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Um cadeirante e o aniversário do Dia D
| Foto: Ben STANSALL / AFP

O dia Seis de Junho marca o aniversário do Dia D, o início da operação aliada para a libertação da França durante a Segunda Guerra Mundial. No caso da data em 2019 ela possui um significado especial, os 75 anos da operação. As celebrações contam com diversos memoriais e a presença de autoridades políticas do mundo inteiro, como o francês Emmanuel Macron, o presidente Donald Trump dos EUA e uma cerimônia especial em Portsmouth, Inglaterra, com a presença da Rainha Elizabeth II do Reino Unido, a única liderança mundial presente e já nascida na ocasião.

“A Grande Cruzada”

O impacto do Dia D não pode ser subestimado. Os desembarques na Normandia envolveram soldados, marinheiros e pilotos dos EUA, britânicos, canadenses, australianos, tchecoslovacos, franceses, noruegueses e poloneses. No total, uma força de 156 mil homens chegou pelo mar e pelo ar, a maior operação de assalto embarcado da História. O Dia D abriu um terceiro front na guerra contra a Alemanha nazista; naquele momento, cerca de 620 mil aliados lutavam na Itália e seis milhões de soviéticos no front oriental.

Apenas dois meses depois do Dia D, as forças aliadas na França estavam na casa dos quatro milhões. Ao contrário do que os filmes podem transparecer, o Dia D não foi a última batalha. Apenas a luta pela Normandia durou mais de um mês e, entre o Dia D e a rendição nazista, passou-se quase um ano de luta, destruição e o custo de muitas vidas. Outra criação dos cinemas que leva a um debate bobo é a impressão sobre “quem” venceu a Segunda Guerra Mundial, qual aliado teria sido mais importante que o outro.

A Segunda Guerra foi uma guerra industrial, decidida pela mobilização das sociedades por completo. Disponibilidade de recursos naturais, de população, de produção. Tudo em escala gigantesca. Entre as nações aliadas, oito países mobilizaram mais que um milhão de pessoas. A URSS, com uma estimativa de 34 milhões de combatentes, lidera esse ranking, seguida pelos EUA, com cerca de 16 milhões. A soma de Reino Unido, Índia e Commonwealth resulta em cerca de nove milhões de combatentes.

A URSS também é o país aliado que mais sofreu baixas, com cerca de 10 milhões, seguida pela China, com 3.5 milhões de baixas militares. Todos os outros países aliados tiveram menos de meio milhão de mortos militares durante a Segunda Guerra Mundial. Já na economia, o titã aliado estava no continente americano. Uma estimativa do PIB dos países aliados em 1939 coloca a produção britânica em 284 bilhões de dólares, a soviética em 359 e a dos EUA na casa dos 800 bilhões.

Mesmo com uma enorme produção soviética e britânica, foram os EUA que produziram mais munição, veículos e aviões do que seus dois principais aliados somados, além de uma imensa produção naval. Se os EUA foram o maior produtor, mas não foram o que mais mobilizou tropas, para onde essa produção ia? Para os seus aliados: soviéticos, britânicos e também brasileiros. A grande questão é que não foi um dos aliados que derrotou o Eixo, mas uma aliança bem engrenada e complementar.

Os aliados

Tudo isso pode ser visto ainda no mundo de hoje, cujo legado é direto do pós-Segunda Guerra Mundial. E um homem teve um papel decisivo nisso tudo, o então presidente dos EUA Franklin Delano Roosevelt, conhecido como FDR. A primeira conferência dos futuros aliados, a Conferência do Atlântico, se deu em Agosto de 1941; futuros pois, naquele momento, os EUA ainda não estavam na guerra; FDR, entretanto, já previa que a entrada de seu país na guerra seria questão de tempo, e dobrou a resistência isolacionista dentro dos EUA.

É seguro dizer que, sem FDR, sem o estabelecimento de uma aliança global como a que derrotou o Eixo. A Conferência do Atlântico, entre FDR e Churchill, serviu para orquestrar os esforços conjuntos no contexto de bloqueio e de guerra submarina, além de delinear objetivos comuns e uma aliança com os soviéticos, recém-invadidos. A Conferência também rendeu a Carta do Atlântico, com princípios para reger a relação entre os países, incluindo as “quatro liberdades” defendidas por FDR; liberdade de expressão, de crença, da carência e do medo.

Posteriormente ocorreram conferências com autoridades francesas, chinesas e, principalmente, as conferências do Big Three, os líderes dos três principais aliados. Churchill e Stálin, por diversos motivos, não tinham exatamente a melhor relação ou profunda confiança um no outro; era FDR que intermediava o diálogo e viabilizava uma aliança tão profunda e ampla com essa. As conferências do Big Three, já referenciadas aqui, foram, primeiro, no final de 1943, em Teerã, na Pérsia, depois em fevereiro de 1945 em Ialta, na Crimeia.

Finalmente, em julho de 1945 em Potsdam, bem na Alemanha, quando os aliados estabeleceram os planos para a entrada soviética na guerra contra o Japão. Nessa última o representante dos EUA foi Harry Truman, então presidente, que assume o cargo por ser o vice-presidente de FDR, que falece em abril de 1945, quase um ano após o Dia D e meses antes da vitória final. Os aliados também criaram diversos comandos militares conjuntos e realizaram, no total, 21 conferências de alto nível. Em um desses comandos conjuntos, FDR deu outra grande contribuição para a vitória aliada.

Ele escolheu como comandante supremo das forças aliadas no Ocidente o general Dwight Eisenhower. A escolha presidencial não foi apenas pelas capacidades militares de Eisenhower, mas pelo fato de FDR saber que o escolhido teria que equilibrar uma delicada aliança com interesses, prioridades e egos diversos. O cinema imortalizou a disputa entre o general Patton dos EUA e o marechal Montgomery do Reino Unido, mas outras crises e necessidades também marcaram essa trajetória.

Um cadeirante em segredo

Existem vários motivos para aproveitar a data do Seis de Junho para lembrar do legado do FDR. Um deles é o fato de que talvez os leitores nunca tenham reparado que nas fotos oficiais do Big Three com a presença de Roosevelt, os líderes estejam sempre sentados. Isso era uma cortesia feita por Churchill e Stálin. FDR governou os EUA por doze anos, em meio à Grande Depressão, uma profunda crise econômica e social, e durante o maior conflito da humanidade. Todo esse tempo como cadeirante.

Mais do que cadeirante, FDR mantinha sua condição em segredo. Algo impensável hoje, o presidente da mais poderosa nação do planeta manter escondido por décadas o seu estado de saúde. Daí a cortesia dos outros líderes internacionais em posarem sentados para as fotos, para não evidenciar a diferença. Roosevelt conseguia se manter de pé por alguns períodos, mas habitualmente com algum amparo; de um púlpito, uma bengala, um corrimão, um ajudante de ordens, sempre de forma discreta. O círculo próximo do poder, por óbvio, sabia de sua condição de saúde.

Roosevelt ficou paraplégico aos 39 anos de idade, já na vida política; na época a suspeita do que causou a condição foi poliomielite. Especialistas contemporâneos comentam que um diagnóstico mais preciso seria de Síndrome de Guillain–Barré. Sua condição era mantida em segredo por medo do preconceito e de transmitir uma possível imagem pública de “fraqueza” ou “fragilidade”, o que prejudicaria FDR tanto nas urnas como perante eventuais opositores políticos.

Ter essa perspectiva sobre FDR em 2019 é interessante pois vive-se em tempos em que muitas coisas foram reduzidas ao “politicamente correto” ou “incorreto”. O tratamento respeitoso a pessoas cadeirantes, a promoção de políticas de acessibilidade, a valorização dessas pessoas no mercado de trabalho, tudo isso é, por vezes, reduzido a “politicamente correto”. Ao ponto de se achar justificável que uma pessoa com papel importante no cenário brasileiro recente seja chamado grosseiramente de “doente preso a cadeira de rodas", como se fosse uma expressão contra o “politicamente correto”, e não mera incivilidade.

Os avanços ainda são tímidos, mas já são perceptíveis. No século XXI dois nomes podem ser usados como exemplos disso. O atual presidente equatoriano, Lênin Moreno, foi o primeiro cadeirante eleito como um chefe de Estado ou de governo com sua condição explícita ao público eleitor. O historiador Tony Judt, afetado por uma doença degenerativa, produziu obras essenciais sobre nossos tempos. E, claro, Franklin Roosevelt, que contribuiu para a maior vitória civilizatória do século XX, a derrota do nazismo, e explicita como uma sociedade pode ganhar ao reconhecer o valor e o espaço de seus cidadãos cadeirantes, que não precisem mais se esconder.

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