“Quando alguém se torna tirano, torna-se a mais selvagem de todas as feras humanas.” (Platão, A República)
Há cenas que sintetizam épocas. Em tempos clássicos, bastava um gesto para transformar um momento vulgar em símbolo histórico. César, cruzando o Rubicão. Dom Pedro, erguendo a espada à beira do Ipiranga. Churchill, fazendo com os dedos o “V” da vitória...
Alexandre de Moraes, ainda ministro do Supremo Tribunal Federal, apesar de sancionado pela Lei Global Magnitsky por violações aos direitos humanos, resolveu entrar para essa galeria histórica. Fê-lo, todavia, ao seu modo, sempre com gestos que parecem advir do submundo dos foras-da-lei (como, por exemplo, o gesto da degola). Nesse caso, o sancionado levantou o dedo do meio para a arquibancada de um estádio de futebol. Não seria exagero dizer que esse é o epítome moral da República caquistocrática do Brasil. “Histórico” – vibraram, na Globo News, as tietes de ditador.
Moraes escolheu o gesto que sintetiza sua relação com a legalidade: erguendo o dedo para a arquibancada, erguia-o também para o princípio do devido processo legal, para a liberdade de expressão, para o contraditório
Pois sim. No dia 30 de julho de 2025, Moraes entrou para a história como o primeiro ministro da mais alta corte de um país nominalmente democrático a ser enquadrado na legislação americana criada para punir déspotas, torturadores e corruptos internacionais. Acusado de censura sistemática, prisões arbitrárias e perseguição política, ele recebeu de Washington o que, no jargão civilizado, se chama “responsabilização global”. É o tipo de feito que, em países menos esculhambados, costuma ser acompanhado de renúncia, impeachment ou, no mínimo, recolhimento discreto. No Brasil, a gloriosa conquista – pois quem não tem Nobel caça com Magnitsky – fez com que o sancionado decidisse ir exibir a sua carranca grotesca no camarote de Itaquera.
Foi ali, sob as vaias de um povo que o odeia (como todos os povos odeiam tiranos), que, mostrando o dedo do meio, o sujeito resolveu extravasar o seu odioso desprezo por tudo aquilo que transcenda o seu ciclo de seguranças e puxa-sacos. Trata-se de um recurso expressivo que dispensa tradutores. No léxico da diplomacia, classifica-se como “resposta não verbal”. No da crônica política, como “confissão involuntária”. No campo da estética, poder-se-ia dizer tratar-se da convergência perfeita entre forma e conteúdo: a linguagem corporal finalmente alinhada à jurisprudência.
Nada disso surpreende. Moraes, sancionado por atos incompatíveis com a Constituição, escolheu o gesto que sintetiza sua relação com a legalidade: erguendo o dedo para a arquibancada, erguia-o também para o princípio do devido processo legal, para a liberdade de expressão, para o contraditório. E, claro, para os seus compatriotas. O dedo, afinal, é um instrumento de síntese política. Churchill acreditava que a eloquência moldava o poder; Moraes acredita que basta um gesto – e, no caso, o mais escroto possível, tradução perfeita de uma alma sombria e degradada. É assim, com o espírito obsceno, que ele escreve suas decisões. O caps lock e os pontos de exclamação em série são a versão em papel do dedo do meio.
A patética invocação da “soberania nacional” como escudo contra a Magnitsky não altera o quadro. Não há soberania para censurar, prender e legislar sem freios. Quando o sistema interno falha – e, sob o comando pusilânime de Pacheco e Alcolumbre, o Senado tem agido como lavanderia dos abusos do STF –, resta ao externo exercer o papel de limite. A sanção não é uma interferência, mas a constatação de que, no Brasil, já não há mecanismo interno capaz de dizer ao ministro o que a comunidade internacional disse ontem: que ele é um pária. Que um juiz de verdade não faz gesto de degola, não ameaça, não berra em caixa alta, não usa o cargo para vinganças pessoais e políticas. Se a ideia era preservar a soberania, talvez fosse prudente começar evitando transformar a arena global em tragicomédia diplomática.
A Magnitsky não pune a toga, mas pune o abuso da toga. Ou, melhor ainda: a toga transformada em fantasia. Como disse-o bem o secretário de Estado, Marco Rubio, ao anunciar a sanção: “Que isso sirva de alerta a todos que atropelam os direitos fundamentais de seus compatriotas – togas não oferecem proteção contra a justiça”.
O dedo de Moraes, registrado pelas câmeras, não é um arroubo de torcedor, mas a epígrafe de uma era em que a autoridade judicial perdeu qualquer compromisso com a dignidade que a sustenta. Ontem, Moraes foi sancionado. Ontem, Moraes mostrou o dedo. Amanhã, quando a história for escrita, a cena ficará como símbolo: o ministro que, confrontado pela comunidade internacional, respondeu como torcedor birrento e mal-educado. Talvez esse seja mesmo o maior serviço da Magnitsky: mostrar ao mundo que, por trás do bacharelismo pomposo dos nossos tribunais superiores, há pouco mais que gestos vulgares – e que, por trás dos gestos vulgares, há um projeto autoritário.
É assim, com o espírito obsceno, que Moraes escreve suas decisões. O caps lock e os pontos de exclamação em série são a versão em papel do dedo do meio
Folheando os anais da história, descobre-se uma galeria de personagens que, diante do colapso do próprio poder, souberam cair com um mínimo de grandeza – ou, ao menos, com senso de estilo. Catilina, acuado no Senado, respondeu com discursos inflamados antes de lançar-se à morte na batalha. Cromwell, dissolvendo o Parlamento, preferiu insultos bíblicos a gestos obscenos. Até mesmo uma besta-fera como Robespierre, no dia em que a Revolução lhe cobrou a fatura, não ergueu o dedo para a Convenção; ergueu a mão para segurar o maxilar esfacelado.
Moraes, ao contrário, inova. Consegue a proeza inédita de criar um novo tipo histórico: o déspota de arquibancada, que responde à sanção internacional não com sobriedade ou contrição, mas com esperneio de bêbado ou esgar de possesso.
Eis, portanto, a síntese perfeita da crise brasileira: o STF, que se arroga guardião da Constituição, entrega ao mundo, na figura de seu mais desonroso representante, o gesto que melhor traduz a sua doutrina – um dedo em riste contra a lei, a liberdade e o povo brasileiro. A sanção Magnitsky, ao atingi-lo, não é apenas um recado diplomático. É o ato simbólico de revelar ao Brasil a sua triste condição, que suas elites política, financeira e cultural se recusam a admitir. O que a luz da sanção internacional revela não é a imagem solene da Justiça, mas a caricatura grotesca de um poder que já não se esforça nem sequer para parecer republicano. Alexandre de Moraes, sancionado e rindo de ódio no camarote, mostra o dedo à plateia. Os Estados Unidos, sancionando-o, mostram que, ao contrário do Brasil, nem todo o planeta consentirá em tratar por magistrado legítimo um tipo como esse.
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