dar a elas o que elas querem e ajudá-las a chegar à zona de conflito", disse Putin, para manter a ideia de que são voluntários, algum tipo de idealismo, e não mercenários.

Além dos motivos do recrutamento, é uma triste constatação do que aconteceu com a Síria. O país destruído por dez anos de guerra tornou-se um provedor de jovens com experiência militar. Muitos com suas famílias e vidas destruídas pela guerra. Resta servir como mercenários extra-oficiais recrutados por governos. A Turquia utilizou tropas sírias na guerra da Líbia e, muito provavelmente, “forneceu” essas mesmas tropas para seu aliado Azerbaijão utilizar na guerra contra a Armênia.

Também é importante calcular além do curto-prazo. Do lado russo, temos dezesseis mil combatentes do Oriente Médio. Do lado ucraniano, outros vinte mil estrangeiros, de diversos países, inclusive brasileiros. Esses combatentes estrangeiros serão padronizados em unidades de combate legítimas ou correm o risco de não serem protegidos como prisioneiros de guerra? E depois do conflito, o que será desses homens? Teremos uma política para desmobilização e desarmamento dessas unidades ou a Ucrânia será um nascedouro de milícias e grupos mercenários?

Negociações fracassadas

Já na manhã da última quinta-feira tivemos os encontros dos ministros de Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, e da Ucrânia, Dmytro Kuleba, na Turquia, mediados pelo seu homólogo turco, Mevlüt Çavusoglu. Foi o primeiro encontro entre os ministros desde a invasão e falamos dos prospectos desse encontro na mais recente coluna. Além do encontro tripartite tivemos também dois encontros bilaterais, primeiro entre Ucrânia e Turquia e, depois, entre Rússia e Turquia.

A Rússia possuía como demandas o “cessar toda atividade militar” por parte da Ucrânia, o reconhecimento da Crimeia como território russo, a independência dos oblasts separatistas de Luhansk e de Donetsk e, finalmente, que a Ucrânia promova uma alteração da sua constituição que rejeite a “entrada em qualquer bloco”. Não existia menção explícita à “desmilitarização” ou “desnazificação” utilizadas como justificativa por Putin em seu discurso anunciando a invasão da Ucrânia.

O governo turco possui diversos interesses em moderar a situação. Trata-se de uma guerra na sua região, que afeta o importante Mar Negro. O conflito envolve dois de seus mais importantes parceiros. A Ucrânia possui um acordo de livre-comércio com a Turquia, enquanto a Rússia possui diversos projetos de infraestrutura na Turquia, como gasodutos e a construção de usinas nucleares. A Turquia também possui laços históricos com a Crimeia, antiga posse otomana e onde parte da população é tártara, um povo túrquico.

Finalmente, a questão do prestígio. Sair dessa crise como o governo responsável pela paz pode trazer frutos para a Turquia, um país sob algumas sanções dos EUA. As conversas, entretanto, foram um fracasso. Kuleba acusou Lavrov de ter afirmado não ter autoridade para negociar um cessar-fogo e que o russo queria apenas “discutir” e não “resolver”. Já Lavrov afirmou que o encontro seria para tratar de questões humanitárias e que um cessar-fogo deveria ser decidido nas conversas realizadas em Belarus.

Muito provavelmente, a verdade é que Lavrov foi entregar um ultimato aos ucranianos. Ou aceitassem os termos russos ou enfrentarão uma ofensiva renovada, exatamente como no cenário comentado na mais recente coluna. Nas últimas horas, as colunas blindadas russas perto da capital Kiev começaram a se posicionar para um cerco e a Rússia estreou seu mais avançado avião no conflito. Se a ofensiva russa inicial teve péssimos planejamento e execução, não é possível esquecer que o país ainda possui “bala na agulha” para continuar no conflito. Infelizmente, para os próximos dias, o sentimento é de pessimismo.

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