Uma placa que diz “Black Lives Matter” foi colocada na “zona autônoma” de Seattle| Foto: David Ryder/Getty Images/AFP
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O movimento Black Lives Matter (BLM) surgiu na internet em julho de 2013, em decorrência da absolvição do segurança de bairro George Zimmerman, de ascendência hispânica, acusado de assassinar o jovem negro Trayvon Martin.

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Inconformada com a absolvição de Zimmerman, e na sequência de uma campanha maciça em favor de sua condenação por crime de cunho racista, a professora e militante Alicia Garza postou no Twitter a seguinte mensagem: “Pessoas negras, eu amo vocês. Eu nos amo. Nossas vidas importam. Vidas negras importam”. Ao compartilhar a postagem, a artista e militante Patrisse Khan-Cullors cunhou a hashtag #BlackLivesMatter (“Vidas Negras Importam”), que foi difundida pela escritora e militante Opal Tometi, a partir de quando viralizou.

A conotação racial conferida ao Caso Treyvon Martin foi a primeira de uma série de mentiras estruturais sobre as quais se fundou o BLM. Antes mesmo que as investigações tivessem início, foi assim que a grande imprensa americana interpretou o ocorrido. Personalidades, artistas e políticos mobilizaram-se de maneira impressionante, promovendo uma autêntica tempestade em copo d’água.

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Em plena sessão legislativa, o congressista Bobby Rush vestiu um capuz em referência a Trayvon Martin, e o capuz tornou-se, a partir de então, um símbolo de combate ao racismo contra os negros nos EUA. Como bom radical e demagogo, Barack Obama tratou de capitalizar politicamente sobre o ocorrido. “Se eu tivesse um filho, ele seria como Trayvon” – disse o então presidente americano, um dos grandes responsáveis pelo ambiente de ódio racial que hoje envenena o país. De uma hora para outra, graças a uma histeria coletiva muito bem induzida pelo partido Democrata, pela imprensa, pelo show business e pelo próprio governo, o imigrante hispânico George Zimmerman convertia-se em supremacista branco.

A versão que se pretendia veicular à época (e que até hoje é aceita sem ressalvas pelos órgãos de imprensa no Brasil) era que Zimmerman suspeitou de Trayvon por ele ser negro. Encharcados de ideologia politicamente correta até a medula, jornalistas de todo o mundo embarcaram docemente na versão de crime com motivações racistas, distorção que, posteriormente, seria desmentida pela realidade, a começar pelo fato de que Zimmerman acabou sendo acusado por homicídio de segundo grau (ou seja, não premeditado).

O encontrou fatal entre os dois homens ocorreu em 26 de fevereiro de 2012, num condomínio fechado na cidade de Sanford (Flórida). Na noite do incidente, Martin caminhava pelas ruas usando um capuz. Como, nos meses anteriores, os registros policiais indicassem um aumento considerável de assaltos a residência no local, a figura do jovem encapuzado acabou levantando as suspeitas de Zimmerman. O vigia seguiu Martin e, após entrar em confronto corporal com ele, fez o disparo fatal.

Antes de resolver seguir o adolescente, Zimmerman telefonou para o número de emergência 911 e falou com um policial. No decorrer da ligação, travou-se o seguinte diálogo:

Zimmerman: – Esse cara não parece estar bem-intencionado. Ou está drogado ou algo do tipo. Está chovendo e ele fica só perambulando, como se procurasse alguma coisa.

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Policial: – Certo. E esse sujeito, ele é negro, branco ou hispânico?

Zimmerman: – Parece ser negro.

De posse da gravação, a rede de televisão NBC decidiu editar o trecho, e a edição desonesta acabou servindo de estopim para o barril de pólvora racial que explodiu na sequência. Na versão da NBC, a fala de Zimmerman virou: “Acho que o cara não está bem-intencionado. Ele parece ser negro”.

Fica claro que, originalmente, o aspecto racial não havia sido introduzido por Zimmerman, mas pelo policial. No entanto, a NBC não hesitou em retratar o vigia como racista, introduzindo, de maneira artificial e espúria, um sério agravante ao suposto crime por ele cometido.

Após a farsa ter sido revelada, a emissora emitiu uma nota de desculpas, alegando se tratar de um mero “erro de produção”. Àquela altura, todavia, a peça de desinformação já havia produzido um estrago. Os radicais do politicamente correto ficaram histéricos, fazendo do incidente um cavalo de batalha.

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Além da ligação para o 911, outro evento determinante teve lugar antes do disparo. Desde o início do processo, o acusado alegou legítima defesa. Sua versão era de que levava a pior na briga com Martin, e que, por ser maior e mais forte, o adolescente chegou a bater com a sua cabeça sucessivas vezes contra o meio fio.

Como era de se esperar, a versão de Zimmerman foi logo desacreditada. Divulgou-se um vídeo em que o vigia, logo após ser preso, não apresentava ferimentos aparentes. Novamente, as imagens serviram de estímulo à sanha racialista dos formadores de opinião. E o clima de tensão racial foi se intensificando, sob os auspícios da mídia e do próprio governo. Militantes do grupo extremista Panteras Negras (que, surgido nos anos 60, havia sido extinto em 1982, mas acabou sendo revigorado durante o governo Obama) chegaram a oferecer uma recompensa de US$ 10 mil pela captura de Zimmerman. Mikhail Muhammad, líder do grupo, avisou que formaria uma milícia de milhares de negros para encontrar o vigia. Em suas palavras: “É olho por olho, dente por dente”.

Alguns dias depois, todavia, novas imagens divulgadas mostraram nitidamente os ferimentos na parte de trás da cabeça de Zimmerman, que teve também o nariz quebrado na briga com Martin. Testemunhas ouvidas confirmaram a versão de Zimmerman. E um relatório médico comprovou o nariz quebrado, os cortes na cabeça e os hematomas nos olhos.  Então, no dia 13 de julho de 2013, após 16 horas e meia de deliberação, e exame dos laudos periciais e provas testemunhais, um júri popular composto por seis pessoas concordou com a tese da legítima defesa, absolvendo George Zimmerman das acusações de homicídio em segundo grau e homicídio culposo. Sim, foi um encontro trágico, mas não houve assassinato, e – ao contrário da grande mentira repetida goebbelsianamente pela indústria de propaganda Democrata – nem sombra de racismo.

Àquela altura, contudo, a mentira já havia excitado a gula do monstro. O BLM agora espreitava à luz do dia, com a bocarra horrenda aberta, à cata de um novo pretexto para avançar a sua agenda revolucionária de ódio e divisão racial. E, eventualmente, esse pretexto surgiu no dia 9 de agosto de 2014, quando o jovem negro Michael Brown foi morto por um policial branco na cidade de Ferguson, na periferia de St. Louis (Missouri).

Assim como ocorrera no caso Treyvon Martin, a militância BLM não aguardou o início das investigações para acusar a polícia de racista. Como Brown estivesse desarmado no momento do incidente, a versão difundida foi a de um assassinato a sangue frio, mesmo depois de o jovem ter erguido os braços e gritado para o policial: “Hands up, don’t shoot” (“Estou com as mãos para cima, não atire”) – frase que, nas mãos da esquerda radical, acabou virando slogan e símbolo, tal como, no ano anterior, o capuz de Treyvon Martin.

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Como costuma fazer sempre que um negro é morto por policiais nos EUA (assim foi, por exemplo, com Eric Garner e George Floyd), a imprensa americana passou a retratar Brown como um “gigante gentil”, mais uma vítima inocente do racismo sistêmico, morto única e exclusivamente por ser negro. E então, munidos com essa narrativa prêt-à-porter, os radicais do movimento negro (a começar pelo onipresente Al Sharpton) resolveram promover uma onda de violência e destruição em Ferguson, que logo se espalhou pelo estado e, em seguida, pelo país.

Mas, novamente, a realidade voltou a desmentir a mentira ideológica segundo a qual o incidente em Ferguson fora uma execução policial motivada por racismo. Eis o que, de fato, ocorreu naquele 9 de agosto:

Pouco antes de ser morto, Michael Brown e um amigo roubaram pacotes de cigarros de uma loja de conveniência. Como mostram as imagens de uma câmera de segurança, o “gigante gentil” de quase dois metros de altura e 130 quilos agrediu o pequeno e franzino dono da loja, antes de se evadir do local levando o produto do roubo.

Informado da ocorrência e da descrição dos suspeitos, o policial Darren Wilson interceptou-os no meio da rua com o seu Chevrolet Tahoe. No ato de abrir a porta para sair do veículo, foi impedido por Brown, que, inclinando-se para dentro do carro, desferiu socos contra o rosto do policial e tentou tirar a sua arma. Ainda de dentro da viatura, Wilson conseguiu efetuar dois disparos, um dos quais atingiu o dedo polegar de Brown (fato posteriormente comprovado pela autópsia, que também identificou presença de maconha em seu organismo).

Em seguida, o suspeito correu pela rua, sendo perseguido pelo policial, que o mandou parar e se render. Ato contínuo, Brown se virou e avançou na direção de Wilson, que, mesmo efetuando novos disparos, só conseguiu neutralizar o agressor ao atingi-lo fatalmente na cabeça. Provas testemunhais, exames de balística e laudos periciais – como, por exemplo, a análise do padrão das manchas de sangue no asfalto – viriam a confirmar essa versão. Assim como ocorrera em Sanford, o policial também foi absolvido da acusação de homicídio. Depois de 25 dias de deliberação, durante os quais foram ouvidas mais de 70 horas de entrevistas e acessados os laudos periciais e os depoimentos de 60 testemunhas, um júri composto por 12 indivíduos concluiu que Darren Wilson agira em legítima defesa.

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Mas o movimento BLM e seus apóstolos não queriam saber de fatos. A decisão judicial provocou um novo surto de violência revolucionária ao redor do país, com dezenas de incêndios criminosos, e episódios de depredação de estabelecimentos comerciais e veículos. No Brooklyn (Nova York), os policiais Wenjian Liu (de origem asiática) e Rafael Ramos (de origem hispânica) foram executados por Ismaaiyl Brinsley, sujeito com extensa ficha criminal, que se suicidou em seguida. A grande mentira insistentemente repetida pela esquerda americana fazia mais vítimas. Em sua conta no Instagram, o assassino deixara uma mensagem de vingança pela morte de Brown: “Hoje vou mandar esses porcos para o espaço. Eles levaram um dos nossos. Vamos levar dois dos seus”. Em 2014, o assassinato de policiais cresceu 89% em todo o país.

Além dos efeitos destrutivos diretos e imediatos, manifestos nas riots que tomaram a América, a propaganda esquerdista em torno do caso Michael Brown também gerou consequências indiretas catastróficas. Dentre elas, a mais relevante talvez tenha sido aquela que se convencionou chamar de “Efeito Ferguson”.

O termo foi cunhado por Sam Dotson, chefe de polícia de St. Louis, e se referia ao recuo do politicamente ostensivo que se seguiu aos protestos contra a polícia, uma vez que os agentes da lei passaram a temer acusações de racismo, processos judiciais e campanhas de assassinato de reputação. Esse recuo, por sua vez, teria sido responsável pelo significativo aumento nos índices de criminalidade observado no país a partir do segundo semestre de 2014.

Com efeito, nas grandes cidades americanas, houve uma disparada no número de crimes registrados. Em Baltimore, por exemplo, crimes com arma de fogo subiram 60% no primeiro semestre de 2015. Em Milwaukee, os homicídios cresceram 180% em relação ao ano anterior. Em St. Louis, os tiroteios subiram 39%; os assaltos, 43%; e os homicídios, 25%. Em Atlanta, houve 32% a mais de assassinatos. Em Chicago, 17%. Em Los Angeles, tiroteios e outros incidentes violentes cresceram 25%. Em Nova York, os homicídios cresceram 13%. Para determinados bairros e regiões, os índices foram mais alarmantes. Em East Harlem, por exemplo, os tiroteios cresceram 500%. Na região de South Central, em Los Angeles, o número de vítimas de armas de fogo foi 100% maior em relação ao mesmo período do ano anterior.

Mas nem a revelação dos fatos – e até o esquerdista Washington Post, por exemplo, teve de reconhecer que o slogan Hands up, don’t shoot merecia receber o troféu Pinóquio – demoveu a esquerda radical de sua decisão de mentir, mentir e mentir em prol da causa revolucionária, que consiste em, nas palavras de Obama, “transformar fundamentalmente os Estados Unidos da América”; ou, nas palavras de um representante da Open Society de George Soros, que recentemente doou US$ 220 milhões para a agenda BLM, promover uma “reforma em escala total”. Para se ter uma ideia, em agosto do ano passado, senadoras Democratas como Elizabeth Warren e Kamala Harris ainda insistiam na tese de homicídio por motivação racial em relação ao caso Michael Brown, mesmo sabendo que, num relatório de quase 90 páginas, o próprio Departamento de Justiça do governo Obama havia concluído não haver “evidências críveis de que Wilson atirou deliberadamente em Brown enquanto este se entregava”, afirmando ainda que o policial “não agiu com intenção criminosa”.

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Para concluir, noto que, junto com a ideologia neorracista do BLM, essa feroz campanha anti-polícia tem sido importada para o Brasil, em larga medida financiada pelos mesmos agentes que operam nos EUA e alhures. O Estadão, por exemplo, acaba de publicar uma matéria com o título “Negros são 75% dos mortos pela polícia no Brasil, aponta relatório”. O tal relatório foi produzido pela Rede de Observatórios da Segurança, um projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, que conta com o apoio financeiro da Open Society, de George Soros, e da Ford Foundation.

Encontramos aí as mesmas teses sobre racismo sistêmico e a mesma retórica adotada pela esquerda radical americana. “Meninos negros das periferias aprendem a ter medo da polícia desde pequenos” – diz um trecho do relatório, no qual também se lê que “o racismo é o motor do funcionamento pleno das instituições herdadas de um país escravista, de uma elite colonial, e essas instituições agem conferindo desvantagens e privilégios a partir da raça”.

O que estamos assistindo no rescaldo da pandemia é uma campanha global, nada espontânea, de enfraquecimento das forças policiais, ao nível intranacional, e dos exércitos nacionais, ao nível internacional. Junto a isso, notamos um crescente estímulo às políticas identitárias avançadas pela extrema-esquerda, cujo objetivo não é outro que a balcanização social no seio de nações cada vez menos autoconscientes, e cada vez menos soberanas. Antes que medida sanitária, o tal “isolamento social” era, na verdade, parte de uma estratégia política de amplo espectro. Voltaremos ao tema em artigos futuros.